Michelle Steilen, founder of the Moxi Skate Girls, flying through the air in the skate park.
Foto por Rozette Rago. Michelle Steilen, fundadora da Moxi Skate Girls, voando na pista de skate. 
Entretenimento

Dei um rolê com a gangue de minas patinadoras de Los Angeles

Elas estão levando a patinação do rinque para as calçadas sem aceitar desaforo de ninguém.
16.11.18

Não dá pra não notá-las. Os patins deslizam como uma extensão do corpo, marcando formas e padrões no asfalto. Os pedestres ficam de boca aberta. A presença delas é enorme, quase exigente. Elas deslizam com uma graça incompreensível. É como estar dentro de um daqueles clipes exageradamente californianos.

A Moxi Skate Girls é uma comunidade unida que cresceu da Moxi Skates, uma empresa de patins de Long Beach. A empresa foi fundada em 2008 por Michelle Steilen – conhecida em seus dias de roller derby como Estro Jen – e vende patins estilo retrô por meio do legado do fabricante Riedell Shoes Inc. Eles são incrivelmente populares e venderam 10 mil pares só em 2018. Seus patins coloridos hoje são vendidos na Urban Outfitters, Bando, Dolls Kill e em cerca de 200 rinques de patinação e lojas de patins no mundo inteiro.

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Steilen cresceu andando de patins, mas sua dedicação ao esporte começou mesmo quando ela se mudou para Los Angeles, nos EUA, e passou a patinar com as LA Derby Dolls. Mas ela queria tornar a patinação mais acessível e imaginou que vendendo patins recreativos de alta qualidade era o lugar certo para começar. “Eu queria que todo mundo pudesse andar de patins”, diz Steilen, rodopiando na ponta dos pés para me encarar. “Queria construir uma comunidade dos patins.”

Moxi Skate Girl dancing on the street

Foto por Rozette Rago. Da esquerda para direita: Michelle Steilen a.k.a. "Estro Jen," Shayna “Pigeon” Meikle, Liv Buchan, Vanna Jade Curtis e Dita Davis.

Moxi Skates in a circle

Foto por Rozette Rago.

Todos os patins são batizados com nomes da família de Steilen. O “Jack” é em homenagem ao irmão mais novo, e o modelo “Beach Bunny” é uma referência aos seus coelhos de estimação, Nimbus e Cloudia. Mas os patins mais famosos da Moxi são o modelo “Lolly” de cano alto, batizado com o apelido da irmã de Steilen, Loren. Eles são feitos manualmente em Red Wing, Minnesota, onde cada patins passa por 85 estações na fábrica antes de serem encaixotados. Como resultado, cada elemento é criado com uma atenção obsessiva aos detalhes, das botas de couro aos freios até a base de metal. O visual final é meio retrô anos 1920, meio um sonho febril de cores dos anos 80 – uma homenagem à era dourada dos rinques de patinação em Los Angeles, e uma adição perfeita para o Instagram, onde possuem milhares de seguidores.

Nessas fotos de Instagram, as mulheres usam o mesmo uniforme das Moxi Skate Girls: shortinhos (ou Hammies, como são chamados no site da Moxi), regatas coladas para permitir movimentos, pochetes da Moxi e meias coloridas. Esse visu faz elas se destacarem independente do local – seja nas calçadas, pistas de skate, escadarias ou descendo ladeiras. O visual anuncia sua existência, como dizendo este é nosso em espaços historicamente dominados por homens. Essa atitude deu nome à empresa. “O cara da UPS disse que a gente tinha muita audácia [moxie]”, disse Steilen, “e gostei da ideia”.

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Muita de estética da Moxi vem diretamente da própria Steilen. Com ou sem patins, ela é uma força da natureza, combinando força incrível com um delicado trabalho de pés. Patinando, Steilen faz a transição de um conjunto de graciosas piruetas num pé, executadas se equilibrando na ponta do pé direito, para uma parada de mão com espacate. Ela embeleza um conjunto de deslizamentos repetidos com piruetas e chutes. Ela cai uma vez, se levanta, examina o hematoma já em formação, e sai patinando. Quando pergunto por que não vemos mais do Time Moxi na televisão ou documentários, ela responde: “Eles não podem nos conter e vender”.

Michelle doing a split-leg handstand

Foto por Rozette Rago.

Michelle's ass bruise

Foto por Rozette Rago.

E ela não está errada. Neste ponto, a Moxi vende mais que patins – elas criaram uma imagem tão difundida que influenciou uma cultura de patinadoras e inspirou “Moxi Girls” convertidas a se mudar para perto de Long Beach, onde fica a loja principal da marca. “A loja funciona como nosso ponto de encontro”, diz Shayna “Pigeon” Meikle, dona das lojas Moxi Skates de Long Beach e Venice que ela comprou de Steilen em 2014. “A gente pode não saber o que cada uma está fazendo, mas sempre acabamos na loja, tipo 'ah, você tá aí, beleza, vamos patinar'.”

Graças à fama viral, as Moxi Skate Girls vivem sendo reconhecidas. “É muito legal ser reconhecida pelas pessoas na rua”, diz Meikle. “Fui no supermercado com a minha mãe um dia, e a moça do caixa disse 'Você é a Pigeon?'”

A recém-inaugurada loja de Venice é um nexo secundário. “A coisa que mais gosto em trabalhar na loja de Venice é ver as pessoas fazendo contato”, diz Vanna Jade Curtis, tirando seus densos cachos verdes do rosto. Ela se mudou para Los Angeles especificamente para se juntar ao Moxi. “Clientes de outras partes do mundo se conhecem, trocam número de telefone. E isso pode render uma relação verdadeira e duradoura.” O senso contagiante de comunidade delas também atrai novas patinadoras para aulas ou “Skates Outs”, onde dezenas de pessoas se encontram numa loja e saem patinando juntas.

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É isso que diferencia a Moxi de outras marcas e grupos famosos de patinadoras em Los Angeles – como as LA Roller Girls, um grupo seleto de patinadoras renomadas que são escaladas para programas de TV e clipes. Os produtos da Moxi são a base de um estilo de vida desejável, que se liga à imagem de Steilen – o uniforme junto com um certo brio. Graças à presença delas no Instagram e YouTube, a marca é reconhecida mundialmente e é sinônimo de talento, individualidade e feminilidade fodona. É a loja física Moxi Skate, além das aulas de patinação locais das Moxi Skate Girls, que fazem o estilo de vida parecer alcançável.

E sou grata por esse último fato, porque vou fazer uma aula de patinação com elas hoje e tudo é meio constrangedor. Liv Buchan me abraça quando nos encontramos, e me entrega um capacete com pintura de glitter. Ela é a empolgação em pessoa, com otimismo suficiente para abafar minha apreensão. “Trouxemos o capacete no caso de você precisar, e tem glitter, então vai sair bonito nas fotos”, ela me assegura. Estou usando patins verde-água Moxi Lolly “Floss”, que comprei no Craigslist de uma Derby Girl de LA que estava se aposentando. Combinei os patins com meias de estampa de coelhinho para conseguir um look Moxi Girl aproximado.

Live Buchan holding a sparkling helmet

Foto por Rozette Rago. Liv Buchan jogando um beijo.

Moxi Lolly Skate in seafoam green

Foto por Rozette Rago. Meu patins Lolly "Floss" da Moxi.

Até as menores coisas parecem incrivelmente perigosas para uma patinadora novata. Tudo que antes parecia inofensivo é amplificado, estilo “a princesa e a ervilha”: pequenos buracos ou lombadas no pavimento derrubam uma patinadora que está com os joelhos travados, areia destrói os rolamentos das rodinhas, e escadas acabam com seus joelhos. Mesmo os declives mais leves se tornam aparentes. Na minha troca de e-mails com Steilen, pedi para aprender a dar piruetas, mas colocar os patins no pé me fez reconsiderar a ideia. Depois de uma infância patinando no gelo ou usando patins inline, achei que podia acordar mais cedo e treinar até desenferrujar um pouco dos patins de quatro rodas. Mas, isso aqui é totalmente diferente do que já fiz antes, e estou me fodendo tanto que até parece que é meu trabalho (bom, tecnicamente é neste caso).

Manobras que parecem simples são bastante desafiadoras. Diferente de patinar no gelo, onde você rodopia com os dois pés, o que é difícil mas possível com um par de patins criados pra girar num eixo central, você precisa inclinar cada patins de um jeito específico para girar sobre eles. Começando com os joelhos dobrados, você se equilibra nas duas rodinhas da frente de um pé e nas duas rodinhas traseiras do outro pé. Os braços fornecem um pouco de torque enquanto você começa o giro. Velocidade ajuda. Pelo menos é isso que me ensinam. Estou caindo esplendidamente. Mas elas não desistem de mim, apesar da minha poderosa auto-aversão. Curtis grita pra mim “Você está tentando olhar meu rosto, mas precisa me encarar no final da pirueta – não só tentar. Você consegue!” Eventualmente consigo dar uma volta de 360 graus completa, graças ao contato visual com ela.

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“Atirar no pato”, um agachamento com um pé enquanto você desliza, é impossível de segurar sem se desviar. De algum jeito, as Moxi Skate Girls conseguem manter sua posição enquanto vão de um lado para o outro de propósito. Dita Davis gosta particularmente disso, usando o quadril e a perna levantada para se balançar ao longo da ciclovia. Ela me diz que “ir mais rápido facilita”, como andar de bicicleta. Mas, como andar de bicicleta, quanto mais rápido você vai, mais dói quando você cair. Levantar é o mantra de um esporte que te pede para navegar as inércias da gravidade enquanto joga seu corpo nas coisas como um projétil. “A gente dá risada quando cai”, diz Buchan, sorrindo.

Flailing while try to spin.

Foto por Rozette Rago. Eu tentando dar meu melhor giro.

Trying to dance with the Moxi Skate Girl.

Foto por Rozette Rago.

Liv holding a shoot the duck pose

Foto por Rozette Rago.

Apesar dos meus incessantes tropeços, as mulheres sempre me fazem sentir parte de sua família mista. Buchan me dá a mão enquanto tento passar por um pequeno monte de areia. (“Coloque o peso no freio da ponta. Não vai estragar seus rolamentos”, três delas me dizem separadamente.) Enquanto o dia passa, sinto a missão delas de maneira mais e mais forte – a determinação feroz de reclamar espaços estereotipicamente masculinos no mundo da patinação. Meikle está patinando todo esse tempo enquanto empurra um carrinho de bebê. De vez em quando ela para para amamentar a filhinha. “Você devia escrever isso na matéria”, ela me diz, “que eu tiro meu peito pra fora e ninguém liga”.

Patinar tão agressivamente nessa calçada parece um “foda-se” para uma cultura que obriga as mulheres a policiar seus corpos e ações. Os homens ficam comentando nossa performance, tentando flertar e dizendo para fazermos isso ou aquilo diferente. Nem dez segundos passam sem um “sorria, gata” ou um assovio. Mas as Moxi Skate Girls contra-atacam. Quando um comerciante de meia idade grita “Sei fazer melhor que isso”, Buchan o confronta. “Por que você acha que pode nos dizer como patinar?”, ela grita. A linguagem corporal dela é de desafio, ela gesticula loucamente enquanto o interroga. Ele fica mais nervoso e depois na defensiva. Depois acaba concedendo. Buchan sai patinando.

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Estamos tomando muito espaço. Posso sentir minha pele arrepiando com o conhecimento que não sou ágil o suficiente nos patins para sair do caminho se precisar – quem passa por mim é que tem que desviar. É emocionante. É assim que é ser o moleque skatista que trombou comigo semana passada enquanto eu carregava as compras do supermercado? Ou o cara de patinete que me derrubou quando eu tentava atravessar a rua? Sei que não – ainda estou pensando demais – mas fico imaginando quantas vezes preciso patinar com as Moxi Girls para sentir que mereço me mover livremente, cruzar o pavimento sem consequências.

Moxi Skate girls help me down a sand hill

Foto por Rozette Rago.

Me, bombing down the Venice Boardwalk

Foto por Rozette Rago.

Ver Venice patinando é ver uma cidade diferente. Tudo de repente está mais perto. A longa ciclovia que liga Venice a Santa Monica encolhe para um trajeto de 15 minutos de patins. A troca entre as duas praias não é bem um gradiente, mas deslizar sobre as rodinhas faz parecer que você está no Whole Foods num momento daí dá de cara com a Muscle Beach no outro. É um negócio vacilante e exaustivo – minhas panturrilhas estão gritando – mas estou voando e ninguém pode me pegar. Nunca mais quero tirar esses patins.

Finalmente chegamos na pista de skate, a convergência de concreto e metal, coberta de arranhões e freadas de skatistas – homens e mulheres, mas geralmente homens e raramente de patins. A pista pode ser um lugar desafiador para as Moxi Skate Girls treinarem, considerando a reputação delas. Como o assédio nas calçadas, pessoas aleatórias ficam insistindo para as mulheres fazerem manobras toda hora. “Você tem que fazer certas manobras”, diz Curtis. Ela ficou famosa por seu talento em dar mortais de costas no bowl. “É quase como uma banda, tem músicas que esperam que você toque.”

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Steilen desce a parede do bowl sem muita fanfarra, desviando de skatistas enquanto testa velocidade e periodicamente para na beirada. Sem aviso, ela se lança numa parada de mão na beira do bowl, antes de sair patinando de costas e acertando uma série de saltos. “Parar no topo é uma das manobras mais difíceis”, me diz Buchan. “Você tem que parar o impulso completamente. Não pode deixar ele te carregar para frente.” Buchan senta sob os joelhos, sua leve transpiração fazendo a pele dela brilhar como uma modelo numa propaganda da Glossier. Não estou realmente patinando, mas ela me entrega o capacete com glitter de novo. “Segurança em primeiro lugar!”

Michelle doing a handstand at the edge of the bowl

Foto por Rozette Rago.

Michelle dropping in the skate bowl

Foto por Rozette Rago.

Me filming Vanna in the skate park bowl

Foto por Rozette Rago.

Dita Davis at the skate park

Foto por Rozette Rago.

Quando a multidão reconhece o Moxi Skate Team, dezenas de espectadores começam a se juntar na cerca da pista, com os celulares prontos. A pista começa a esvaziar fora alguns skatistas solitários. Curtis e Steilen estão na beira do bowl, testando velocidades de dropada. O bowl faz uma curva então elas têm uma distância de decida diferente. Se querem sincronizar, elas precisam testar a hora certa de dropar, para fazer a manobra ao mesmo tempo. Depois de alguns testes, Steilen olha para nós. Buchan pega seu celular e faz um joia.

Steilen grita “Pronta?” e Curtis confirma com a cabeça. Uma barreira mental tem que cair para fazer o tipo de manobra que o público está esperando – manobras que podem quebrar sua coluna se você não aterrissar corretamente. A multidão cai num silêncio enquanto tentamos adivinhar que manobra elas vão fazer. Elas estão na beirada. Elas dropam, pegam impulso e sincronizam, aí se jogam do outro lado.

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No pico, cada uma delas joga o corpo para trás arqueando as costas. O tempo para por um momento quando elas atingem o ponto mais alto do salto. Elas estão de cabeça para baixo. Os braços abertos, os cabelos flutuando.

Michelle and Vanna doing a backflip in the bowl

Foto por Rozette Rago.

O tempo volta a correr. Os patins delas tocam o solo com um estalo alto, os joelhos dobram para absorver o impacto, e elas saem patinando pelo bowl de costas. É um mortal perfeitamente sincronizado. Parece até fácil, a multidão aplaude. Steilen e Curtis viram para Buchan e eu, com um olhar de dúvida. Filmamos tudo. Elas saem do bowl para ver.

Nos juntamos entre “toca aqui”, abraços e gritos. Elas olham para nossas câmeras e postam a filmagem no Instagram. (No fundo você consegue ouvir Buchan dizendo “não vem falar comigo se você não consegue fazer isso”.) A multidão pede para as mulheres fazerem mais manobras, mas sabemos que já temos o que precisamos – fizemos o que viemos fazer e é hora de se mandar. Estamos fazendo isso por nós e por mais ninguém. Esse é o lema das Moxi Skate Girls.

Moxi Skate Team poses together

Foto por Rozette Rago.

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