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Noisey

Encontrámos a verdadeira Valerie da canção "Valerie", popularizada por Amy Winehouse

Poucos sabem que a música de 2006 é uma cover; menos ainda quem a inspirou.

Por Rajul Punjabi; Traduzido por Sérgio Felizardo
13 Junho 2019, 1:39pm

Foto cortesia Valerie Star.

Este artigo foi originalmente publicado no Noisey - Music by VICE.

Poucas pessoas sabem que “Valerie”, popularizada por Amy Winehouse, é na verdade uma cover, portanto há por aí várias hipóteses que especulam sobre porque é que ela canta esta música romântica e contagiante com tons de blues, para alguém que se chama Valerie: no Reino Unido, Valerie é um nome de homem. Winehouse era bissexual. "Era sobre uma amiga que deixou de falar com ela por causa do seu consumo de drogas". Mas, ninguém realmente sabia (nem o Genius, vê lá tu bem). Até agora.

A música foi escrita e gravada originalmente pelos Zutons, uma banda britânica. Valerie Star, uma conhecida maquilhadora que vive em Nova Iorque, revelou à VICE que namorou com o vocalista da banda, Dave McCabe, e que a música é sobre ela. Entrámos em contacto com McCabe e perguntámos-lhe. “Sim, é ela”, confirmou o músico com o seu forte sotaque de Liverpool. E acrescentou: “Ela é uma miúda muito querida”.


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McCabe escreveu a música sobre Star em 2006 - para o segundo disco de estúdio dos Zutons, Tired of Hanging Around - num táxi, em cerca de cinco minutos. “Ela estava nos Estados Unidos e eu estava em casa, portanto a música era tipo um postal”, explica, com um certo tom melancólico. McCabe corrobora tudo o que Star me tinha contado sobre a narrativa da canção: Star recebeu uma acusação formal depois de várias infrações de trânsito, quase foi parar à prisão (daí aquele verso “Do you need a good lawyer-er-er?”) e não conseguiu mudar-se para o Reino Unido para ficar com ele. E foi assim que aconteceu a cena toda do “why don't you come on over, Valerie?”.

Mark Ronson produziu a cover de 2007 de Winehouse e a música ultrapassou a original, atingindo o segundo lugar das tabelas do Reino Unido. Naquele mesmo ano, houve remisturas e saiu um videoclip. Winehouse não aparece no vídeo – na altura, lutava contra a dependência de heroína. McCabe diz-me que nunca sonhou que a música fosse rebentar daquela forma, mas ficou feliz que tenha acontecido.

Numa tarde fresca de Primavera, A Valerie – que ainda é muito ruiva – encontrou-se comigo para contar tudo sobre como um romance fatídico se tornou na canção doce, enigmática e omnipresente que é hoje.

VICE: Portanto, um músico escreveu uma canção inteira sobre ti e essa canção acabou mesmo por ser gravada. Qual é a sensação?
Valerie Star: Digo sempre que é como se tivéssemos tido um bebé alienígena estranho, porque vamos ter essa conexão até ao dia em que morrermos. É bizarro e bastante alucinante – e sim, adoro esse gajo. Ele é incrível. Não acabámos de uma forma má, nem nada do género. Lembro-me quando me contou sobre a música. Foi tipo “Escrevi uma música mais ou menos sobre ti. E foi escolhida para ser um single”. Não me contou mais nenhum pormenor. Estava um bocado tímido em relação à situação. E eu a pensar para comigo: “Meu Deus, Valerie, como será que é essa música?”.

Encantou-me o facto de vocês falarem muito bem um do outro, mesmo não estando juntos. Se calhar deviam voltar.
Amo-o muito, mas ele está do outro lado do Mundo. É só uma questão logística, não é algo viável a longo prazo. É como um doce coberto com poeira de unicórnio, mas simplesmente não funciona. Estamos ambos muito enraizados nas nossas cidades. Fazemos coisas que não são transferíveis – não me posso desenraizar daqui e ir para lá. Quer dizer, viste como é a cena da maquilhagem em Liverpool? Não, obrigada. É um look próprio.

Como é que se conheceram?
Uma amiga tinha comprado bilhetes para um concerto [na Flórida], mas a banda que queríamos queria ver cancelou à última hora. E eu pensei “Merda, não quero ir só para ver a banda de abertura”. Mas, a minha amiga, Erin, disse “Vamos lá, Valerie, já nos arranjámos e tudo, temos os bilhetes, vamos”. Entrei lá com um ar meio pretensioso, tipo... sou demasiado boa para ouvir essa outra banda. Depois, ouvi o Dave a cantar e pensei “Caraças, que incrível”. Eles tinham um som muito único e eu nunca tinha ouvido nada assim. Só por si, a electricidade que tinham em palco como banda era muito bonita.

Quando acabaram de tocar, vi o Dave a passar e agarrei-o. Disse-lhe: “Tenho de te pagar um copo. Vocês são óptimos”. Um copo transformou-se em sei lá quantos mais. Muitos. Não ficámos lá. Fomos a outro bar. Depois outro. Mais tarde, voltámos para o apartamento da Erin e bebemos champanhe no telhado até ao sol nascer. Esse foi o nosso primeiro encontro. Depois dessa primeira noite, Dave disse-me que iam dar outro concerto em Jacksonville ou algo assim – a umas quatro horas de distância. Então, fomos para Jacksonville e a coisa foi -se transformando numa bola de neve. Encontrei-me com ele em várias cidades. Viajei de avião para o ver. Foi incrível. Divertimo-nos muito juntos.

Como é que a música aconteceu?
Fui presa uma semana antes de ir para Liverpool para ficar com ele. Acho que era a minha sétima infração a conduzir com a carta suspensa.

Porque é que tinhas a carta suspensa?
Bem, fiz uma coisa muito idiota. Apanhei uma multa por excesso de velocidade e achava que os polícias eram idiotas, portanto pensei “não vou pagar a multa em protesto contra o sistema”. Só que depois eles emitem um mandato de prisão. E a coisa tornou-se um grande problema. E acho que não parei imediatamente quando eles me mandaram parar, o que, aparentemente, conta como fugir à polícia. E acho que também cuspi no agente, porque ele foi muito rude – e isso conta como agressão à autoridade.

Acabei por gastar cada cêntimo que tinha, tipo uns 30 mil dólares, para não ir presa. Tiraram-me a carta de condução por uns 15 anos, mas ainda assim é muito melhor que ir presa. Quando estava detida na Flórida a lidar com tribunais e advogados – o caso demorou alguns meses – foi quando Dave escreveu a música. Era suposto eu já estar em Liverpool na altura e pensei: “Só vai demorar um bocadinho mais. Tenho só que lidar com esta cena da lei. Quase fui presa e gastei cada cêntimo que tinha”. E foi assim que ele escreveu a música. Foi mesmo tipo: “Did you have to go to jail / did your house go up for sale?”.

O que é que aconteceu depois?
Cerca de nove meses depois, consegui resolver os problemas legais, mas estava falida. E não era como se pudesse largar tudo e ir para Liverpool sem dinheiro. Porque, não vou ser essa pessoa que diz “então, vais pagar tudo, certo?”. Não podia fazer isso. Essas pessoas são idiotas. Portanto, continuei na Flórida e poupei para me mudar para Nova Iorque, porque naquele momento pensava: “Valerie, vamos considerar as tuas opções realmente viáveis”. Foi nessa época que ele me contou que tinha escrito a música, que a editora tinha adorado e que iam gravar um single.

Ainda namoravam à distância?
Sim. Porque, eu tinha toda essa ilusão de que ia sair impune sem gastar um cêntimo. Pensava tipo “sim, vou estar aí muito em breve!”. Mas isso nunca realmente aconteceu.

Tens um verso favorito da música? Tipo, quando ele fala do teu cabelo ruivo.
Gosto mesmo muito dessa parte. E na época também me vestia de uma forma muito maluca, como no verso “I've missed your ginger hair / and the way you like to dress”. É uma música sobre aquela parte da minha vida. Vestia-me toda fabulosa, viajava atrás desse gajo de uma banda e fui presa!

Como é que te sentiste quando a versão da Amy rebentou?
Ela era uma artista incrível. Estava à frente do seu tempo. É uma história tão triste e trágica, em muitos aspectos. Como no videoclip – ela não aparece, porque estava no seu próprio Mundo. Essa parte é de doer o coração. Lembro-me de conhecer o Mark [Ronson] quando ele estava a dar uma entrevista na rádio com o Dave. O Mark disse-me: “Sinto que devia abrir a minha carteira agora e entregar-te todo o meu dinheiro”. Foi muito engraçado. É meio surreal. Não consigo tirar a música da minha playlist. Não é uma coisa narcisista, mas sinto que ela aparece no shuffle nos momentos mais estranhos. Tipo, “Olha, estou apenas a ouvir uma música sobre mim – não prestes atenção”.

Hoje em dia tens exigências muito altas em relação às pessoas com quem namoras?
Bem, acho que sempre tive mais ou menos. A pessoa tem de ser mais alta que eu quando estou de salto. Gosto dos gigantes. E adoro músicos. Tem de ser alguém artístico de alguma forma. E um sotaque diferente ajuda sempre.

A entrevista foi editada e condensada para melhor entendimento.


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