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Quem Disse que Discotecar É uma Exclusividade dos Jovens?

Selecionamos seis experientes DJs ao redor do mundo, muitos deles pais do seu gênero preferido de música eletrônica. Aprenda com eles.

Discotecar é um trabalho prazeroso: você é pago para voar ao redor do mundo tocando músicas feitas por outras pessoas e fazendo o trabalho delas. Parece ser o paraíso. Logo, não é de se estranhar que para muitos DJs a chegada da meia-idade raramente seja um impedimento. Claro que, ao invés de horas, as ressacas demoram dias para ir embora, e a dor na coluna só piora. Ainda assim, a paixão simplesmente NÃO evapora. Muito menos a vocação ou a ambição para tocar.

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Com um número cada vez maior de jovens produtores e DJs migrando do quartinho de fundo dos pubs para as pistas, há uma demanda crescente por um tipo de solidez e autoconfiança que apenas os caras das antigas podem proporcionar. Uma solidez de homens e mulheres com 20, 30 anos de experiência nas picapes, os ainda chamados disc-jóqueis que vêm contando histórias com seus sets há pelo menos mais de uma década.

Com isso em mente, fomos atrás de DJs ao redor do mundo, para os quais a idade não passa de um número.

DENNY TENAGLIA (63)

Acho que os tempos à nossa volta estão mudando tão rápido, e isso que de fato é envelhecer. Toda a cena e a forma como ela se transferiu de boates gigantescas para espaços menores, ou para uma série de festivais pós-rave, em vários lugares do mundo, e também a palcos… esse é o tipo de coisa que é difícil de acompanhar. Mas não acho que o fato de eu estar envelhecendo afete minha atitude ou a forma como encaro minha carreira como DJ. Eu ainda amo a atividade como amava há 35 anos. A ambição ainda é a mesma.

Qualquer pessoa que tem um histórico de 10, 20, ou talvez 30 anos como DJ, é admirado por seu conhecimento e anos de devoção e paixão. Somos vistos como mentores agora. E acho que as pessoas são realmente capazes de sentir a diferença quando ouvem um DJ como eu, onde mesmo que em um set de apenas duas ou três horas, vai tocar de um jeito mais enfático que um DJ que está tocando há pouco tempo e talvez nunca tenha sido residente em uma boate, nunca tocou com vinil, CDs ou usou um gravador reel-to-reel e não manja nada da arte de tocar desde o início da festa, passando pela hora de pico até chegar ao final. Por quase três década, isso era normal para mim, então definitivamente minha discotecagem tem abordagem diferente - e acho que as pessoas podem, sem dúvida, apreciar isso.

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ALFREDO (61)

Alfredo, o argentino favorito de Ibiza, basicamente criou sozinho o Balearic house enquanto um som reconhecível e codificável. Começando sua carreira como DJ e barman, ele eventualmente era chamado para tocar na boate a céu aberto bem no meio da estrada, a Amnesia. Mesmo aos 61 anos, você ainda pode encontrá-lo comandando as picapes da Space com uma coletânea que varia entre jazz, boogie, house, folk, psyche e techno. Alfredo é a alma de Ibiza.

Discotecar é algo que quero fazer até quando a evolução da cena me permitir - e também, é claro, enquanto minha idade permitir. Eu costumo tocar no Japão, Bali e Suíça e, às vezes, no Reino Unido com o meu filho Jaime, o que é muito prazeroso para mim. Minha agenda não é tão cheia como costumava ser, mas acho que isso é natural. A plateia muda e há uma série de DJs novos no pedaço. Mas ao mesmo tempo ainda sinto que tenho muito a mostrar.

TERRY FARLEY (56)

Eu lembro de todos os DJs residentes dizendo que iam desistir antes de chegar aos 40. Tenho certeza de que li Frankie Knuckles dizendo o mesmo em 1990 mas as coisas mudaram. O house agora é uma cultura da mesma forma que gêneros como o reggae, hip hop e - ouso dizer - o jazz são. Se você faz música e pode contribuir positivamente, então certamente há um lugar em alguma cena cultural musical na qual você se encaixa. Sou sortudo de tocar em uma cena dessas para pessoas que amam house e disco. Você encontra todas as idades, raças e sexualidades nesse espectro cultural. Eu não tocaria em uma boate de rua comercial onde não tivesse controle sobre exatamente quais músicas vou tocar.

O que faria eu ter vontade de largar a discotecagem? Não sentir a música que estou tocando ou não ser capaz de fazer as pessoas dançarem mais. Comecei a tocar de graça e vou terminar tocando de graça desde que haja uma sintonia enquanto eu toco e eu realmente ame a música que estou tocando. Eu acho mesmo que muitos dos 'DJs mais velhos' que tocam um trance/hard dance mais comercial não curtem realmente o que estão discotecando.

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Se eu chegar aos 80 anos, é claro que estarei ouvindo house music - por que não estaria? Você acha que clássicos atemporais como "Tears" e "Your Love" soarão como porcaria daqui há 30 anos? Não, eles irão soar tão bem quanto o clássico rock 'n' roll soa hoje em dia. House music - assim como reggae, funk e hip-hop - jamais irá morrer. Faz parte do nosso DNA agora.

GREG WILSON (54)

[Discotecagem] é algo que você olha para os próximos cinco anos e pensa: 'onde você estará a essa altura da vida?'. Acho que no meu caso, é uma questão de como as coisas se desenrolam. Eu notei no passado ao longo de alguns anos, que se você faz muitas coisas ao mesmo tempo, isso pode ser bem exaustivo. Lembro de conversar com um DJ de 20 e poucos anos que estava literalmente indo até a China por apenas uma noite para fazer um show. Isso é loucura! Eu ficaria destruído pelo fuso-horário e tudo mais, então acho que é importante desacelerar um pouco e se cuidar para não ficar ligadão demais.

Quando eu voltei a ativa, há 10 anos, tinha certeza de que não queria ser esse DJ mumificado, vindo do passado, que toca músicas antigas do mesmo jeito antigo - então a reedição me possibilita pegar essas músicas e recontextualizá-las em um cenário contemporâneo, então é como se fosse o meio do caminho. E foi isso que me ajudou a preencher essa lacuna entre o passado e o presente.

Quando comecei, eu sempre era o jovem da turma. Eu tinha 15 anos. Estar do outro lado agora e me ver como uma espécie de estadista ancião… é esquisito. Mas é algo que já me acostumei. Sou o tipo de pessoa que precisa saber o que está fazendo e por que está fazendo. Não é suficiente para mim apenas fazer um trabalho e ganhar dinheiro com ele. Se não tiver um fundamento, tenho dificuldade em continuar. Foi por isso que saí desse meio: não estava mais apaixonado por ele.

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DAVE SEAMAN (46)

Como integrante do "Brothers In Rhythm", Seaman foi uma das pessoas chave na cena britânica do progressive house no início dos anos 90, que também lançou estrelas renomadas como Sasha. Ele mixou uma série de compilações clássicas para a Renaissance e Global Underground, remixou vários artistas, de Pet Shop Boys até Kylie Minogue, e também se aventurou como editor da revista Mixmag. Hoje ele possui a label Selador Recordings e continua discotecando no mundo todo.

A maior mudança para mim nos últimos anos tem sido a de que eu tenho uma família jovem, então estou sempre no último voo de ida e no primeiro voo de volta para conseguir passar o máximo de tempo com eles. Não faço mais turnês de semanas a fio. Agora eu descanso mais no fim-de-semana do que quando estou em casa! Ter que me virar para fazer tudo ao mesmo tempo é muito mais raro. Eu acho graça quando vejo DJs reclamando de aeroportos, voos e o fato de viajarem muito a trabalho. É nesse tempo que mais me dedico às minhas coisas hoje em dia. É o meu tempo 'pra mim' que eu tanto almejo!

Eu nunca pensei em largar tudo. Às vezes eu tenho alguns shows ruins e posso vir a me questionar, mas a conclusão que eu chego sempre é de que isso serve de motivação para me esforçar mais e ser melhor. Nasci para fazer isso e enquanto não chegar o dia em que não me empolgo mais em sair de casa e tocar para as pessoas, eu não vou aposentar os meus fones de ouvido tão cedo.

COA GIL (63)

Gilbert Levy nasceu em San Francisco em 1951 e foi engolido pela atmosfera hippie da cidade nos anos 60. Ele começou a viajar o mundo em 1969 e acabou se estabelecendo no oeste da Índia, onde se tornou Goa Gil. Ele passou as duas próximas décadas discotecando em festas na praia, desenvolvendo o Goa trance, o pai do psytrance. Quando ele não estava atrás das picapes, estava se transformando em um sadhu - um homem sagrado indiano. Ele discoteca ao redor do mundo até hoje.

Idade não é algo que eu de fato leve em conta no que diz respeito a qualquer coisa! Eu estou simplesmente levando a minha vida, estou apenas sendo eu mesmo e não realmente pensando muito nas coisas. Eu só faço o que precisa ser feito. O universo está sempre me dando sinais.

Eu diria que a minha idade é saudada com reverência. A maioria das pessoas que seguem meu trabalho me veem como um baba ["pai" em indiano] e eles estão vindo [para os meus shows] para conseguirem um contato maior com o baba. Vim à India pela primeira vez quando tinha 18 anos, viajei pelo país com um sadhu e participei de uma cerimônia diksa [uma iniciação budista ou hindu] em 1970. Sempre me mantive conectado com minha religião e a música é de certa forma uma expressão de espiritualidade para mim. Essa é a minha missão.

Siga o Ben no Twitter: @bengomori

Tradução: Stefania Cannone