Publicidade
Cultura

A estranha história de Kim Kardashian e do seu paparazzi pessoal

Estamos a falar de uma mulher de negócios brilhante, com uma mente desenhada para ganhar dinheiro.

Por Philippa Snow; Traduzido por Madalena Maltez
18 Fevereiro 2019, 12:55pm

Imagem via Instagram.

Este artigo foi originalmente publicado na plataforma i-D UK.

Parece uma loucura tentar apontar o momento exacto em que o rosto e o corpo de Kim Kardashian se tornaram omnipresentes no Mundo, tal como o logotipo do McDonalds ou uma lata de Coca-Cola. Não foi em 2007, quando a sex tape que fez com Ray J (porque ela estava com “tesão e lhe deu vontade”) foi divulgada. Referindo-se ao vídeo, a Wikipédia descreve-a eufemisticamente como “nascida em 1980”, mas “activa a partir de 2007”. Activa mesmo. Também não foi em Outubro do mesmo ano, quando Keeping Up with the Kardashians estreou, nem quando ela posou para a Playboy “com classe” por causa do seu “rabo grande” (tudo palavras suas).

Também não foi na altura em que apareceu brevemente em Disaster Movie (2008), do seu anúncio para o Carl's Jr. (2010), ou quando a sua estátua de cera foi revelada no Madame Tussauds (2010). Contudo, no final de 2010, Kim era a terceira estrela de reality show mais rica de Hollywood e, no ano seguinte, Keeping Up with the Kardashians foi renovado para mais duas temporadas, supostamente por 50 milhões de dólares. Talvez possa ter começado por volta da altura em que ela apareceu nua a andar de mota com Kanye West no videoclip de “Bound 2”.


Vê: "O Padrinho da fotografia erótica"


Mas, a resposta certa parece ser o ano em que Kim Kardashian entrou no Instagram e, como todos os artistas sonham, encontrou o seu meio. Desde então, criou um jogo de telemóvel, uma linha de roupa e uma de produtos de beleza incrivelmente popular, para além de patrocinar publicamente espartilhos, branqueadores de dentes e rebuçados de dieta um tanto ou quanto imorais.

Hoje, vale aproximadamente 350 milhões de dólares e, ainda assim, o seu melhor produto é e sempre vai ser ela própria: a sua cara e corpo, suficientemente consistentes para serem um logotipo, ao mesmo tempo que evoluem lentamente para que, cada ano, pareçam mais e mais perfeitos - menos e menos como os nossos. “Queremos que haja algo mais nela [quanto a Kim Kardashian], alguma razão ou contexto, a grande explicação de como é viver na nossa era”, escreveu Brian Moylan para a Time em 2014, depois de a capa "Break the Internet" para a PAPER ter feito exactamente isso. “Mas não há”, concluía ele no texto. E acrescentava: “O rabo de Kim Kardashian não passa de uma promessa vazia”.

Mas, o desejo sexual não é, tantas vezes, baseado em promessas vazias? Um ano depois de o artigo da Time ter sido publicado, Kim Kardashian lançou um livro com as suas melhores selfies, que intitulou – provando o esperta que é – Selfish.

Com tudo isto em mente, é razoável pensar que Kim Kardashian quer, acima de qualquer coisa, a livre circulação da sua imagem. Ela é o seu próprio marketing, o seu bem e investimento mais valioso: não há produtos Kardashian sem Kim e não há patrocínio ao estilo de vida Kardashian mais convincente do que a sua aparência orgulhosamente falsa e consumidora de tempo (se, como a Wikipédia diz, Kim está “activa” desde 2007, quer dizer que ela passou mais de uma década a mudar e a refinar a cara e o corpo – a imagem que nos vem à cabeça quando alguém diz o nome “Kim Kardashian –, o que faz com que o seu período de gestação seja mais longo que o de Ulisses de James Joyce).

Quando, em 2017, os paparazzi começaram a reclamar que a família Kardashian usava fotografias tiradas por paparazzi só que sem as pagar, as estrelas de reality show ficaram compreensivelmente abaladas com o desenrolar da situação. Quando esses mesmos paparazzi foram atrás dos fãs de Kim e denunciaram sites feitos pelos fãs, ela ficou furiosa. Pode ser que a razão dessa fúria tenha sido o amor pelos seus fãs, mas também, sem dúvida, porque queriam apagar o que era até então a sua grande publicidade: a distribuição aberta... de fotografias dela própria.

“Odiei como as agências de paparazzi deitaram abaixo todas as contas de fãs!”, escreveu ela no Twitter no final de Agosto daquele ano. “Ugh, temos que pensar em alguma coisa! Talvez começar a nossa própria agência? E deixar os fãs publicarem o que eles quiserem!!!!! Toca a fazer um brainstorm!”.

Independentemente do que pensares dela, Kim é uma mulher de negócios brilhante, com uma mente desenhada para ganhar dinheiro. Seis meses depois, encontrou uma maneira genial de lidar com o embargo das suas imagens espontâneas. “Aliás”, partilhou a semana passada, “já que as agências de paparazzi não deixam os fãs publicarem as imagens deles, todas as minhas fotografias vão ser, a partir de agora, tiradas pelo meu próprio fotógrafo e vocês podem fazer repost do que quiserem. Se eu publicar algo de uma agência, vou marcar a agência e pedir a autorização devida. Assim vocês já sabem que dessas, por favor, não façam repost!”.

Kim Kardashian, admiradora de longa data de Elizabeth Taylor, viu sem dúvida os paralelismos entre a sua decisão de empregar um fotógrafo pessoal e de Taylor contratar Gianni Bozzacchi para o mesmo trabalho no final dos anos 60. Tal como Kardashian, o que Taylor queria era controlo, uma forma de cristalizar a sua imagem aos olhos do público, com as suas especificações exactas. Ao contrário de Kim Kardashian, Taylor não tinha que lidar com o Instagram, Twitter ou o Daily Mail. Mas, também ao contrário de Kim, ela não era só uma mulher bonita com uma linha de perfumes, mas também uma grande actriz. A aparência dela era parte da imagem, sim, mas não era a coisa toda e não era tão desenfreadamente disseminada nem dissecada a cada minuto, como a imagem de uma mulher moderna com uma sex tape e um reality show de 13 temporadas.

É difícil saber que parte desta história tão 2019 é mais estranha: mulheres extremamente públicas a serem processadas por reproduzirem as suas próprias fotografias, ou a ideia de que os fãs de Kim Kardashian viram a decisão dela de trabalhar com o seu próprio fotógrafo como altruísta, motivada por amor.

Eu argumentaria que Kardashian não precisava de ser motivada por amor, quando tem um império para comandar e quando o corpo e a cara são a sua moeda. Mais do que Gigi Hadid, que tem vindo a ser processada por paparazzis por usar ilegalmente as suas próprias fotografias no Instagram, a marca de Kim é totalmente sinónimo do seu estilo pessoal, da sua silhueta e da sua capacidade de, simplesmente, ser Kim aos olhos do público. O seu trabalho mais lucrativo ainda é, para lá dos perfumes, produtos de beleza e jogos telemóvel, existir para ser vista. Apesar de ter lançado a sua própria colecção de Kimojis, ela é praticamente um emoji que ganhou vida (pode ser o emoji de uma mulher gira a fazer dinheiro).

“Sou uma empreendedora”, disse certa vez. E acrescentou: “Ambição é o meu nome do meio”. Parece que processo nenhum se vai interpor entre os nossos olhos e a forma indelével e invejavelmente esculpida de Kimberly “Ambição” Kardashian. Citando as suas palavras imortais: “Se calhar, se tivesses um negócio apaixonante, saberias o que é preciso para levar a cabo um negócio. Mas não sabes".


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.