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O Grammy Não É Racista, Ele Só Não Manja Porra Nenhuma de Hip-Hop

Isso explica muito porque o Macklemore ganhou.
Ryan Bassil
London, United Kingdom
29.1.14

Com a exceção do Frank Ocean no Brit Awards de 2013, as pessoas no comando de premiações estão quase sempre erradas sobre quem elas escolhem para ganhar e as pessoas que as criticam estão quase sempre completamente certas.

E esse status quo não é de agora, logo, é por isso que quando o Mackelmore ganhou o Grammy de Melhor Música de Rap, Álbum de Rap e Performance Rap, tirando o prêmio de artistas como Drake, Kanye, A$AP Rocky e Kendrick Lamar, todo mundo ficou tão surpreso quanto uma colher de chá.

Claro que não deveria ser assim. Isso deveria ser considerado uma anomalia, um ano horrível em que o Macklemore ganhou e nós deveríamos sair tacando molotovs pela cidade, indignados, querendo uma retaliação. O Kendrick Lamar é o campeão do povo, o good kid, m.A.A.d city é o Illmatic da nova geração. E SIM, o Kendrick deveria pra caralho ter ganho esse prêmio, eu não ligo! Vai embora, me deixe em paz, EU ESTOU CERTO ELE É O MELHOR DO MUNDO.

*respira fundo*

Mas isso não foi um erro, não foi um ponto fora da curva e não importa quantas pessoas famosas, quantas pessoas reais e estranhas da internet falem que quem deveria ter ganho era o Kendrick, o Macklemore ainda vai ser o ganhador de um Grammy. E assim vai continuar para o resto de nossas vidas.

Porque o Macklemore é um artista branco e politicamente correto, e sua mãe gosta dele, já o Kendrick é um jovem negro de Compton, fica fácil puxar o zap do racismo -- que foi o grande rolê de 2013 nos EUA -- e ficar gritando "TRUCO, Ó A DESIGUALDADE" como se isso fosse uma tentativa orquestrada por gordos vestindo ternos (a.k.a. executivos de gravadoras) de embranquecer o hip-hop.

Mas o Macklemore não ganhou porque é branco ou porque os reptilianos nos bastidores do Grammy querem pintar o hip-hop como algo não civilizado. O Macklemore ganhou porque, apesar de alguns desses mesmos lagartos comandarem gravadoras de hip-hop e trabalharem com artistas, a grande maioria não sabe bosta nenhuma de hip-hop e “Thrift Shop” vendeu tipo uns seis milhões de cópias, então, para eles, isso é, obviamente, a grande coisa que aconteceu no hip-hop no ano passado.

O ponto é que a maioria das pessoas no júri do Grammy sempre sofre de falta de conhecimento quando se trata de hip-hop. Lá em 1989, quando o gênero foi encarnado pelos lordes da premiação, existia somente uma categoria, que era a Melhor Performance de Rap. Apesar de, naquele ano, terem saído clássicos imortais como Straight Outta Compton, It Takes a Nation of Millions to Hold us Back e o The Great Adventures of Slick Rick, o rap foi visto pelo Grammy como um "gênero de singles", não o inovador veículo de lançamento de discos que o estilo estava se tornando. Will Smith e Jazzy Jeff receberam o prêmio com o hit de rádio "Parents Don't Understand", então, sei lá, vai entender!

Os álbuns de rap foram finalmente integrados à premiação completa em 1996, mas isso não impediu o comitê de tomar mais decisões burras.

Em 2005, a música "Let's Get It Started" do Black Eyed Peas levou o prêmio de Melhor Performance do Rap, ganhando de "Ch-Check it Out", "Drop It Like It's Hot" e "Lean Back". No ano em que Ready to Die, Illmatic e o primeiro álbum do Outkast foi lançado, um cara velho e chato chamado Tony Bennet que muito NÃO influenciou uma geração inteira ganhou o prêmio de Melhor Álbum do Ano. Quando você considera que os ganhadores do Grammy são aqueles que costumam vender mais álbuns, então tudo faz mais sentido. O Black Eyed Peas dominou as paradas o tempo todo, o Outkast ainda era relativamente underground enão há dúvidas de que o Illmatic e o Ready to Die não foram ouvidos por gente que não era fã de hip-hop à época, então, é por isso que eles não foram indicados.

No entanto, a maioria das pessoas discute se o Grammy é somente um reflexo do que se vende em lojas e se ouve nas rádios, e que os álbuns que se deram bem nisso durante o ano são os que inevitavelmente recebem muitos votos da indústria fonográfica. Isso faz sentido dentro das categorias de rap, já que os últimos ganhadores da taça de Álbum do Ano -- Take Care, My Beautiful Dark Twisted Fantasy e Tha Carter III -- são os que mais venderam. Mas a galera do Grammy não costuma seguir muitos suas próprias regras quando se trata dos prêmios gerais. Em 2001, apesar ter vendido 1,7 milhões nas primeiras semanas, The Marshall Mathers LP perdeu o Grammy de Álbum do Ano para o Steely Dan. E o Tha Carther III perdeu para um disco de duetos da cantora de bluegrass Allisson Krauss com o Robert Plant. Parece que, se o prêmio for para o hip-hop, só ganha que vendeu mais, mas quando se trata do gosto pessoal do comitê do Grammy, a coisa toma outra forma. O resultado é que obras de artes icônicas e que mudaram vidas são ignoradas em premiações para dar lugar a porcarias como Mumford and Sons.

A única vez em que um álbum de rap ganhou o prêmio de Álbum do Ano foi em 2004, quando o Speakerboxx/The Love Below foi certificado como DIAMANTE e ONZE VEZES PLATINA! É fantástico que o Outkast tenha ganho, fico muito feliz por eles e não vou transformar isso em uma piada. PORÉM, muitos outros artistas que são ótimos, merecedores e que fizeram álbuns de rap que mudam vidas poderiam e deveriam ter ganhado esse prêmio depois do Outkast.

Como prova esse desastre do Macklemore, a abordagem “quem vende mais é quem ganha” não faz mais nenhum sentido. O Grammy nunca, nunca, nunca entendeu o hip-hop do mesmo jeito que eu nunca entendi o porquê de um micro-ondas funcionar diferente quando você o coloca na opção "degelar". Para eles, o rap é uma categoria coadjuvante que ainda não é digna de competir com as preferências musicais do júri.

Então, qual é a solução?

O Grammy é votado pelos membros da National Academy of Recording Arts & Sciences, então, se você estiver muito a fim, pode preencher o formulário, ler as letras miúdas, marcar as opções e votar em quem você acha que deveria ganhar. Mas, infelizmente, esse processo não é tão fácil assim, então, não existe nenhuma solução. Mals ae. As pessoas no comando ainda estão no comando. O rap fatura milhões nos EUA e, no fim das contas, é constrangedor quando a opinião pública está à frente do que os caras que dão esses prêmios.

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