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A família que criou os equipamentos mais maravilhosamente esquisitos do futebol brasileiro

Nos anos 90, a Dellerba criou camisolas com estampados que se tornaram símbolo de uma época de ouro do desporto no Brasil.

Por Bruno Romani
07 Novembro 2018, 12:17pm

Bragantino com a sua icónica camisola da Dellerba, em 1991. Foto: Reprodução

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

O começo dos anos 90 viu as cenas mais malucas e arrojadas da história do futebol. Estampados fora de controlo, cores grotescas e golas gigantescas como estas usadas pelo Manchester United, são alguns dos elementos inesquecíveis daquele período. Apesar da "caretice" do futebol brasileiro, o país também não passou imune. Foi de olho no que estava a acontecer na Europa que Ricardo Dellerba, dono da marca que carregava o sobrenome da família, inaugurou as maluquices têxteis do futebol nacional.

Lembras-te do Bragantino, vice-campeão brasileiro de 91, com aquela coisa de formas geométricas em preto, branco e prateado? Foi o Ricardo que criou. Assim como outros equipamentos inesquecíveis da Portuguesa, Guarani, Santos, Paraná, Vitória, Atlético-MG, Noroeste, União São João, América-SP entre outros.


Vê: "CONIFA: O Outro Mundial"


Embora atribua as suas criações à “inconsequência da juventude”, Dellerba sabe que os estampados malucos foram uma empreitada de marketing importante para a época. Pode parecer óbvio, mas os Dellerba queriam vender camisolas de futebol. Só que isso não estava no radar das grandes marcas desportivas em acção no Brasil. Isso permitiu que a Dellerba e outras marcas brasileiras desportivas ocupassem um mercado praticamente virgem.

CALÇÃO DOS MUNDIAIS?

Esta história começa numa época mais bem comportada do futebol: a década de 1950. Foi quando Sérgio Dellerba, pai de Ricardo, abriu a Casa Dellerba de Esportes, uma tradicional loja de artigos desportivos na Lapa, em São Paulo.

Só que o homem percebeu que valia a pena não apenas vender produtos desportivos, mas também confeccioná-los. A inspiração vinha de casa: o pai de Sérgio, Vito Dellerba, era alfaiate. A Casa de Esportes passou a fabricar camisolas, calções e meias.

Pouco tempo depois, a pequena loja já estava a fornecer material para grandes clubes de futebol. “Apesar de ser corintiano, o meu pai tinha uma ligação muito forte com o Palmeiras e São Paulo, que eram grandes clientes da loja”. Sim, na década de 1960, os clubes não recebiam dinheiro de patrocínio de camisolas. Tinham de comprar os próprios equipamentos.

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Camisola do Noroeste de Bauru, usada em 1991. Foto: Reprodução/ Mercado Livre

De acordo com Ricardo, esse conhecimento levou a confecção para o Campeonato do Mundo. “O meu pai contava uma história de que a gente fez os calções da seleção brasileira entre as Copas de 1954 e 1974”, diz o filho. A lenda familiar conta que a fábrica da Dellerba fazia calções para a marca Athleta, fornecedora oficial do Brasil na época.

Entrámos em contacto com Antônio Bulgarelli, neto do fundador da Athleta. Ele confirmou que a Dellerba confeccionava alguns calções para a marca, mas não confirmou a participação dela nos Mundiais. De qualquer maneira, a Dellerba estava a acumular títulos importantes no Brasil. O São Paulo, por exemplo, estava fardado com os equipamentos da marca no seu primeiro Brasileirão, em 1977.

A TRANSFORMAÇÃO EM MARCA

No fim da década de 1970, a Dellerba fechou contrato com a São Paulo Alpargatas, que tratava de duas marcas: a Rainha e a Topper. Era naquele esquema: eles seriam a fábrica por detrás da marca. Foi assim que a Dellerba terá produzido as camisolas da Topper para os Mundiais de 1982, 1986 e 1990 (a Topper, que já não pertence às Alpargatas, diz ser incapaz de confirmar a informação).

Além disso, outros clubes que levavam a Topper ao peito estavam, na verdade, a vestir os tecidos da Dellerba. É comum, por exemplo, encontrar camisolas do Corinthians da época da democracia que têm etiquetas internas da Dellerba.

“A jogada dessas marcas era vender calçados desportivos. A venda de camisolas não era o seu foco. Elas achavam o futebol brasileiro pobre para apostar nisso”, conta Ricardo. Começava a crescer dentro da Dellerba a vontade de se transformar em marca e ocupar um território ignorado por nomes nacionais e estrangeiros. Por essa altura, os filhos de Sérgio já estavam a trabalhar na empresa da família.

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Camisola da Lusa, usada em 1991 e 1992. Foto: Reprodução/ Mercado Livre

Surgiu então a primeira tentativa de estampar Dellerba na frente da camisola. No fim da década de 1980, o campeonato italiano era uma febre no país e Ricardo viu ali a possibilidade de experimentar. Começou a fazer réplicas dos clubes de lá: Nápoles de Maradona, Milan dos holandeses etc. Como a venda de camisolas de clubes estrangeiros era algo impensável por aqui na época, a Dellerba deu-se bem.

Tão bem que até hoje há gente que acha que a marca era um patrocinador verdadeiro de alguns desses clubes. Durante a realização desta reportagem, ouvimos de uma pessoa ligada a uma grande marca desportiva: “A Dellerba era italiana, não era?”. Na realidade, era muito brasileira. Os designs das camisolas italianas eram copiados na raça. Ricardo recorda que comprava a revista “Guerin Sportivo” e tentava desenhar à mão os estampados. “Naquela época não existia o conceito de pirataria. Todos faziam camisolas de todos”, rebate rapidamente Ricardo antes que possas pensar algo de mau em relação à prática.

A BELEZA DOS ANOS 90

Naquela altura, a Dellerba já tinha maquinaria para produzir camisolas em poliamida e dominava a técnica de sublimação, que permitia a criação de estampados sofisticados. O sucesso dos "fakes" italianos tinha mostrado um caminho importante. Havia espaço e demanda por camisolas de futebol.

Em 1988, a Dellerba chegava oficialmente ao primeiro clube brasileiro, o Central Brasileira. Era um pequeno clube de empresários no interior de São Paulo que teve vida curta, mas que abrigou craques em fim de carreira, como Luis Pereira, Wladimir e Enéas. Consequentemente, o América-RJ também passou a levar Dellerba ao peito. Em 1990, a Dellerba conquistou o seu primeiro "caneco" oficialmente com o Bragantino, que arrebatou o Paulistão de 1990. “Essa camisola já tinha uma tricotagem interessante, que imitava a que a Umbro fazia para Inglaterra”, lembra Ricardo.

No ano seguinte, veio a consagração. O clube do interior paulista chegou à final do Brasileirão com uma camisola cheia de estilo, com combinações geométricas loucas. A inspiração para o design veio da camisola de treinos da selecção da Escócia entre 1988 e 1989. E já tinha descolado também entre clubes europeus, como o Ajax.

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Camisola do Botafogo de RIbeirão, no começo dos anos 90. Foto: Reprodução/ Mercado Livre

“Tudo é uma combinação de factores. Se o Bragantino não tivesse uma boa equipa, talvez ninguém ligasse à camisola”. Não foi o que aconteceu. O clube do interior formou grandes nomes, como Mauro Silva, e catapultou Carlos Alberto Parreira para o comando da selecção.

A partir daí, Ricardo passou-se com os estampados. “É aquela história: dizes alguma coisa e percebes que agradou, a confiança cresce”, explica. Ele continuava a olhar para os exemplos da Europa, mas também foi beneficiado pelo facto de que a sua fábrica também tinha um pé na moda. A confecção da Dellerba produzia peças para marcas cool, tipo a Zoomp. Estava garantida a década mais louca das camisolas de futebol no Brasil, que fez com que outras marcas nacionais também se dessem bem, como a Finta, Penalty, Rhumell e CCS.

APOGEU E DECADÊNCIA

A lógica da Dellerba para lançar cada vez mais camisolas diferentes não era apenas estética. Ela descobriu um grande mercado. Ao contrário das marcas da década anterior, a empresa não vendia calçado, um pilar fundamental para quem se arrisca na área. A companhia precisava de vender camisolas.

E não estamos a falar apenas das peças oficiais dos clubes. As peças, sem os logos e patrocinadores, também eram vendidas para equipas de formação, de escolas, de empresas e por aí fora. “Cada estampado que eu inventava, tinha de o meter em algum clube para poder vender também as camisolas sem clube”, diz. Ou seja, o Bragantino tornou as formas geométricas famosas e podias encontrar esse mesmo design em várias cores diferentes.

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Camisola do Bragantino, em 1991. Foto: Reprodução/ Mercado Livre

Isso sem contar que a produção de réplicas de clubes estrangeiros continuava a todo o vapor: Ajax, La Coruna, PSG, Fiorentina, Borussia Dortmund e Barcelona foram alguns dos clubes “homenageados”.

Dessa maneira, a Dellerba chegou a vender 70 mil camisolas por mês. O número é alto. Em 2016, por exemplo, o São Paulo foi o décimo clube das Américas que mais vendeu camisolas, com 977 mil unidades comercializadas, segundo o Euromericas Sport Marketing. A média mensal de 81,4 mil unidades é só um pouco mais alta que a da Dellerba.

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Camisola do Guarani, em 1994. Foto: Reprodução/ Mercado Livre

A partir da segunda metade da década, tornou-se óbvio que camisolas de futebol eram um bom negócio. E, assim, grandes marcas estrangeiras olharam para o Brasil. O maior símbolo disso foi a chegada da Nike à selecção em 1997. O mercado inflacionou e a Dellerba foi perdendo a capacidade de combater. O vice do Brasileirão com a Lusa, em 1996, foi o último suspiro.

A mudança do mercado era só um dos elementos da tempestade perfeita que se estava a formar no caminho da Dellerba. Na mesma época que foi perdendo espaço para as marcas estrangeiras, a firma acabou por se endividar para trocar de maquinaria nas fábricas. Num cenário maior, a segunda metade da década reservou ao país crises económicas globais consecutivas - isto sem contar com o começo da invasão de produtos chineses ultra baratos no mercado nacional.

A marca Dellerba perdeu poder de investimento e a família voltou a focar-se apenas na confecção. Fabricava roupas para outras marcas, incluindo New Balance, Fila, Diadora, Reebok e Adidas Internacional - a fábrica chegou a produzir as camisolas do River Plate que eram enviadas para a Argentina. Ricardo diz que, ao chegar ao Brasil, a Nike consultou a fábrica para a produção de peças, mas o negócio não vingou. A Nike não confirma a informação.

Já sem a alegria das estampagens, a marca Dellerba ficou centrada nas meias e calções, e parcerias rolavam apenas com clubes menores. O último a ter uma peita da marca foi o Noroeste de Bauru na metade da década passada. Em 2010, a empresa fechou as portas e entrou em recuperação judicial, deixando um rasto de processos contra os herdeiros da marca. Hoje, Ricardo Dellerba tem duas lojas: uma especializada em personalizações de roupas desportivas, chamada Sport Lock, na Vila Leopoldina, em São Paulo. E outra de artigos de praia em Ilha Bela, chamada Doox.

Ao falar da finada marca, Ricardo tem uma ponta de melancolia - a maior crítica ao fim da Dellerba era de que os filhos teriam delapidado o património do seu fundador. E a prova de que ele tem razão ao dizer que a marca era “querida” são os valores das camisolas antigas da Dellerba. No Mercado Livre, encontras pouca coisa por menos de 300 reais [cerca de 70 euros] e é comum encontrar peças perto dos mil reais [aproximadamente 240 euros].

Ricardo descarta voltar ao futebol, meio em que teve muitas decepções. Só nos resta perguntar o que ele acha das camisolas actuais. “Gosto mais das da Nike, que são mais básicas e minimalistas”, revela. E conclui: “As da Adidas são muito extravagantes. Outros tempos”.

De facto, são outros tempos.

Vê abaixo o vídeo da VICE Brasil "A ostentação das camisas de várzea nas quebradas de SP"


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