'Resident Evil 2' resgata a arte perdida das demos de videogame

Na era do acesso antecipado e dos betas, o remake mostra o quão legal pode ser uma demozinha old school.
16.1.19
A screenshot from Resident Evil 2
Imagem: Capcom.

Os zumbis estavam batendo na porta; ela ia rangendo mais com cada golpe, como se estivesse prestes a ser derrubada. Essa era minha punição por fugir dos inimigos em vez de ficar na minha. Agora eu não tinha mais escolha. Eles estavam prestes a entrar, e eu só tinha 12 rodadas de munição. Me preparei e fiz a mira. Os monstros entraram; o sangue manchava suas roupas velhas e seus cabelos ensebados. Não demorou para avançarem na minha direção. Bam, bam, bam – e assim eles caíram. De repente percebi que eu estava segurando a respiração. Enfim exalei.

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A “one-shot demo” de 30 minutos do novo remake de Resident Evil 2, lançada sexta passada, é uma experiência bem amarrada que não decepciona. Também é um lembrete que, na era do acesso antecipado e dos betas, tem alguma coisa pura nessa humilde demo old school.

Demos são diferentes de como a maioria dos gamers atualmente jogam antes do lançamento dos games. Acesso antecipado a jogos no Steam, por exemplo, deixa os jogadores colocarem as mãos no jogo antes da data oficial, mas geralmente pede a eles para pagar por isso e também fornecer feedback para o desenvolvimento em curso. Testes beta, por sua vez, geralmente são lançados logo antes do jogo sair e são grátis, mas servem um propósito técnico – testar os servidores e o equilíbrio, por exemplo. Sendo assim, testes beta e títulos com acesso antecipado raramente mostram o melhor que o jogo tem a oferecer.

Uma demo propriamente dita, por outro lado, pode impressionar quando um jogo mostra o que tem de melhor. E é exatamente isso que Resident Evil 2 fez.

O jogo original aterrorizou os jogadores em 1998 e agora já foi refeito (ou reimaginado) usando tecnologia moderna – especificamente o RE Engine robusto que estreou no Resident Evil 7 de 2017. Antes do lançamento de Resident Evil 2 em 25 de janeiro, os desenvolvedores lançaram uma demo curta que permite que o jogador morra e comece de novo várias vezes num limite de 30 minutos, mas depois disso, suas chances acabam. Isso até o dia do lançamento. No total, mais de um milhão de pessoas jogaram a demo no final de semana.

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A demo é linda e sanguinolenta – você nunca viu uma cabeça de zumbi explodir com tantos detalhes – e os controles são muito bons, uma mudança bem-vinda dos controles pesados e da câmera fixa do original. A jogabilidade é muito parecida com Resident Evil 7, mas com uma câmera sob o ombro, uma ótima melhoria. Os zumbis são realmente assustadores, e é muito tenso e satisfatório plantar seu pé no chão e distribuir tiros na cabeça até que todos os vilões estejam mortos (ou mais mortos), ou o tempo acabar.

Esse limite também funciona porque, mesmo sendo curto demais para que eu terminasse a demo (pode me contar entre os dois terços dos jogadores que não conseguiram), ela mostra que tem muito mais detalhes e atmosfera nesse jogo para passar despercebido. E o limite não impediu alguns jogadores para quem 30 minutos não foi o suficiente, já que parece que acharam um jeito de burlar o limite e jogar de novo duplicando contas. Alguns jogadores já estão até fazendo speed-running da demo em menos de três minutos. Como com muitas das melhores demos de videogames, a “one-shot demo” de Resident Evil 2 está provando ser uma experiência estranhamente irrepreensível.

Esse é um testemunho de como, quando feitas direito, demos ainda são o melhor jeito de um videogame deixar uma impressão. PT, o “teaser jogável” da série engavetada de jogos Silent Hills, de Hideo Kojima e do diretor Guilhermo Del Toro, é um exemplo recente de uma demo transcendendo sua utilidade como simples ferramenta de promoção. PT ganhou quase uma seita e frequentemente é considerado um jogo em si. Fãs refizeram meticulosamente o jogo para PC, depois que ele foi lançado para PlayStation 4 e tirado da loja do console. A demo inspirou pelo menos dois outros jogos.

Lançar experiências tão fortes para promover um novo jogo parece algo de uma era passada, antes do Minecraft aparecer em 2009 e as pessoas pagarem por um jogo que ainda estava em desenvolvimento. Se feitas direito, elas lembram a emoção de jogar as primeiras demos de Metal Gear Solid, Half-Life ou Tony Hawk's Pro Skater 2 (aquela fase de edição). Paradoxalmente, elas são experiências satisfatórias que te deixam querendo mais, aumentando o hype enquanto o acesso antecipado tende a fazer o entusiasmo ir perdendo o gás lentamente.

Bom, o que estou dizendo é que aprecio muito uma demo sólida, e Resident Evil 2 entregou exatamente isso. Ou, pelo menos, fez o que todas as demos visam fazer – me vender um jogo.

O jogo Resident Evil 2 sairá no dia 25 para PS4, Xbox One e PC.

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