Por que Ronald Reagan foi a melhor coisa que aconteceu para o punk rock norte-americano

Nos anos 80, o kit básico de banda punk consistia em: dois acordes, muita raiva e um desenho do Reagan com bigodinho Hitler.
24.3.16

Os punk rockers do começo dos anos 80 tinham uma lista negra bem definida: hippies, valentões, pais e qualquer outra pessoa que não estivesse suficientemente puta com o próprio conceito da existência. Mas essa raiva geralmente era tipo um míssil de calor desgovernado procurando um corpo quente. Aí, em 20 de janeiro de 1981, a cena punk norte-americana encontrou um puta adversário e catalisador quando Ronald Reagan, ex-governador da Califórnia e um astro de cinema que era praticamente uma caricatura de conservador dos anos 50, foi eleito. Nos oito anos seguintes, sua retórica e políticas de direita inspiraram uma mistura de ódio e desprezo que abasteceria a cena do punk e hardcore dos EUA por décadas.

É difícil apontar exatamente o que fazia Reagan ser detestável de um jeito que seu predecessor, Jimmy Carter, nunca seria. Foder com os pobres, seu longo histórico de perseguição de ativistas de esquerda ou apenas sua imagem pública (e da sua esposa antifeminista e antidrogas) faziam do cara um avatar falseta do Sonho Americano — seja lá qual fosse a causa, não demorou muito para os hinos anti-Reagan se tornarem uma marca do gênero.

Você pode falar sobre a faixa "Fucked Up Ronnie" dos pioneiros do punk canadense DOA, lançada em 1981 no EP Positively DOA. Ou sobre músicas como "Hey Ronnie" do Government Issue de Washington, "Reaganomics" do D.R.I. do Texas e "If Reagan Played Disco" do Minutemen da Califórnia. A Nancy também recebeu sua parcela de ódio, na forma de canções como "I'm in Love With Nancy Reagan" do TMA de Nova Jersey.

Essa última se baseava na ideia de que punks gritando sobre comer a primeira-dama era hilário, mas outras bandas eram mais explicitamente políticas, ou simplesmente mais explícitas. Jello Biafra e os Dead Kennedys usavam todas as oportunidades para alfinetar o falso senso de segurança que Reagan tentava passar, o chamando de senhor da guerra fascista e até pior. (A banda foi o destaque dos shows Rock Against Reagan em 1984.) E não vamos esquecer o fanzine de San Francisco

Maximum Rock 'N' Roll

, editado por Biafra nas primeiras edições. Lançado no verão de 1982, o

MRR

apresentava longos artigos como "Propaganda Punk: Protesto ou Proselitismo?" e "Uma Introdução aos Teóricos Situacionistas". Mas você não precisava de um diploma para chamar o presidente anticomunista, invasor de Granada e derrubador de governos de pau no cu — os punks sempre vão questionar a autoridade, especialmente uma que fica tão bem com bigodinho de Hitler, chifres e uma suástica na manga.

Mas quando Reagan foi reeleito em 84, aquela fagulha de turbulência que ele causou pareceu ter se apagado; talvez a cena hardcore tenha percebido que raiva apenas não ia tirar o cara da Casa Branca, talvez os vocalistas tenham ficado sem ideia para letras. Mesmo uma banda como o Wasted Youth de LA, cujo LP de 1981 se chamava

Reagan's In

, começou a lançar discos mais bobinhos como

Get Out of My Yard!

No disco de adeus do Dead Kennedys de 1986,

Bedtime for Democracy

, Biafra mandava seu discurso usual anti-Reagan em músicas como "Rambozo the Clown" e "Gone with My Wind", mas aí a ideia já soava repetitiva pra muita gente. Consciência social tinha se tornado uma muleta cansada para o hardcore no final dos anos 80, quando a cultura straight edge imperava.

O ódio do punk por Reagan pode parecer datado agora, mas essas bandas resgataram e revigoraram as músicas de protesto, que nos anos 80 tinham se calcificado em porcarias de dar sono como "Land of Confusion" do Genesis e "Beds Are Burning" do Midnight Oil. Reagan deixou um legado bastante escroto, mas ele vai bem além das mortes por AIDS que ficaram fora das estastísticas e acordos de vendas de armas — como odiar inteiramente um cara que inspirou músicas como "Reagan Youth" do Reagan Youth, "White House" do Sector 4 ou "Hinkley Had a Vision" do Crucifucks?

Agora que as eleições presidenciais norte-americanas se aproximam, vale a pena olhar para tudo isso e tentar encontrar um ponto positivo na possibilidade da eleição de Donald Trump. Claro, ele é um otário bronzaedo, racista, mentiroso e entusiasta da tortura, mas será que pode levar a uma revolução do punk rock, similar a que vimos no começo dos anos 80? Na América de Trump, talvez você tenha que enterrar sua coleção dos singles do Dangerhouse no quintal da sua tia como se fosse pornografia infantil, mas não tenha dúvida que músicas bem loucas serão compostas sobre esses quatro anos de merda para o país. Mas de uma coisa estou certo: vou registrar os nomes de banda Trump Youth, Trump SS e Millions of Dead Trumps.

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