Este artigo tem mais de 5 anos.
Milhões de Festa

Comer à beira do rio e beber ao pé da piscina

Em Barcelos, a vida corre bem.

Por António M. Silva, Sérgio Neves
28 Julho 2013, 5:00pm

Melhor do que acordar no meio do caos e destruição de uma tenda e de corpos vitimizados por uma noite de festival intensa, nada como sermos acordados por uma rajada de vento que ameaça a integridade das estacas que prendem a tenda ao relvado, e assim que a abrimos para confirmar que não perdemos o anúncio de furacões, levar uma chapada de chuva na face.





A manhã barcelense foi um reflexo bastante fiel do cenário pós-apocalíptico daquilo que uma noite milhionária deixa, de facto, no seu rasto. Contando, inclusive, com gente desmaiada, poças de líquidos vários, ramos e toalhas a esvoaçar e ui, quem se aventurou pelas casas de banho antes da senhora da limpeza lá chegar terá seguramente pesadelos durante seis meses. Felizmente, que a solidariedade também está presente e, não contando com a ajuda da AMI, são os vizinhos mais próximos que nos oferecem conforto, uma palavra amiga (e rouca) e esse remédio milagreiro anti-ressaca que é a bolacha de sal.

Mas nem São Pedro se atreve a tirar de César o que é de César, que é como quem diz, deixai esta gente extremamente bonita e culta divertir-se à sua bela vontade, e abri os céus para que se possam banhar nos raios do sol e nas ondas de chapão de quem mergulha de cu na piscina. Salmo pelo qual nos queremos reger sempre e que, felizmente, se aplicou. Tudo tirou a roupa, com mais alguns tetos à espreita da luz solar e dos olhares sedentos, e tudo mergulhou na água fria e na viagem quente e maioritariamente espiritual que os Surya Exp Duo proporcionaram, por um qualquer deserto climático que trouxeram ou construíram, em tons assentes sobre tons experimentais e intensos.



Mas também é no Palco Taina que se faz Milhões de Festa. Quê, piscinas com este tempo doido, quando há comes e bebes à beira do rio? Ainda assim, e pela primeira vez, duvidámos daquilo que nos podia oferecer. Já ali vimos Holocausto Canibal, Sabre e Claiana, mas os Quartet of Woah soaram como que a um castigo que só pode ser kármico. Para além de tocarem baladas, daquelas conduzidas a órgão e que os nossos pais e avós dançam agarrados, não conseguiram contornar os lugares comuns que assolam o (revivalismo do) stoner-rock, preferindo dar tónica às harmonias e melodias por demais melosas e óbvias. Claro que nada disto é para ser levado a sério e além do mais a malta que por ali estava parecia ter gostado e, ainda mais que no dia anterior, assomou em grande número ao palco à beira-rio.





Ambiente de festa é bonito e fica bem. Do outro lado de Barcelos a fase de mais calor fez subir ao palco os Cuzo, secção rítmica catalã de perfeita união entre baixo e bateria, ao qual é adicionado o desgarrar atrevido de uma guitarra ácida, ou simplesmente o contemplar de toda uma experiência psicadélica, e das melhores patilhas do festival. Ali, e sem vento, voaram cabelos, camisas e mentes. Se virem os Dreamweapon, também lhes podem dar um abraço. Eles iam curtir saber que vocês sentiram pelo menos um décimo daquilo que eles sentiram quando passaram pelo Taina. Shoegaze será limitador para definir a verdadeira manta de retalhos de que são feitos. Com ambos os pés assentes na espacialidade, sabem retalhar camadas de distorção e reverb que invariavelmente desaguam em malhas que são puro onirismo eléctrico.





De volta à piscina, quem quer festa pede peso e isso ajuda a explicar o idolatrar da/dos Besta, cujo cunho é a intensidade e a rapidez dos seus riffs, e a agressividade dos elementos vocais, que ainda assim pecaram por se misturarem e, por vezes, se perderem na pancada instrumental. Coisa de que não se queixaram os corpos que voaram por entre outros corpos, ou as mãos que se elevaram para louvar a banda infernal.



A fechar o dia voltaram as rajadas frias de vento e o sol cansou-se de pairar e ameaçou esconder-se de novo atrás das nuvens. Tempo perfeito para os Monster Jinx tomarem conta do palco, naquela que provavelmente será a maior enchente em redor deste palco. Letras atabalhoadas e rimas fáceis declamadas por entre samples cheios de onda e pinta, muitas vezes dignos de um oportuno “Harlem Shake”, coisa que até tentámos começar no meio de tanta gente de mãos a ondular e rabos a abanar.

Melhor fim de tarde e maior chamariz para o jantar. No caminho para abastecer o estômago, ainda deu para tropeçar nos Process of Guilt, desejar-lhes boa sorte para o concerto. A vida corre-lhes bem, aparentemente.


Fotografia por André Vitor Tavares