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Identidade

Por dentro do clube queer de Londres onde é proibida a entrada de homens cis

A festa queer e inclusiva LICK cresceu de uma noite mensal para o seu próprio espaço permanente. Estivemos na inauguração.

Por Helen Meriel Thomas; fotos por Bex Wade; Traduzido por Sérgio Felizardo
18 Julho 2019, 10:54am

Todas as fotos por Bex Wade.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Há uma piada no folclore queer feminino que diz mais ou menos isto: o que leva uma lésbica para um segundo encontro? Uma carrinha de mudanças. Para pessoas que não sabem muito sobre o que é ser uma mulher que curte outras mulheres, esta é uma piada sobre como as lésbicas levam as coisas a sério demasiado depressa, não perdendo tempo para assentar com alguém e nunca mais ter de sair com uma estranha.

Algo que não ajuda em nada a derrubar esse estereótipo é, por exemplo, o constante aumento das rendas, que levou ao encerramento de incontáveis espaços LGBTQ+ em Londres, particularmente aqueles voltados para mulheres.

Mas, o flirt queer – e a cena nocturna no geral – feminino pode estar preste a assistir a uma renascença, graças a um novo clube nocturno que acaba de abrir numa das zonas de festa gay mais famosas de Londres, Vauxhall. Em três anos, a LICK passou de uma noite mensal para as suas próprias instalações no Fire & Lightbox Complex, sob os Arcos de Vauxhall. Mas, há uma diferença entre a LICK e outros clubes gay, como o Royal Vauxhall Tavern, o Heaven ou até o bar lésbico She. A LICK é um espaço apenas para mulheres e pessoas não-binárias – não um clube para homens gay cisgénero.

LICK queer club Vauxhall Bex Wade VICE
LICK Queer Club Vauxhall London 2019 Bex Wade VICE

Completamente cheio uma hora depois da abertura na noite de inauguração, a popularidade do LICK prova que havia uma procura por espaços para miúdas queer que não estava a ser atendida. Robyn, uma bibliotecária de 26 anos que conheci naquela noite, disse-me que mesmo em discotecas LGBTQ mainstream, sentia-se posta de parte. “Muitas vezes há um tom anti-mulher, que é obstrutivo para todos”, explica. A gerente de um restaurante Alicia, também de 26 anos, concorda: “Gosto muito de ter um espaço só para mulheres, porque a comunidade gay é muito dominada por homens. E noutros clubes falta diversidade, não só de género, mas também de diferentes culturas”.

Quando entras no LICK, é óbvio o que os outros espaços queer em Londres não têm. DJs tocam hip hop e dancehall nas três pistas que formam o clube e B*Witched não aparece na playlist de nenhuma delas. É um espaço onde pessoas não-brancas são bem recebidas e se sentem visíveis; algo em que a fundadora Teddy Edwardes se queria focar quando começou os eventos e depois abriu o clube. “Quando comecei a LICK, não vias raparigass dessas comunidades no Soho. Não havia um lugar para mulheres mestiças, negras e asiáticas e nenhum sítio a tocar o tipo de música que elas ouvem. Queria convidar um público diverso”.

LICK queer club Vauxhall Bex Wade VICE
LICK Queer Club LGBTQ Bex Wade VICE

Como em qualquer outro clube, o LICK está cheio de cantinhos para trocar saliva com estranhas e abraçar cinturas suadas. Mulheres agarram-se contra as paredes dos arcos e os spots que rodeiam a cabine das DJs estão carregados de uma tesão esplendorosa. Sem os olhares dos homens hetero presentes em outras discotecas, LGBTQ ou não, aqui as mulheres queer podem finalmente assumir o palco. A abundância de mulheres e pessoas não-binárias a beijarem-se e a descerem até ao chão na pista de dança destaca como isso às vezes parece impossível noutros clubes, onde o fetichismo lésbico empurra as mulheres para as sombras e casas-de-banho por medo de assédio ou ataque.

Da mesma forma, simplesmente dançar e conversar parece ser curiosamente fácil. Há uma “zona de encontros” que parece um espaço seguro dentro de um espaço seguro, onde as frequentadoras podem sentar-se em mesas, conhecer novas pessoas e fazer uma pausa da pista movimentada. Numa era onde nove milhões de pessoas no Reino Unido dizem que se sentem solitárias, sempre ou com frequência, fornecer este tipo de espaço, sem qualquer subtileza, parece vital. Com vista para o espaço de encontros há uma mezzanine mais calma que, estranhamente, não mete medo. As casas-de-banho têm pensos higiénicos grátis.

LICK queer club Vauxhall Bex Wade VICE

Monica, uma engenheira de dados de 25 anos, realça que, mesmo enquanto hetero que não está à procura de ninguém, se sente bem acolhida. “Sinto-me tão confortável e não estou acostumada a isso em clubes. Esta é, provavelmente, uma das melhores festas a que vim em anos. Nas discotecas as raparigas podem, por vezes, ser muito competitivas entre si, mas aqui não sinto isso, porque não há homens. Não percebia o quanto isso mudaria a dinâmica. Não sinto pressão para impressionar ninguém. Posso, honestamente, ser eu mesma. E estou a ajudar a minha amiga a flirtar!”, sublinha.

Em 2015, a VICE enviou JD Samson das Le Tigre em busca do último bar lésbico dos EUA. Basta dizer que foi uma coisa meio deprimente. Sabemos que o encerramento de clubes gay está a aumentar não só lá, mas também no Reino Unido. Mas, apesar de todos os desafios que estes estabelecimentos enfrentam para sobreviver, parece que ainda não deram o seu último suspiro. Pelo menos não na capital britânica, agora que o LICK abriu. A comunidade de mulheres e pessoas não-binárias em Londres merece mesmo uma alternativa para a invisibilidade, isolamento e a cave do G-A-Y. Esperamos que o LICK continue por muitos e bons anos.


@iamhelenthomas / @Bexwade

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