Crime, Castigo e a História do Vkontakte, a Maior Rede Social Russa
​Pavel Durov, no apartamento que foi, mais tarde, visitado pelas autoridades russas. Imagem cedida por Pavel Durov

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Crime, Castigo e a História do Vkontakte, a Maior Rede Social Russa

Pavel Durov, fundador da rede social, estava passando o final de semana sozinho em seu apartamento quando um batalhão de homens com uniformes camuflados começaram a bater violentamente em sua porta.
19.2.15

Pavel Durov, fundador da rede social russa VKontakte, estava passando o final de semana sozinho em seu apartamento em São Petersburgo quando um batalhão de homens com uniformes camuflados começaram a bater violentamente em sua porta. Ele se arrastou até o olho mágico e os viu, parados no corredor, antes de andar silenciosamente até a janela, onde viu mais homens com o mesmo uniforme esperando do lado de fora do prédio. Ele não respondeu aos chamados, nem mesmo quando os homens começaram a gritar do lado de fora de sua porta. Foi então que seu celular começou a tocar, chamadas e mais chamadas de números desconhecidos.

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Durov sabia porque eles estavam lá. Alguns dias antes ele havia recebido uma carta do Serviço de Segurança Federal da Federação Russa, ou FSB, uma nova versão da KGB da União Soviética, exigindo que ele apagasse as páginas do VKontakte que estavam sendo utilizadas para organizar protestos contra a reeleição de Vladimir Putin.

Mas ao invés de obedecer as ordens e bloquear todos esses usuários, Durov revidou: no dia seguinte, ele mudou o site para que este pudesse acomodar mais posts por página. No mesmo dia, ele tuitou uma foto da carta, seguido de um segundo tuíte que dizia: "Essa é a resposta oficial para o pedido de bloqueamento de certos grupos". A resposta era nada mais do que a foto de um cachorro vestido com um capuz e mostrando a língua.

Mas o FSB não achou graça — quando os oficiais bateram na porta de Durov, eles carregavam dezenas de armas. "O segurança do prédio me disse mais tarde que a polícia estava esperando ordens para arrombar a porta", disse ele à Motherboard. Depois de uma hora, eles foram embora.

Essa foi a primeira batalha real de uma guerra que Durov não poderia vencer — uma guerra pela liberdade de expressão dos russos nas redes sociais, e que está prestes a estourar mais uma vez graças aos irmãos americanos do VKontakte, o Facebook e o Twitter.

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O VKontakte, hoje conhecido como VK.com, é a rede social mais popular da Rússia, contando com 67 milhões de usuários frequentes em janeiro de 2015, de acordo com o LiveInternet, um site que controla o número de acessos de várias páginas. Na Rússia, ele é mais usado que o Facebook e o Twiter, e possui um público mais diverso e menos urbano que ambos sites americanos. Mundialmente, o VK é um exemplo raro de rede social criada de forma independente e que ainda assim domina o mercado de seu país de origem, apesar do reinado e do alcance mundial do Facebook.

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Durov é constantemente comparado a Mark Zuckerberg; ambos são magnatas da internet, e ambos nasceram em 1984. Ele foge da imprensa formal, preferindo roupas pretas e discretas e sempre desviando o olhar em fotos. Mas quando o assunto são suas interações com o público, ele é muito mais espontâneo que sua versão americana: quando um dos vice-presidentes da empresa recebeu um grande bônus, o cara disse para sua equipe que ele "não trabalhava pelo dinheiro, como muitos dizem trabalhar", disse Durov para o Motherboard. De acordo com Durov, seus colegas de trabalho então desafiaram o vice-presidente a dar todo seu dinheiro, no que ele começou prontamente a jogar as notas pela janela. Durov disse que aquele não era o jeito mais criativo de se fazer isso, e ensinou seu subordinado a fazer aviõezinhos com as notas de 5.000 rublos (equivalente a US$140), que logo voaram prédio abaixo.

Um jornal russo noticia o episódio de Durov e seus aviõezinhos feitos de rublos.

Durov resolveu criar uma rede social quando um amigo que havia estudado nos Estados Unidos o apresentou a uma das primeiras versões do Facebook, segundo o New York Times. A versão beta do VK foi lançada em setembro de 2006, e em 2007 o site já havia dado origem a uma empresa homônima. Atualmente, o site ainda parece uma versão do design original do Zuckerberg.

Durante seus primeiros anos, o VK funcionava quase como um Spotify russo: ele era o melhor lugar para encontrar qualquer tipo de mídia, incluindo filmes e músicas contrabandeadas. "Era quase tudo ilegal", disse Katya Romanovskaya, uma das mentes por trás da @KermlinRussia, uma conta russa de paródia.

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Redes sociais são conhecidas por seu potencial de entretenimento vazio, mas no outro extremo desse espectro, ativistas políticos o utilizam para disseminar suas ideias, novidades e chamados à ação. Quando Putin anunciou sua intenção de se candidatar à presidência mais uma vez em 2011, grupos de oposição começaram a se organizar no VK, trocando notícias, informações, e, para assustar ainda mais o partido de Putin, organizar protestos na vida real.

No dia 8 de dezembro de 2011, o líder da oposição Alexei Navalny, administrador de um evento de manifestação no VK com mais de 100.000 confirmados, escreveu em seu LiveJournal que o VK tinha bloqueado a página automaticamente devido à sua imensa taxa de atividade. Durov resolveu ajudar. "Por consideração ao nosso grupo, o Vkontakte mudou seus algoritmos", escreveu Navalny. Ele também postou uma conversa com Durov na qual este afirmava que o governo estava tentando fazer o VKontakte bloquear páginas de protestos.

Nessa época, o VK já tinha a chamado a atenção do FSB, órgão que exerce serviços de contra-inteligência doméstica e vigilância, de forma parecida com a CIA ou o KGB.

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A visita dos policiais armados serviu apenas para fortalecer a teimosia de Durov. No mesmo dia, ele anunciou em sua própria página no VK que o site havia passado por várias atualizações no funcionamento de grupos e eventos, tornando-os mais acessíveis e visíveis aos usuários. No entanto, ele afirmou no Twitter que essa não era uma ação política: "Eu não posso apoiar nenhuma forma de oposição, nem as autoridades nem nenhum outro partido", ele disse. "VKontakte - Uma organização 100% apolítica."

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Durov disse ao Motherboard que a equipe do VK "tratava Navalny e outro ativistas como o resto dos usuários, e se importava apenas em oferecer o melhor produto possível".

"Se os sites estrangeiros existirem livremente, e a Rússia começar a censurar sua internet", escreveu Durov, "o VK pode se preparar para uma morte bem lenta".

Ele discorreu sobre o assunto em um entrevista para um site de notícias de Moscou, o Lenta.ru, enumerando todas as razões comerciais para não banir esses grupos de oposição: eles achariam outro lugar para anunciar seus protestos, o que os afastaria do VK, resultando em uma má jogada comercial. "Se os sites estrangeiros existirem livremente, e a Rússia começar a censurar seus sites", escreveu Durov, o VK poderia "se preparar para uma morte bem lenta".

Com um aparente respeito por seus princípios comerciais, o Kremlin deixou a empresa em paz por algum tempo, lembra Arseny Bobrovsky, outro autor do perfil @KermlinRussia.

Mas no começo de 2013, os problemas de Durov com o governo voltaram a o incomodar. Em março, o portal de notícias russo Novaya Gazeta publicou o que eles afirmava ser uma série de emails "hackeados" entre Durov e o "ideólogo chefe" do Kremlin, Vladislav Surkov, sugerindo que o VKontakte estava cooperando com o FSB há anos.

"A maioria das pessoas achou que os emails eram falsos", disse Rothrock, editor chefe do RuNet Echo, um ramo de uma rede de notícias não-lucrativa gerenciada por jornalistas amadores, a Global Voices Online. Mas aquilo era apenas o começo de uma campanha contra Durov. No dia 5 de abril, um carro registrado no nome de Ilya Perekopsky, vice-presidente do VK, esmagou o pé de um policial. O motorista fugiu da cena do crime, mas a polícia afirmou, uma semana depois, que era Durov quem dirigia o carro.

Durov em sua casa em 2011. Foto cedida por Pavel Durov

De acordo com o Moscow Times, no dia 16 de abril, as autoridades forjaram uma "batida" na sede do VK, em Moscou. A justificativa para a invasão do escritório era que aquilo "fazia parte da investigação de um atropelamento".

No dia seguinte, dois dos principais investidores do VK, Vyacheslav Mirilashvili e Lev Leviyev, anunciaram que eles venderiam todas suas ações da empresa, que juntas somavam 48% dos negócios, para a United Capital Partners, uma firma de investimento privado de Moscou.

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Segundo várias fontes, os investidores desistiram da empresa por causa da distância que havia surgido entre eles e Durov; no entanto, ambos negaram qualquer desentendimento. A venda foi chefiada por Igor Sechin, descrito como a "mão direita" de Putin em uma matéria publicada no New York Times. De acordo com a Interfax, o VK foi avaliado em US$2 bilhões.

É provável que o Facebook e o Twitter estejam a apenas um pedido de bloqueamento de distância de serem expulsos da Rússia

A polícia continuou a chamar Durov para prestar depoimento sobre o suposto atropelamento. No final de abril, ele fugiu da Rússia pra Buffalo, Nova York, onde começou a trabalhar em um novo projeto que iria eventualmente se tornar o serviços de mensagens conhecido como Telegram. O atropelamento que a polícia vinha investigando com tanto afinco foi esquecido completamente.

Nessa época, 88% da companhia pertencia a aliados do Kremlin, e 12% ao próprio Durov. Ilya Shcherbovich, um amigo de Putin e presidente da UCP, deu uma entrevista para a TV na qual afirmava seu desejo de que Durov ficasse no comando da empresa. Durov disse que não tinha nenhuma intenção de vender suas ações.

O entusiasmo de Durov com o site continuava firme e forte: durante todo o final de 2013 ele fez posts triunfantes em sua página no VK sobre o crescimento do site comparado ao de outras redes sociais, incluindo o Facebook e o WhatsApp. Ele postou um infográfico que mostrava que, em outubro de 2013, o VK era o app para Android mais popular de Moscou.

100% do site estava agora sob o controle dos aliados do Kremlin

Em janeiro de 2014, o Global Voices Online anunciou que o Izvestia, um jornal "subordinado ao Kremlin" circulou um rumor de que Durov havia desistido da presidência do VK, uma afirmação que o assessor de imprensa do VK negou veementemente. No entanto, apenas quatro dias depois Durov confirmou que havia vendido suas ações para Ivan Tavrin, da Megafon, uma operadora móvel cujo segundo maior investidor era Alisher Usmanov, dono da empresa que comprou a maior parte do VK em 2011. "Era óbvio que meus 12% não me davam nenhum poder dentro da empresa, e que, pelo contrário, poderiam ser utilizados para limitar minha liberdade em situações críticas", disse Durov ao Motherboard. Essa venda fechou o ciclo — 100% do site agora estava sob o controle dos aliados do Kremlin.

Apesar de Durov ter perdido seu investimento financeiro, ele permaneceu no VK sob o cargo de "Diretor Geral" (o mesmo que um diretor executivo) e redobrou seus esforços para transformar o VK em um campo fértil para o ativismo. Em fevereiro de 2014, ele postou um vídeo apoiando a revolução ucraniana em sua própria página, que tem, atualmente, mais de seis milhões de seguidores.

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No dia primeiro de abril ele fez uma nova publicação, agora afirmando que havia renunciado à sua posição no diretório do VK, afirmando que o UCP estava se metendo demais no gerenciamento do site e que ele não tinha "liberdade" o suficiente para chefiar a empresa. Dois dias depois, Durov disse que a demissão havia sido uma brincadeira de Primeiro de Abril e tentou retirar sua renúncia, mas os acionistas afirmaram que ele não seguiu as regras necessárias para a renúncia do cargo. No dia 22 de abril, Durov descobriu que havia sido demitido.

Desde então, o reinado do VK como um lugar para ativismo desmoronou, e o site se tornou cada vez mais perigoso. Os usuários tinham que encontrar um novo refúgio.

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Dois meses atrás, Navalny — atualmente considerado o principal inimigo de Putin — encorajou um grupo de oposição ao Kremlin a organizar um protesto no dia 15 de janeiro, em Moscou. Esse era o dia em que Navalny receberia sua sentença final após anos passeando pelo antiquado sistema legal da Rússia.

A página do protesto recebeu mais de 12 mil confirmações. Porém por volta do dia 20 de dezembro, a página foi repentinamente bloqueada para os usuários localizados na Rússia. A página foi bloqueada pelo Facebook a pedido do governo russo, de acordo com Roskomnadzor, um órgão federal que coordena a internet a mando do Kremlin.

Durov condenou o Facebook por supostamente bloquear a página, dizendo que a empresa não tinha "nem coragem nem princípios".

Esse tipo de censura não vai de acordo com os ideais do Facebook. Em setembro, Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, enalteceu o papel da rede social da Primavera Árabe, afirmando que a rede social ainda é utilizada na resistência à governos opressores. "As pessoas que querem fazer, podem", disse ela.

No entanto, o caso do VK sugere exatamente o contrário. A rede social foi essencialmente lobotomizada. Desde a saída de Durov, todo compartilhamento de mídias e conteúdos políticos desapareceram do site (enquanto isso, as demonstrações de homofobia ressurgiam). A maioria do conteúdo compartilhado no VK apoia o Kremlin, disse Rothrock.

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É provável que o Facebook e o Twitter estejam a apenas um pedido de bloqueamento de distância de serem expulsos completamente da Rússia. De acordo com um relatório lançado pelo Twitter em fevereiro, a empresa recebeu 91 pedidos de bloqueamento nos últimos seis meses. O Twitter acatou a 12 desses pedidos, mas disse que muito deles eram "tentativas de reprimir demonstrações não-violentas", e que o Twitter não negou "vários pedidos para silenciar críticas populares ao governo russo e outras exigências para limitar a liberdade de expressão".

O Twitter é uma empresa preocupada com a liberdade de expressão, menos propensa a acatar ordens vagas de outros governos e mais transparente quando isso ocorre (o Facebook, o Twitter e o VK se recusaram a disponibilizar comentários para essa matéria). O Facebook têm lutado publicamente para controlar a comunicação de seus usuários — alguns discursos de ódio foram claramente protegidos e em seguida condenados. Mas quando um governo impõe uma ordem "legal", os exemplos sugerem que o Facebook costuma acatá-las rápida e silenciosamente, preferindo proibir o acesso de alguns ativistas a ser expulso de um país.

Mas caso o Facebook e o Twitter planejem seguir o exemplo do VK, é bom que eles saibam que Durov não se arrepende de ter cortado relações com a Rússia. "Estou muito feliz com o fim da minha vida/carreira na Rússia", disse Durov ao Motherboard.

Apesar dele ter vendido seu último rincão de poder sobre a empresa por pressão política e ter se despedido da gigantesca empresa que ele mesmo criou, o timing acabou sendo perfeito:

"O mercado digital russo piorou drasticamente depois disso. De certa forma, agradeço aos acionistas e/ou às forças políticas que me obrigaram a vender minhas ações", afirmou. "Eu estou mais feliz… comandando um serviço disponível para o público global." Um público global que, graças aos interesses do Kremlin, pode muito bem excluir a Rússia.

Tradução: Ananda Pieratti