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Música

Uma Resenha sem Groselha do Pop Internacional de 2014

Uma perspectiva inglesa.
13.1.15

2014 Foi o Ano do Pop Pensadinha

Desde sempre, jornalistas ingleses de música velhos acordam da sua soneca induzida por Bruce Springsteen para encher colunas na Imprensa Tiozão reclamando que o pop não é mais político – que aqueles dias gloriosos, quando Billy Bragg e Paul Weller davam as mãos e cantavam sobre a falta de fundos para a previdência social acabaram, e que agora temos que nos conformar com as propagandas do Jedward e do John Lewis.

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Apesar disso nunca ter sido estritamente verdade – acho que a MIA ia ficar um tanto puta se dissessem que a música dela ignora questões globais – 2014 foi o ano em que a música pop internacional não só achou um lugar no centro da vida política, mas se tornou um prisma através do qual questões importantes de hoje são discutidas.

Talvez porque seja difícil lidar com as repercussões globais da desigualdade quando você está tentando encher seu Pinterest, os clipes gringos meio que se tornaram um campo seguro para falar sobre misoginia, racismo e o avanço do capitalismo. Durante a Guerra Fria, os jogos de guerra costumavam se passar em possíveis cenários apocalípticos, mas mantendo um distanciamento emocional; em 2014, usamos a bunda da Nicki Minaj do mesmo jeito.

Pode parecer que esses debates em torno da cultura pop sempre existiram, mas eles ganharam uma ferocidade nova ano passado; alguns anos atrás, a Gwen Stefani estava andando por aí com "garotas de Harajuku" mudas de uniforme escolar e as pessoas não estavam nem aí; mas, em 2014, o clipe temático da Hello Kitty da Avril Lavigne foi, com toda razão, destruído por causa de seus estereótipos raciais. Nicki Minaj foi acusada de se apropriar de imagens nazistas, apesar de centenas de clipes antes – de Pink Floyd a Madonna – terem usado temas fascistas só para fazer graça. Dependendo de para quem você perguntar, o hit "All About That Bass" de Meghan Trainor é um grito de guerra para as jovens de todo mundo amarem seus corpos ou um exemplo escroto de "skinny shaming".

Aí, claro, tivemos o disco da Taylor Swift, que chegou numa bandeja de artigos de opinião e análises. Parecia que a história tinha dado o que tinha que dar depois da lista "9 Razões Por Que a Taylor Me Fez Saber que É OK Ser Eu Mesma", mas a coisa foi muito mais fundo que o normal. Na New Statesman, Sarah Dittum escreveu um artigo intitulado: "O sucesso de Taylor Swift me deu esperanças no futuro da humanidade", e a NPR comparou Taylor à própria liberdade, escrevendo:

"A voz de Swift em 1989 não só representa a liberdade que ela sente como uma jovem com força suficiente para quebrar o molde que a tornou comercialmente viável; sua intensificação é essa liberdade."

Um estudante até apresentou uma tese no Georgia Tech chamada: "Para Sempre Adolescente: Taylor Swift, Inocência Erotizada e Apresentação da Normatividade", que argumentava o seguinte:

"A imagem de Swift se baseia em ideias de inocência e normatividade diretamente ligadas aos marcadores de brancura, sem ter que nomear isso explicitamente."

O interessante dessa politização é que as estrelas do pop ficam quase que inteiramente fora disso. Swift disse que depois de anos não se considerando feminista, percebeu que era sim numa conversa com Lena Dunham. Ops. Meghan Trainor, enquanto isso, anunciou que não se considera feminista. A decisão delas de como se rotular parece estar anos luz atrás da conversa que os jornalistas e seus fãs estão tendo sobre representação das mulheres na mídia, intersetorialidade e o papel feminino na indústria.

E não só o pop se tornou politizado, essa politização se tornou democratizada – o debate sério tem saído das mãos dos artistas e ido para as mãos daqueles que realmente ouvem as músicas. Em vez das citações simplistas do Noel Gallangher, você tem um debate inteligente – mesmo que esses debates sejam depressivamente sérios às vezes. Mas mesmo o mundo não precisando de 2.000 palavras sobre "Firework" da Katy Perry para saber que a música tem "uma letra empoderadora de autoaceitação", um desvio no senso de humor é um preço pequeno a se pagar para tornar o pop importante de novo. É só não perguntar ao Jason Derulo se "Talk Dirty" é um comentário sobre a liberdade da geração Y para expressar seu desejo ou sobre a sexualização do nosso discurso social.

Retromania: Round 2

Eu sei que quem não é jornalista de música e nem fala inglês acha essa teorização acadêmica excessiva da cultura pop um pé no saco, mas siga meu pensamento nos dois parágrafos seguintes, essa é a melhor chance de explicar por que acho que esse foi o ano em que matamos a música underground.

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OK, o livro Retromania de Simon Reynolds argumenta que a cultura pop é obcecada pelo passado, criando seu próprio mal-estar através de uma mistura de fetichização de relíquias obsoletas da história recente (discos de vinil, John Lydon) e infinito requentar de antigas glórias (29 capas da NME dizendo que The Queen Is Dead é o maior disco de todos os tempos). Tudo isso é bem óbvio pra quem assistiu infinitos programas de TV mostrando as pessoas invandindo a loja da Virgin para comprar um disco do Blur ou do Oasis, intercalado com Toyah Wilcox lendo um cartaz de papelão que dizia "ache qualquer um para dizer que 'O Blur ganhou a batalha mas o Oasis venceu a guerra'".

Uma das principais salvaguardas da cultura britânica contra a retromania tem sido o contínuo hardcore, segundo outra teoria de Reynolds, um jeito de descrever como a rave hardcore evoluiu nas tomadas britânicas do house e do techno, que por sua vez evoluíram para jungle, drum and bass e depois 2-step, garage, grime, bassline, dubstep e além. Reynolds aponta, e isso parece bem irrefutável, que essas não são cenas separadas, mas uma "única tradição musical" que negocia "guinadas estilísticas drásticas e mudanças significativas na tecnologia, nas drogas e na composição social/racial de sua própria população".

Lembrar os bons tempos, a música, as drogas, as mulheres e os clubes é a única coisa que vai te manter são, rs."

Um raver das antigas lamenta "o tempo bom que não volta nunca mais" no vídeo de "High" do Hyper Go Go no YouTube.

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O que vimos em 2014 foi a fetichização do underground britânico numa extensão inédita: foi basicamente retromania do contínuo hardcore. A tendência mais acelerada da música foi jogada para trás para refazer os próprios passos.

Parte disso é culpa das marcas que continuam injetando dinheiro numa série de eventos e sites que celebram a cultura underground; dos documentários Music Nation do Channel 4, que fez a mesma coisa na TV inglesa; e do aniversário de 20 anos da Rinse FM, que bombardeou o verão com grime, funky, dubstep, garage, house etc.

Mas grande parte disso é cultural mesmo; gente jovem, que antes estaria na vanguarda dessas revoluções eletrônicas, está voltada para a história da música underground. Noites inglesas como a Joyride, que tocam garage e house e têm filipetas estilo rave old school, se tornaram mais populares que as baladas que tocam música nova. Esses flyers geralmente prometem "um set de dubstep de raiz" ou "set de garage clássico", geralmente com nomes de DJs que tinham sete anos de idade quando "Midnight Request Line" foi lançada. Os maiores nomes das baladas universitárias são DJ Luck & MC Neat e Artful Dodger, tocando medleys de seus maiores sucessos. Mesmo astros mais contemporâneos como Jamie XX há anos vem reciclando os dias de glória da rave, primeiro na música/história oral "All Under On Roof Raving" e depois numa série de mixes intercalando música nova, música antiga e trechos de documentários clássicos de rave.

A maior parte dessa cultura retrógrada tem sido brilhante. Muitos desses gêneros mal foram cobertos fora da imprensa de nicho em sua infância, e agora estão recebendo o alcance e a canonização que merecem. Mas isso, claro, acontece às custas do surgimento de um novo contínuo. Com tanta coisa voltada para trás, nenhuma evolução clara do underground do Reino Unido emergiu nos últimos anos. Isso não é necessariamente o fim da linha, mas o caminho está definitivamente fechado para trabalhos de atualização.

A Lacuna entre Música Que Comentamos e Música Que Compramos Nunca Foi Tão Grande

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Passamos um ano falando sobre a bunda da Nicki, sobre a Avril difamando a cultura japonesa e sobre a era dourada do garage. Mas como isso influenciou a venda de música no Reino Unido? Nem um pingo.

O disco de Minaj não entrou nem para o top 20 do final do ano passado. A música da Avril não entrou nem para o top 200. Uma artista como FKA Twigs, que foi capa de todas as revistas e jornais da Inglaterra, vendeu menos de 15 mil álbuns ano passado. Os maiores discos do ano são universalmente de caras brancos tocando guitarra – Ed Sheeran, George Ezra, Coldplay – ou caras brancos sem guitarra – Sam Smith, Olly Murs, One Direction, Take That.

Aqui vai um fato que a indústria e a imprensa musical não querem aceitar de jeito nenhum. Cantores de R&B, rappers, artistas solo estilosas, bandas de garotas – essa gente não vende álbuns em quantidade considerável. Os únicos vendendo pesado na Inglaterra hoje são moleques brancos cantando músicas que a banda do Strictly Come Dancing não ia ter medo de tocar. Este ano, James Bay, um compositor e cantor dolorosamente chato que já ganhou um prêmio da crítica britânica, vai, sem dúvida, continuar confirmando que a diversidade foi afastada do topo da música pop britânica. É assim que as coisas são agora.

Homem do Ano: Killer Mike

Killer Mike é o rapper que a maioria dos fãs de hip hop procurava e que estava bem embaixo do seu nariz. Hábil, provocador, experiente, com um grande respeito pela história do hip hop mas sem medo do futuro. Mas foi o LP Run The Jewels do ano passado – um disco que flerta com as relações de raça nos EUA, o encarceramento da população negra norte-americana em prisões privadas e a vida de alguém como seu pai, que fica passando entre HBO, CNN e Television X – para Mike ganhar o respeito crítico que ele merece, especialmente fora da comunidade do hip hop.

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Killer Mike estava fazendo um show do Run The Jewels em St. Louis na mesma noite em que o grande júri decidiu não indiciar Darren Brown pela morte de Michael Brown. Naquela noite, a América do Norte buscou consolo ou uma resposta em seus líderes, mas só encontrou as platitudes vazias de Obama sobre uma nação ferida, enquanto revoltas e protestos estouravam nas ruas de todo o país.

Killer Mike fez um discurso no palco que pareceu representar exatamente o que as pessoas estavam sentindo naquela noite. Claro, quem sou eu, um garoto judeu de Londres, para saber como os negros americanos estão lidando com essas notícias, mas pela reação do público deu para sentir que isso foi uma versão menos tímida do discurso emocionante de Jon Stewart depois do 11 de Setembro, uma torrente de emoção que tentou falar pela tristeza que a maioria das pessoas estava sentindo.

Numa entrevista para a Noisey no dia seguinte, Mike disse o seguinte:

"Estou tendo que explicar para um garoto de 17 anos que o policial não vai ser responsabilizado pelo que fez. Estou tendo que explicar para uma menina de sete o que é toda essa história. E ainda tenho filhos de 20 e 12 anos. Tenho que ensiná-los a interagir com a polícia e sair desses encontros vivos. Minha filha devia estar preocupada com sua aula de dança ou o recital da irmã. Eu não deveria ter que estar preparando meus filhos para o fato de que o mundo será injusto com eles pelo resto da vida.

"Sou um marido. Sou um homem de princípios. Um macho alfa. Minha mulher e filhos não deveriam ter medo de nada, seu marido e seu pai está aqui para protegê-los. Mas quando sua esposa te olha e diz 'cara, às vezes você tem que parar e pensar se Deus realmente te ama'. Nenhum homem devia ter que fazer isso."

Se houve um momento em 2014 onde o pop internacional realmente pareceu valer alguma coisa, foi este.

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