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A América Latina Inteira Cabe na Frente Bolivarista, o Novo Selo do Daniel Lucas

Uma entrevista com o produtor carioca que criou uma label com a ideia de lançar (muita) música latina.

Não, o temido golpe comunista não aconteceu por aqui. Ao contrário do que algumas pessoas acreditavam, Cuba e Venezuela não contaminaram a política brasileira. Quando o assunto é música, porém, a história é outra. O produtor carioca Daniel Lucas já passou pela cena trance quando, por alguns anos, morou no Paraná, mas a sua pira mesmo é a música latina. Depois de lançar algumas faixas pela Mister Mistery, pelo selo daD-EDGE e fazer alguns trampos autorais, ele resolveu montar sua própria gravadora. Foi nessa brincadeira que surgiu a Frente Bolivarista, label que abraça a causa dos ritmos brasileiros, explora a música dos nossos vizinhos e acaba de liberar no Bandcamp a coletânea Frente Bolivarista - Vol. 1, com 14 faixas, quase metade delas feita por produtores nacionais (incluindo Daniel, sob a alcunha de pigmalião).

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Leo Justi, Psilosamples, SidiRum e mais uma galera latino-americana, além de dois nomes europeus, contribuíram com o lançamento. Na entrevista com Daniel, o cara contou qualé da Frente Bolivarista, como ele entrou em contato com essa rapaziada e o que Simón Bolívar tem a ver com tudo isso.

THUMP: Como você começou como produtor?
Daniel Lucas: Já faz um bom tempo, eu me aventuro nisso desde 2000 mais ou menos. Sempre me envolvi com banda, tive uma banda quando eu era mais moleque, mas era uma coisa sem pretensão. Um dia eu fui convidado pra fazer uma banda de hip hop com um amigo de escola, uma coisa bem de adolescente, e como eu tocava baixo… mal (hahaha) a gente não conseguiu mais instrumentistas. Eu tinha dois amigos do rap que queriam cantar, mas não queriam tocar nada. Como tava complicado de achar instrumentistas na época, eu tentei fuçar em software de produção pra "fazer as pazes". E a partir daí eu comecei a me envolver um pouco mais, fui 100% autodidata, sempre fui muito nerd com isso tudo.

Tudo isso no Rio de Janeiro?
Cheguei a morar no Paraná, onde eu me envolvi com a cena trance. Fui DJ, hoje eu não sou mais, mas já toquei bastante em São Paulo, no Rio, no Paraná… Parei com isso faz um ano e meio, não porque eu não gosto, e sim porque eu tô focando bastante no meu trabalho autoral. Quando eu tava em Maringá, no Paraná, eu fazia só live, não tinha set na época, aí começaram a me chamar pra tocar mais e eu precisei ser um pouco mais versátil e a fazer os sets também. Desde lá eu nunca parei de produzir, sempre produzi muita coisa pela Mister Mistery, lancei coisa pela D-EDGE e outras labels muito boas.

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E qual que é da Frente Bolivarista?
Com a label [Frente Bolivarista], eu quis lançar um novo pseudônimo, quis desvincular as faixas novas que eu tenho feito do meu nome anterior, porque eu acho que faz sentido a gente fazer a distinção de uma curadoria pessoal, antes eu fazia re-edit e hoje eu tô fazendo um lance totalmente meu e [esses trabalhos] são pra públicos diferentes. Então eu decidi fazer esse novo pseudônimo, chamado pigmalião - eu até lancei uma faixa [desse projeto] nessa primeira coletânea da Frente Bolivarista.

Quais gêneros musicais mais te atraem ou o que você gosta de tocar?
Hoje eu tenho ouvido muita referência latina, até por causa da label, mas também muita coisa africana, muito jazz. Ainda ouço coisas que ouvia quando era criança, tipo Clube da Esquina, Milton Nascimento, acho que os timbres que esses caras usam, esses discos que são atemporais, eles incitam o artista a fazer uma coisa mais autoral.

O criador da Frente Bolivarista, Daniel Lucas

Qual é o conceito da Frente Bolivarista? De onde surgiu a ideia?
Queria enaltecer músicas brasileiras, essa pegada de brasileirismo que tem acontecido no país há uns três, quatro anos que muito produtor está correndo atrás de novos timbres, e tudo isso tá indo junto com as referências que eu tenho pra Frente Bolivarista. Eu conheci novos artistas e percebi que fazer uma coisa muito brasileira vai me limitar demais. O Brasil é um país gigante, com um cultura enorme, com os estilos mais variados possíveis, por questões regionais e tudo mais, só que mesmo assim eu queria mais. Queria poder lidar com artistas de outras nacionalidades, queria lidar com timbres que nem mesmo conhecia, pra eu poder me sentir mais confrontado pra poder procurar coisas, ficar com a pulga atrás da orelha.

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E de onde surgiu o nome?
Quando eu decidi chamar [assim], eu tive um clique do tipo "caralho! Frente Bolivarista"! Eu tava conversando sobre política nessa época de eleições e tudo mais. O nome "frente bolivarista", muita gente já tem um pré-conceito. Porque o correto seria Frente Bolivariana, República Bolivariana da Venezuela foi o nome dado pelo Hugo Chávez, que pegou pra ele essa expressão de República Bolivariana, e fez com que estigmatizasse os ideias de Simon Bolívar, que não tem nada a ver com aquilo que falam nas discussões políticas aqui no Brasil, entre PT e PSDB, falando que "bolivariano é comunista, é ditador". Muito pelo contrário, Simon Bolívar foi um herói pros povos da Venezuela, do Equador, da Bolívia e da Colômbia. Ele conseguiu juntar o povo de todos esses países pra fazer a independência dele, eles buscaram essa independência na porrada, diferente até da gente aqui no Brasil. Eles montaram o exército e foram conquistando espaço, retirando os espanhóis das terras. Existem algumas histórias que não foram muito bem contadas, mas essa conotação de bolivariano ser uma coisa ruim, é muito equivocada. A gente tem uma mania de importar muito o american e o european way of life e na verdade a gente tem que abrir os olhos para o que temos aqui na América Latina.

E como foi o contato com os artistas que fazem parte dessa primeira coletânea, você já conhecia ou foi abordando um por um?
Muitos dos artistas da coletânea eu já tinha ouvido e já seguia na internet. Outros eu fui descobrindo com o passar do tempo, quando eu fui desenvolvendo o conceito do projeto. Por exemplo, o SidiRum foi um cara que eu abordei na internet. Cheguei pra todos e expliquei o projeto, o pessoal ia gostando, falando "eu topo, eu tô dentro" e tal. Eu também não me limitei apenas a artistas nacionais. Nesse disco tem dois artistas de fora da América Latina, o El Búho e o Andrés Digital. O Búho é da Holanda e o Andrés é da Alemanha, mas eles fazem música latina, com influências do som pré-hispânico, de regionalismos muito pontuais de países como a Colômbia, o Peru, a Bolívia… Eles são grandes pesquisadores de referências da América Latina. Tanto eles quanto os outros eu que entrei em contato e falei o que a Frente Bolivarista era, um selo pra enaltecer a cultura latino-americana e fazer a apresentação de artistas que eram da mesma região e nem se conheciam.

Todas as faixas da primeira compilação são inéditas ou eram coisas que os produtores já tinham prontas?
Todas são inéditas, com exceção da faixa do Leo Justi. Ele é daqui do Rio de Janeiro e amigo meu, e eu queria porque queria botar um funk. Tem dois funks na compilação, mas um deles não é um funk puro igual o do Leo. O outro é uma marcha de carnaval com funk que ficou absurda! Mas a do Leo era a única [música] que já tinha sido lançada, já tem clipe e tudo mais. Ele pediu pra mim: "Pô cara, eu queria muito lançar, mas eu gostaria que você desse uma força pra uma das faixas do meu disco pra ajudar a divulgar um pouco mais". Achei super válido colocar uma faixa a mais, que não tinha sido inédita. Eu já tinha 13 inéditas e queria um funk de qualidade pra representar o funk carioca.

E o que a gente pode esperar do selo daqui pra frente? Tem mais algum lançamento programado?
O segundo disco já está praticamente inteiro confirmado, vai ter uma quantidade bem maior de artistas internacionais. Esse primeiro teve uns seis ou sete [artistas] do Brasil, mas pro segundo tem gente de tudo quanto é lugar. Tem gente do Peru, do Equador, da Costa Rica, da Argentina, Colômbia, uma dupla argentina/colombiana… Aqui do Brasil, somos eu, o Carrot Green… Também quero produzir minha própria música porque eu criei o selo também pra me lançar, pra ter mais controle de quem eu tô lançando, qual é o público que compra a minha música.

A partir do terceiro disco, meu intuito é lançar álbuns de só um artista, com um ou dois remixes. Mas eu não quero que seja um formato fixo, entende? Queria que a label fosse mais viva, que ela fosse mais surpreendente pra não cair na mesmice. É uma questão de sentir público, de sentir mercado, pra que lado que a música eletrônica tá indo. Eu não fiz um selo pra bombar só no Brasil, eu fiz um selo pra bombar em tudo quanto é lugar. Em menos de 10 horas que eu lancei o Bandcamp já foram mais de 2000 views e sem fazer nenhuma divulgação. Eu não esperava, nem esperava estar falando contigo agora, eu esperava falar contigo, e se desse certo, bem mais pra frente hahahaha

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