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Tecnologia

O mercado de revenda de iPhones

Em Hong Kong há uma rua tão cheia de gente, que circular por ela é quase missão impossível.
29 October 2014, 4:44pm

Revendedores de iPhones à saída da loja da Apple no distrito de Causeway Bay, em Hong Kong (fotos por Michael Grothaus e José Farinha)

Em Hong Kong há uma rua tão cheia de gente, que circular por ela é quase missão impossível. Não estou a falar da zona ocupada pelos manifestantes a favor da democracia – que também estão muito concorridas -, mas sim de Kai Chiu Road, a rua que passa em frente à loja da Apple no distrito de Causeway Bay.

Os passeios estão a abarrotar de gente ali instalada, desde as tantas da manhã até às tantas da noite. Só que ao contrário dos seus vizinhos manifestantes, (que estão só a 20 minutos dali), a sua intenção não é exigir umas eleições transparentes e abertas. O que eles querem é ganhar dinheiro fácil com a venda de iPhones novos em folha. Atrevo-me a dizer que, Kai Chiu Road é a zona zero do mercado paralelo da Apple, na Ásia.

Quando lá chego vejo que há uma mistura de capitalistas chineses, alguns funcionários da Apple que assobiam para o ar, e um grupo de revendedores bastante denso a ganhar o pão nosso de cada dia. “Tenho um iPhone 6 Plus dourado de 128 para ti”, diz-me um deles, assim que me vê chegar. Tento esquivar-me. “Só custa dez mil dólares de Hong Kong (uns 1.000 euros)”.

“Dez mil é um roubo”, respondo, enquanto aponto para a loja Apple a uns metros de distância. “Ali posso comprá-los por oito”.

O homem desata a rir - “Os da Apple já não têm iPhones. Nós comprámo-los todos”.

A mulher que está ao seu lado, (outra vendedora, mas com menos mercadoria), faz-me sinal quando percebe que ignorei o primeiro vendedor. Tem sete iPhones empacotados numa caixa de plástico. Não fala inglês, mas entendeu o preço do vizinho, e sem perder tempo pega na calculadora e vira-a para mim: 9.700.

Sorrio, mas não paro. Passeio por Kai Chiu Road durante uns minutos ao mesmo tempo que observo como circulam alguns milhões de dólares em frente à loja da Apple. A maioria dos compradores são turistas chineses do continente, que estão de visita para fazer compras, e que anseiam por ter um iPhone. Em Hong Kong, estes novos aparelhos da Apple foram postos à venda a 21 de Setembro, quase um mês antes do lançamento na China continental.

Enquanto pego no meu próprio iPhone, para fotografar o único mercado de um só produto que vi na vida, pergunto-me se este circuito paralelo não incomodará os tipos da Apple, que está já ali, mesmo em frente.

A resposta não tarda nada.

Até agora, os seguranças da Apple, equipados com as suas camisetas negras – provavelmente, trabalhadores de uma empresa subcontratada – limitam-se a observar o panorama, impávidos e serenos. Mas assim que me vêm tirar fotografias com o telemóvel, saem da loja, vêm na minha direcção e põem-se à minha frente, de uma maneira que não me deixam ver nada. Aparentemente sou a única pessoa a cometer uma ilegalidade.

Esta situação violenta dura vários segundos, num cara a cara cerrado com um escudo humano, composto por cinco seguranças. Decido guardar o telefone no bolso e vou até à loja, enquanto eles me seguem com o olhar.

Um revendedor de iPhones em frente à loja da Apple

Dentro da loja um empregado dá-me os bons dias. Eu aponto para o vendedores que estão na rua e digo: “E o mercado que montaram lá fora?”

Ele pergunta-me o que é que eu quero dizer com isso.

“Aquelas pessoas têm malas cheias de iPhones, e estão a vendê-los, às centenas”.

“Não podemos ter a certeza do que estão a vender”, responde-me, enquanto olha para uma das malas a transbordar de mercadoria. De repente pareceu-me estar a falar com as autoridades que, no início da semana, me asseguraram que os manifestantes de Pequim não eram assim tantos, uma “meia dúzia”.

Tenho mais sorte com o segundo empregado que admite que, (embora a Apple não esteja de acordo com a revenda dos iPhones e gostasse de tomar alguma medida), não há nada que possa fazer, nem sequer mandá-los embora, porque é um mercado livre.

Também me explica que nos últimos anos a Apple tentou livrar-se dos revendedores, através de um sistema de “iReservas”. Os clientes tinham de reservar os seus telefones, por internet, antes de vir buscá-los à loja. Para este trâmite era preciso fornecer um número de telefone e um documento oficial de identidade, que por sua vez eram introduzidos numa base de dados. Isto permitia limitar a compra destes aparelhos, a dois por pessoa.

“A razão pela qual há tantos revendedores com malas cheias de iPhones”, afirma o empregado mais comunicativo, “é que pagam a amigos, ou contratam trabalhadores emigrantes, para que se registem e comprem dois iPhones”.

Nesse momento, um cliente que ouvia a conversa intervém e diz que a Apple devia ser mais severa com estes “oportunistas”. Diz que não é justo que os revendedores abusem do sistema de iReservas, enquanto ele tem de esperar. E depois pergunta ao empregado quando é que voltarão a ter iPhones dourados.

Começa a ficar tarde e eu quero chegar a tempo do discurso de Joshua Wong, o estudante de 18 anos que desencadeou os protestos de Hong Kong. Enquanto caminho pelo corredor de revendedores vejo um pequeno laço amarelo no colarinho de uma mulher, que está quase no final da rua, e que só tem um iPhone 6, de 16 GB prateado.

O laço amarelo é um símbolo amplamente conhecido e que associamos imediatamente ao movimento em prol da democracia. Pergunto-lhe o que é que está ali a fazer, e se não sabe do discurso do Joshua Wong.

Ela responde, com um sorriso apreensivo.

“Já sei”.

Insisto e pergunto outra vez. Porque é que está ali a vender a gama mais baixa – a que ninguém quer – do último modelo da Apple, em vez de ir ouvir o Wong? Estaria no final de uma dura jornada, no mercado da revenda, e só lhe faltava esse?

Explica-me que nem todas as pessoas que estão ali são capitalistas. Alguns, como ela, passam o ano todo a poupar para comprar um iPhone com o qual – e no momento certo – podem conseguir o dobro do que pagaram por ele. Ou seja, o equivalente a praticamente um mês de salário, para muitos dos habitantes de Hong Kong. Uma cidade que luta contra uma democracia autónoma, mas que também se enfrenta a um enorme abismo, com quase 20% da população a viver por baixo do limiar de pobreza.

O iPhone de 16 GB é o único modelo que pode permitir-se, e eu começo a pensar que com tantos revendedores a oferecer modelos superiores, não vai conseguir o lucro que esperava.

“Não sei ao certo o que vai acontecer, mas tenho de sustentar a minha família”.

Dá uma olhadela aos outros revendedores: “O meu coração está com os manifestantes. Preferia mil vezes estar ali com eles”.

Mas a sua expressão de preocupação transforma-se em sorriso, e diz: “Pelo sim pelo não guardo o recibo, para o caso de não conseguir vendê-lo nos próximos dias”.

@michaelgrothaus @J_Farinha