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Quando a Nação do Islã Encontrou os Nazistas

Um olhar sobre a estranha aliança entre a Nação do Islã e do Partido Nazi Americano.
13.5.15

No dia 25 de junho de 1961, um domingo, dez membros do Partido Nazi Americano chegaram a um comício da Nação do Islãem Washington, DC. O fundador do partido, George Lincoln Rockwell, levou o grupo para a Uline Arena, um estádio de 23 mil metros quadrados que, mais tarde, seria palco do primeiro show dos Beatles nos EUA. De coluna ereta, queixo quadrado e olhar penetrante e impiedoso, Rockwell parecia um vilão saído diretamente de Hollywood. ("Ele é muito mais alto que Hitler", apontou a Esquire em um artigo, no geral, mordaz. "E muito mais bonito.") O Uline estava quase lotado. Os nazistas estavam em desvantagem de 800 para um.

Os fascistas não apareceram para uma última batalha sangrenta até a morte. Pelo contrário: os seguranças do Fruto do Islã, braço paramilitar da Nação, revistaram e conduziram os homens a assentos bem no centro da primeira fileira. As camisas pardas embotadas e braçadeiras com a suástica se destacavam em meio a ternos e gravatas. Apesar do calor de 32°C, Rockwell e seus homens esperaram horas pela atração principal do evento. Não há registro de sequer um esboço de sorriso diante do absurdo da situação.

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O responsável pelo discurso de abertura do evento naquela noite, o líder da Nação, Elijah Muhammad, cancelara a presença por motivo de saúde. Segundo o historiador William Schmaltz, Malcolm X fez um discurso, seguido de um apelo para doações direcionado aos poucos brancos da plateia. Rockwell contribuiu com US$ 20. Quando a fotógrafa da Life Eve Arnold levantou a câmera para registrar os nazistas, Rockwell – provavelmente alertado pelos muçulmanos sobre a ascendência judia dela – teria grunhido: "Faço sabão com você". (Ao que ela retrucou: "Se não fizer abajur, está bom.")

O antissemitismo declarado, verificou-se, era uma coisa que os dois grupos tinham em comum. Enquanto Rockwell levava seu ódio aos judeus a extremos espumantes, Muhammad respaldava uma série de teorias racistas, incluindo um boato de que os semitas teriam financiado o tráfico de escravos. (Malcolm X era mais cauteloso com o próprio antissemitismo, muitas vezes assentindo às teorias da conspiração de Muhammad em vez de expor as próprias.) Vociferar publicamente contra os judeus talvez ofendesse a população em geral mais naquele verão de 1961 do que hoje em dia. A quase dez mil quilômetros dali, o julgamento de Adolf Eichmann, em Israel, havia cativado a atenção do mundo e aumentado de forma dramática a cobertura das atrocidades do Holocausto.

A divisão das raças era outra quizila. O discurso de Malcolm X para aquela noite se intitulava "Separação ou Morte". Dentro do estádio, Rockwell declarou a repórteres: "Estou de total acordo com o programa deles e tenho o máximo respeito por Elijah Muhammad". A questão sobre para onde mandar os negros norte-americanos – a NOI queria um pedaço dos EUA e o PNA, a deportação de todos para a África – era, afirmou, sua única contenda com os muçulmanos.

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Não era bem verdade. Os nazistas e a NOI também discordavam sobre o fato de os negros serem seres humanos. Durante os três anos de carreira abertamente nazista, Rockwell repetidas vezes se referiu aos afrodescendentes como "crioulos de brinco no nariz", "basicamente animalescos" e "não mais que chimpanzés". Com a aliança, ele de repente enfiou um imenso asterisco na própria supremacia branca.

O curioso é que a Nação do Islã já tinha um histórico de parcerias desse tipo. Seis meses antes, Muhammad havia mandado Malcolm X a uma reunião ultrassecreta com a Ku Klux Klan de Atlanta. Em uma volta à conferência entre Marcus Garvey e a cúpula da KKK em 1922, os dois grupos negociaram uma trégua bizarra: a segurança da mesquita local em troca de apoio da Nação à separação racial.

Mas a reunião tinha um propósito, ainda que tênue. A aliança com os nazistas não trazia nenhuma vantagem óbvia para os muçulmanos. As desavenças entre Malcolm X e Rockwell eram existenciais. Enquanto o primeiro havia saído de uma vida de crimes e ascendera à proeminência nacional, o segundo tinha empenhado – e destruído sua própria família e finanças – para se tornar um pária da nação, deixando o status de oficial da marinha condecorado para se afundar como comandante nazista tresloucado em apenas seis anos.

O antissemitismo declarado, verificou-se, era uma coisa que os dois grupos tinham para se relacionar.

A reunião de cúpula de Washington teria se apresentado como um contraste amargo aos escassos encontros usuais de Rockwell. Um público de oito mil pessoas era uma coisa com a qual ele só poderia sonhar. Até mesmo a abóboda imponente do prédio insinuava a arquitetura fascista que ele via como seu destino inalienável (em toda a sua carreira, diversas vezes ele mencionou a tomada de controle dos EUA até 1972). Para o líder nazista, a aliança servia a uma fantasia enraizada em uma absurdez grandiloquente. "Imaginem vocês um comício dos nazistas norte-americanos na Union Square", escreveria mais tarde a seus seguidores, "protegido contra judeus impertinentes por uma sólida falange de tropas de choque formada por negros adeptos de Elijah Muhammad".

E enquanto a complexidade de Malcolm X era famosa, Rockwell se identificava, ele próprio, como um personagem de desenho animado. Com a mídia controlada pelos judeus, ponderava o nazista, protestos políticos de massa promovidos pela extrema direita estariam condenados ao fracasso através da invisibilidade.

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"Tentei, mas ninguém prestava atenção em mim", tempos depois afirmou em uma entrevista sobre suas atividades políticas pré-nazistas. "Mas ninguém vai ignorar se os nazistas saírem às ruas em marcha."

Seguindo essa lógica, o PNA produziu uma variedade de propagandas para abastecer o preconceituoso juvenil. Um item, O Diário de Anne Fink (16 páginas de fotos de atrocidades do Holocausto com legendas jocosas), foi divulgado na publicação The Rockwell Reportcomo "humor doentio", uma estranha alusão à revista Mad, a Lenny Bruce e a um mundo de comédia "degenerada" judia que os nazistas deveriam, pela lógica, atacar.

Um resultado dessa publicidade cretina foi que Rockwell recrutou um pessoal excepcionalmente inepto, atraindo hordas de nazistas que, ele próprio admitia, eram "de uma burrice inacreditável". E, mesmo assim, ele insistia em mirar no mínimo denominador comum do mínimo denominador comum. O PNA tirava sarro dos Viajantes da Liberdade antissegregacionistas com uma perua da Volkswagen apelidada de "Ônibus do Ódio". Alguns manifestantes do partido usavam óculos do Groucho Marx e narizes de borracha nos protestos. Por que a Nação do Islã, famosa pela disciplina, se aliaria a essas criaturas?

PARTIDO NAZI AMERICANO
O PNA foi fundado em 1959 por George Lincoln Rockwell em Arlington, Virgínia. Rockwell foi assassinado oito anos depois por um antigo membro do próprio partido.

Uma possível resposta surgiria oito meses depois. Em 25 de fevereiro de 1962, o PNA foi convidado para um segundo comício, desta vez na convenção do Dia do Salvador da Nação do Islã, em Chicago. Rockwell falou para a plateia depois de Muhammad. Diante de cerca de 12 mil afrodescendentes, o líder nazista não se fez de rogado.

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"Vocês sabem que chamamos vocês de 'crioulos'. Mas vocês não preferem ser confrontados por homens brancos sinceros que falam na sua cara o que todos os outros estão dizendo pelas suas costas?"

Como orador, Rockwell divertia sem ser particularmente autoritário (na cadência, mimetizava o comediante Red Skelton). Sua voz não era a de um führer e o Anfiteatro Internacional de Chicago não era o seu comício de Nuremberg. Obviamente, a ironia do momento não teria escapado a ele: aquele era o maior público para o qual já havia discursado até aquele então (e continuaria a ser por toda a sua vida).

"Não tenho medo de vir aqui na frente falar para vocês que odeio a mistura das raças e vou combater isso até a morte", prosseguiu Rockwell. "Mas, ao mesmo tempo, farei de tudo que estiver ao meu alcance para ajudar o honorável Elijah Muhammad a realizar seu inspirado plano de terra para vocês na África. Elijah Muhammad está certo. Separação ou morte!" O público vacilava entre o aplauso educado e as vaias. Dois meses depois, Muhammad, em um artigo para o jornal da Nação, repreendeu seu rebanho pela recepção fria: "Se eles estão falando a verdade para nós, o que importa? Viramos de cabeça para baixo e aplaudimos!".

Esse aceno mútuo de "honestidade" e "verdade" nos dá um vislumbre da possível base para essa aliança. Rockwell e Muhammad se consideravam autênticos, pessoas dispostas a falar a verdade – suas próprias versões dela – a qualquer custo. A propaganda que faziam a seus eleitorados dependia dessa imagem e cada um tirava sua legitimidade da aparência de não terem papas na língua. A existência de Rockwell era útil para a Nação do Islã como ferramenta de recrutamento; sua presença física, evidência da autenticidade do próprio Muhammad.

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Malcolm X não fez parte dessa armadilha de legitimidade e deixava claro que não era recíproca a grande estima de Rockwell. Quando o nazista foi aplaudido em 1961 por doar US$ 20, Malcolm X riu ao microfone e disse: "Essa foi a maior salva de palmas da sua vida, não é mesmo, senhor Rockwell?".

Depois que as lutas pelos direitos civis dos anos 50 abriram caminho para os vitórias do início da década de 60, os dois se viram operando na imensa sombra de Martin Luther King Jr. Os nazistas, desafiados pela ofensiva de triunfos legislativos que se seguiram às ações de King, foram para as trincheiras. Malcolm X, diante do afastamento cada vez maior entre sua retórica com a Nação do Islã e os sucessos da resistência não-violenta, abrandou o discurso.

Rockwell e Muhammad se consideravam autênticos, pessoas dispostas a falar a verdade – suas próprias versões dela – a qualquer custo.

Depois de sair da Nação do Islã em 1964, Malcolm X usou a aliança do movimento com a KKK como acusação contra Muhammad. No ano seguinte, enviou um telegrama a George Lincoln Rockwell:

Isto é para avisá-lo que não sou mais reprimido na minha luta contra os supremacistas brancos pelo movimento muçulmano negro separatista de Elijah Muhammad, e que, se sua atual agitação racista contra nosso povo no Alabama provocar dano físico ao Reverendo King ou a quaisquer outros negros norte-americanos que só estão tentando usufruir de seus direitos como seres humanos livres, você e seus amigos da Ku Klux Klan receberão máxima retaliação física…

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Em três anos, os dois estariam mortos, supostamente assassinados por antigos aliados.

Mas o fantasma da aliança sobrevive ainda hoje. A Nação do Islã, sob os auspícios de Louis Farrakhan, mantém uma parceria pública com o supremacista branco Tom Metzger. E, na última década, o site do Partido Nazi Americano criou uma "Página do Simpatizante Não-ariano", oferecendo "um meio para os não-brancos ajudarem a nossa luta" enviando contribuições.

Mas a aliança póstuma involuntária de Malcolm X é talvez ainda mais estranha, na forma de aceitação popular pela sociedade supremacista branca contra a qual ele lutou em vida: o governo norte-americano acabou homenageando o ativista com um selo postal.

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Tradução: Aline Scátola