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Música

Como a Música do Kygo se Tornou a Trilha Sonora das Fantasias da Geração Y

A produção do DJ norueguês embala o braço centro-esquerda da cultura jovem cujos principais pontos de encontro não são clubes, mas festivais de música na praia, luaus e raves em barcos.
20.10.15

Printscreen do mix Best of Kygo , mas poderia ser literalmente de qualquer um desses vídeos de "tropical house" do YouTube.

Este artigo foi publicado originalmente na VICE UK.

Você já se viu preso em um vórtice do YouTube, só para se distrair, ir discutir com o carteiro e voltar 45 minutos depois, no meio de algum mix esquisito de "tropical house" com uma foto de banco de imagens de um pôr do sol com uma palmeira?

Eu sei que eu já. E a menos que, antes de me distrair, eu estivesse assistindo a vídeos de brigas de rua na Rússia ou a um tutorial sobre desentupir pias, o vórtice costuma me levar diretamente a uma faixa do Kygo, o produtor de house norueguês. Na verdade, vou arriscar dizer que nunca em um espaço tão curto de tempo a música de um único artista invadiu a minha vida desse jeito. Seja no YouTube, no Soundcloud, nos comerciais da House of Fraser, na HSBC Radio ou em churrascos longínquos, cheios de gente feliz e saudável usando shorts jeans, para os quais nunca fui convidado, parece que não consigo escapar do som do Kygo, com os seus xilofones atordoantes, tambores de aço pesados e vocais absurdamente processados.

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Me perguntando se era a única pessoa a sentir a onipresença da música do Kygo — talvez temendo que fosse uma espécie de flashback tardio de Ibiza me assombrando em meus piores momentos — dei uma olhada nos números do cara, e eles revelaram que ele é uma espécie de fenômeno silencioso.

Até agora, o artista cujo nome verdadeiro é Kyrre Gørvell-Dahll alcançou 92 milhões de visualizações da sua faixa "Firestone", e mais dezenas de milhões de todas as outras (que incluem uma versão bizarra de "No Diggity", do Blackstreet). Ele fez um remix oficial do Coldplay, acaba de lançar um single em uma parceria improvável com Ella Henderson, do X Factor, substituiu o Avicii no último Tomorrowland e deus sabe quanto dinheiro ele está ganhando com as suas músicas licenciadas para comerciais. A maneira como as faixas dele tocam automaticamente no YouTube, uma depois da outra, sugere que ele sabe muito bem como funciona o Vale do Silício, e garante que a sua turnê mundial irá esgotar por onde ele passar. Certo, ele ainda não é exatamente um sucesso global, mas está crescendo rapidamente.

Para entender o fenômeno por trás do Kygo, quem ele é não importa muito. Uma rápida pesquisa vai te mostrar que ele recentemente completou 24 anos, que ele vem da Noruega (da pitoresca cidade costeira de Bergen, para ser preciso) e que ele parece um pouco a mistura de um Logan Sama mais musculoso com o cara que interpretava os gêmeos Winklevoss em A Rede Social. Aparentemente, ele é um pianista talentoso, mas desistiu dessa carreira quando descobriu o Logic Pro e o Avicii, o homem que ele viria a substituir e que ele cita, sem ironia alguma, como uma importante inspiração para a sua carreira.

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"As melodias do Avicii eram tão simples e legais, e na verdade, parecidas com as melodias que eu tocava no piano. Pensei que se eu pudesse aprender sozinho como produzir, tirar essa melodias da minha cabeça e passá-las para o computador, talvez pudesse fazer músicas legais também", Kyrre disse à Billboard no ano passado.

Quando esta matéria foi escrita, este vídeo tinha 93,5 milhões de visualizações

O seu entusiasmo pelo Avicii diz muito sobre o tipo de cara que o Kygo provavelmente é: dedicado, educado, ligeiramente ingênuo, talvez, e não muito descolado. Ele usa camisetas decotadas e um boné sempre virado para trás. Ele sorri em todas as suas fotos no Instagram, às vezes acompanhado de um cachorro. Ele pode ser qualquer europeu simpático que você já conheceu: o mochileiro que pergunta se você sabe onde rola um som legal em King's Cross em uma noite de quarta-feira, ou o cara que alegremente deixa você entrar no seu hostel às 5h da manhã, faz uma atadura na sua mão e te pergunta como foi a sua noite. Ele é só um garoto escandinavo que adora a noite, mas (provavelmente) não usa drogas. Ele é a luz que se contrapõe à sombra do Martin Garrix, e o Martin Garrix não é exatamente sombrio.

O cara em si pode não ser um personagem fascinante, mas o seu sucesso revela muito não só sobre o estado atual da nossa cultura, mas sobre a forma como encaramos a vida — muito mais do que a Rihanna, o Guetta, o Kanye ou qualquer um dos verdadeiros peixes grandes da música.

Kygo é o maior expoente de uma onda de produtores de "tropical house" que se posicionaram como uma alternativa ligeiramente mais exótica e de bom gosto à deglutição de balinhas e mãozinhas jogadas para cima do EDM. Ao lado de nomes como Robin Schulz, Zwette, Thomas Jack e Klingande (e de um enxame de sucessos-de-um-remix-só), Kygo pertence à uma cena que, atualmente, parece existir quase que exclusivamente no ambiente digital, um pouco afastada da cena de música eletrônica, utilizando ferramentas como as faixas relacionadas do YouTube e do Soundcloud para construir uma base de fãs, em vez dos caminhos tradicionais do rádio na madrugada e dos sets de DJ.

Mesmo comparada ao EDM, a música desses produtores pouco tem em comum com o house e o techno tradicionais. O número de BPMs fica por volta dos 100, o som é tão óbvio que é praticamente padrão, os artistas que eles remixam são despudoradamente mainstream. Não há lições da Red Bull Music Academy aqui, nenhum vinil branco, nenhuma versão rara, nenhum colecionador, nenhuma figura central. Mal e mal há clubes para esse som. A coisa toda é tão monótona que é quase estimulante. Parece ser projetada com precisão para a dominação mundial; eufórica mas não esmagadora, épica mas relaxante, nostálgica mas absolutamente moderna, meio Ibiza, mas também meio escandinava, meio como o Duke Dumont depois de dois comprimidos de Valium. Jamie xx remodelado para a galera que usa Hollister. É uma coisa meio genérica, para todo mundo, e apesar do meu bom senso, provavelmente sou parte de todo mundo. Eu meio que gosto do som. É meio difícil não gostar.

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A fórmula é simples, mas quase sempre tremendamente eficaz: escolha uma faixa de um artista que normalmente não utilizaria uma bateria em compasso 4/4 ou sintetizadores baleáricos (M83, Ed Sheeran, Passenger, Ellie Goulding, Marvin Gaye), pegue o vocal, submerja-o na água e depois lentamente o traga de volta à superfície para pegar ar, à medida em que a faixa cresce. Traga as suas flautas de pã sintetizadas, as suas melodias do Dario G e todos os efeitos no seu HD, e voilà: você tem uma faixa que soa como o seu último dia de férias.

Veja, o sucesso do Kygo não se deve a como a sua música soa, mas ao que ela faz lembrar. Ele se vale da nostalgia da mesma forma que um anúncio da San Miguel. Não se trata do poder das suas produções, mas dos sentimentos que elas podem evocar. A música dele pode ser essencialmente insípida, algo entre o Gorgon City e alguma coisa que você ouviria num tanque de flutuação, mas ainda assim é inegavelmente evocativa, fresca — quase transformadora.

A combinação de todos esses clichês auditivos, processada e desacelerada para um ritmo que te envolve como uma mordiscada de sol na sua nuca, de alguma forma consegue fazê-lo embarcar numa espécie de memória coletiva de uma geração inteira: aquela primeira viagem a Ibiza, Phuket ou Zante, aquele primeiro beijo sob as estrelas com Becky, Josh, Andre ou Isabella, ou aquela noite em que todo mundo subiu no telhado do Paolo e viu o sol se pôr em Barcelona, Lisboa, no Brooklyn ou em Hackney Wick.

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Se você fez alguma dessas coisas ou não é irrelevante; é a sensação que conta. A música do Kygo é a trilha sonora perfeita para o braço centro-esquerda da cultura jovem cujos principais pontos de encontro não são clubes ou shopping centers, mas festivais de música na praia, luaus e raves em barcos. Esta é a geração que teve a oportunidade de viajar e se tornou plenamente consciente da sua narrativa nômade, aproveitando determinadamente cada pôr do sol, cada beijo, cada coquetel e cada banho de piscina sem roupa de madrugada, compartilhando tudo com todo mundo na internet.

ASSISTA: Big Night Out — Ibiza:

Apelidar a música do Kygo de tropical house é muito apressado, muito ligado à uma realidade onde ela não está situada. O que ele está fazendo é Instagram house, AirBNB house, Slides-de-Youtube house. As suas faixas não existem no presente; elas existem em nossas fantasias cheias de filtros. A sua música existe em lugares que já conhecemos e em lugares sobre os quais lemos em livros tipo "Coisas Que Você Deve Fazer Antes dos 30 Anos". O fato de cada vídeo dele vir acompanhado de uma foto do sol se pondo em uma ilha deserta, ou de uma mulher bronzeada desenhando com os pés na areia, ou de uma piscina natural no crepúsculo não é mera coincidência. As imagens são fundamentais para o apelo da música — são o sonho que ela vende. O sonho que muitas pessoas estão comprando. Os vídeos do Kygo substituíram o cartão postal na geladeira, uma lembrança de que já houve tempos melhores e de que haverá outra vez.

A música do Kygo se parece e soa como um protetor de tela recomendado a alguém com stress pós-traumático; ela é etérea. Tem muito mais em comum com a música de elevador new age do Kenny G, da Enya ou do Moby da era Play do que com o house. O problema é que eu gosto muito do Moby e da Enya, e talvez até goste um pouco do Kenny G. Embora você não possa evitar se perguntar se a música do Kygo foi inventada pelo ministério do turismo da Tailândia, ele é tão bom no que faz que, até enquanto escrevo isto, escutando o remix do cover do Henry Green de "Electric Feel", do MGMT, sob um céu com cor de água suja de uma terça-feira nublada em North Hackney, sou transportado para outro tempo e lugar.

Mas é um tempo e um lugar que tenho certeza de que nunca conheci. Um tempo e um lugar criados a partir de comerciais da Qantas, episódios de Made in Chelsea, catálogos da Boden, resenhas do TripAdvisor, fotos de anos sabáticos de outras pessoas e meu próprio arrependimento de ter passado muito tempo numa cidade. O mundo do Kygo pode não existir de verdade, mas não é um lugar ruim para se estar. Não surpreende que tanta gente queira visitá-lo.

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Tradução: Fernanda Botta