Sexo

A vida selvagem de Suze Randall, a lendária fotógrafa da Playboy

Um raro vislumbre do mundo secreto da fotógrafa londrina de 72 anos.

Por Hannah Ewens; Traduzido por Madalena Maltez
20 Agosto 2018, 10:48am

Imagens cortesia do Suze Randall Estate.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Um suado entrevistador pergunta a uma mulher que parece a Marilyn Monroe se todas as coisas picantes que ela escreveu sobre si própria são verdadeiras. O olhar maroto responde primeiro. “Sim, é tudo verdade. Não achas que poderia ter inventado tudo, ou achas?”. Alguém poderia, responde ele. “Bem, essa pessoa teria que ter uma imaginação bastante fértil”, diz ela, com os olhos a alteranrem entre ele e a câmara, num escandaloso flirt com ambos.

O entrevistador do programa australiano A Current Affair continua e coloca à pornógrafa Suze Randall uma questão que exemplifica a atitude de muitas pessoas em relação a mulheres que ousavam utilizar a sua sexualidade como fonte de rendimento durante os anos 1970: “Estás preparada para fazer tudo por dinheiro e fama?”. A resposta: “Estou preparada para fazer tudo o que eu gostar de fazer e eu gosto de sexo. E gosto de dizer coisas mais marotas, ser um bocadinho ousada e chocar as pessoas - só um bocadinho. Sabes, tens de saber até onde ir. Não podes ir...” – uma sobrancelha levanta-se antes de um sorriso – “... longe demais”.

Suze Randall acabou por ficar com o dinheiro, mas não com a fama. O seu nome devia ser um dos mais icónicos na indústria do entretenimento para adultos – foi a primeira fotógrafa mulher da Playboy a fotografar nu frontal integral, a primeira mulher a vender os seus nudes ao The Sun e a encontrar o seu lugar num mundo quase completamente masculino –, mas, no entanto, é praticamente desconhecida por quem não trabalha no meio.

Raramente dá entrevistas e o livro que o marido escreveu sobre os seus dias mais loucos – Suze – está fora de catálogo, com cópias em segunda mão a valerem centenas de libras na Amazon. Por isso, quando recentemente aceitou fazer uma entrevista por telefone, foi uma oportunidade única para ouvir na primeira pessoa tudo sobre a “diversão sensacional” que viveu nos últimos 72 anos.

Imagem cortesia Suze Randall Estate.

“A minha família encorajava-me a enfrentar valentões e a não me deixar intimidar por professores, porque podiam ser injustos”, conta Randall, sobre uma infância que marcou o começo de uma vida de rebeldia. E acrescenta: “Era uma tradição de família defenderes-te e questionares a autoridade. Isso foi bom para toda a gente; a sociedade pode aproveitar-se de ti”.

Suze cresceu em Worcester, Inglaterra, o seu pai era professor de educação física na escola local e a mãe era enfermeira. Lembra-se do interior pitoresco, de andar a cavalo e da sua escola particular – que “não me ajudou em nada”. Discutia com a directora, era constantemente expulsa da sala de aulas, usava o uniforme errado e tricotava por baixo da mesa se entendia que a aula era chata.

Depois do colégio, trabalhou como enfermeira no St George's Hospital em Londres e gostava do trabalho. Mas, “tudo mudou” no dia em que fez 22 anos, quando conheceu o marido e parceiro para o resto da vida, Humphry Knipe. “Passei de ser uma boa menina, para ser apresentada ao Mundo”, diz. E recorda: “Era meio virgem quando o conheci”.

E esse novo mundo significava consumir drogas, participar em orgias e desfrutar de uma sociedade nascente de amor livre. As histórias sobre essa época são curtas e doces. Teve um Festival do Sonho Molhado em Amsterdão, que procurava explorar a comunicação através da nudez e do sexo. Segundo Humphry: “Faziam-te assistir a filmes porno o dia inteiro e a fazer sexo a noite toda. Tinham colchões no chão. Eram uns cinco homens para cada mulher. As pessoas podiam chegar da rua, assistir e dizerem 'não sabes fazer melhor!?'”. Havia festas de swing semanais (“tipo a igreja, que tinhas que frequentar uma vez por semana”), uma delas foi invadida pela Polícia Metropolitana, que estava à procura de drogas. Como toda a gente estava nua e não havia como revistar alguém assim, Suze diz que a única opção da polícia foi levarem o aquário para verem se o resíduo castanho no vidro era haxixe.


Vê: "O Padrinho da fotografia erótica"


O sexo era livre, mas Londres não e as bebidas e as drogas não eram de borla. Humphry era um escritor pobre a trabalhar no seu primeiro livro, The Dominant Man, e o salário de enfermeira de Suze não era suficiente para cobrir o estilo de vida que eles imaginavam, nem mesmo renda. Um anúncio no International Times a pedir modelos de topless – que pagava 100 libras por dia, 10 vezes o salário semanal de 10 libras de Suze – levou-a a uma breve tentativa de posar nua. A sala que Humphry e Suze alugavam, perto de Hyde Park, era do fotógrafo da Magnum David Hurn, que disse a Suze “Pelo amor de Deus, veste qualquer coisa”, antes de lhe dar um trabalho no semanário feminino Petticoat Magazine, onde ela começou como modelo de moda.

“Dizem que tens que fazer o que os homens mandam na pornografia, mas a indústria da moda é muito pior”, diz Suze sobre a dinâmica de poder desse mundo. “Ficas muito vulnerável. Tens que engatar os directores de arte, entre outras coisas, para conseguires trabalho. Viajas para Paris e Milão, mas isso não leva a nenhum sítio. Nunca gostei de trabalhar para os outros, implorar por um trabalho ou fazer um broche por um trabalho”. Não mesmo?. “Na indústria da moda? Em França e em qualquer lugar. Os homens têm essa coisa de que só querem é levantar. Todos eles precisam de ajuda, mas... Era ridículo”.

Clippings via Suze Randall Estate.

Aos 28 anos, depois de ser fotografada para a Vogue, Suze sentiu um "bichinho" a crescer e foi falar com o gerente do banco para o convencer a emprestar-lhe dinheiro para comprar uma câmara. Nos bastidores das sessões de fotos de moda, fotografava as suas amigas modelos nuas e, desde logo, começou a vender as fotos à Página 3 do The Sun – no que foi um momento de epifania. “Fotografei a Jerry Hall e vendi ao The Sun”, diz entre risos. E salienta: “Ela não ficou muito feliz quando viu aquilo”.

Desde o início que Suze sentiu que aquilo era o seu chamamento. Naquela altura, havia poucos fotógrafos de nu no Reino Unido – “não era bem-visto”, muito menos fotógrafas e, talvez por isso, os tablóides a tenham apelidado de “rebel camera-girl Suze”.

“É sempre bom quando as coisas não são aprovadas”, diz. E acrescenta: “Eu podia ser toda poderosa. Os homens odiavam-me, porque eu tinha vantagem [de já ter estado em frente às câmaras]”. E, enquanto os fotógrafos homens escolhiam focar-se na parte técnica das fotos, ela focava-se nas próprias mulheres, muitas delas a modelar pela primeira vez. “Os homens preocupam-se demasiado com estrutura, os editores com o negócio e esquecem-se das modelos – mas, o quão bom és, depende do quanto a tua modelo se sinta bem”, aponta Suze. “Faz com que elas relaxem, fá-las ver a rapariga atrás da câmara que não sabe muito bem o que está a fazer ou a ser uma idiota e elas começam-se a rir e não levam a coisa tão a sério”.


Vê: "Hefner morreu. Mas o debate sobre o seu legado está para durar"


E era aí que estava o ouro.

Esse jeito para mostrar o melhor das suas modelos levou Suze ao dinheiro (em vez da fama) que mencionei anteriormente. Quando Hugh Hefner “se apaixonou” pelas fotos que Suze – na altura com 29 anos – tirou à modelo norueguesa Lillian Müller, levou as duas de avião para o principal escritório da Playboy em Chicago. “Se eu fosse um homem, ele nunca me teria levado lá com a Lillian; não ia querer ter nada a ver comigo”, garante – mas, uma nova modelo nua, fotografada por outra mulher? Hef ficou curioso.

Lillian tinha que estar na capa, mas ficou claro que o trabalho não seria de Suze. O pessoal do escritório da Playboy em Chicago disse-lhe que fotografar mulheres nuas era difícil, uma coisa séria – queriam dizer: deixa lá isso para os homens. “Então disse-lhes 'Ah, caraças, então vou ter de vender as fotos à Penthouse, porque preciso do dinheiro'. Tiveram que comprar-me as fotos”, ri-se.

Holly – filha de Suze e a sua maior fã, que seguiu o caminho da mãe na fotografia para adultos – conta: “A minha mãe é muito charmosa e muito boa a conseguir as coisas como ela quer. Era muito boa a usar um flirt para entrar numa situação e depois forçar as coisas a serem feitas à maneira dela. Usava os dois lados da sua personalidade: era uma mulher feminina, charmosa e sexy, mas outras vezes – quando lhe convinha – mostrava que tinha colhões. Era uma mistura intoxicante que acho que assustava muito as pessoas”. Suze ri-se desta observação. “Como mulher, tens esse poder quando tens a coragem de confrontar os rapazes”.

Na Mansão da Playboy, Suze fotografou Lillian para a capa da revista, o que foi o primeiro nu frontal da Playboy a ser fotografado por uma mulher. Quando ficou confirmado que Suze teria um contrato exclusivo com a Playboy, Humphry foi para os EUA e o casal arranjou um apartamento em Los Angeles. “Hefner era muito gentil – ajudou-me a conseguir o green card”, recorda Suze. E salienta: “Era um homem generoso, porque tudo que queria era sexo”.

Humphry e Suze em frente ao letreiro de Hollywood, cortesia Suze Randall Estate.

A Playboy era praticamente um "Clube do Bolinha" – mas a editora de fotografia da Costa Oeste da revista, Marilyn Grabowski, era uma peça central e recebeu Suze sob sua alçada. “Ensinou-me muito sobre styling e era muito crítica, por isso aprendi muito com ela”, assegura Suze. E adianta: “Acho que ela o fez para irritar os fotógrafos homens” – fotógrafos que já estavam irritados pelo que viam, com razão ou não, como o tratamento especial que Suze recebeu logo no início. Ela lembra-se que, no dia de uma das suas primeiras sessões, um assistente rancoroso disse-lhe “coloca o teu maldito rolo sozinha”. Apesar do desrespeito, ela recorda que dois assistentes a ajudaram com carinho. “Sabes, os homens são bastante úteis. Eles não devem ser rebaixados, devem ser usados”, explica.

Foi na Playboy que os anos de farra de Suze realmente começaram: os pontos altos nauseantes e brilhantes do hedonismo que ela e Humphry sempre quiseram. Em meados dos anos 1970, encontravas o casal na Mansão da Playboy três ou quatro noites por semana, Suze a tomar microdoses de ácido (apesar deles, na época, não apelidarem a coisa de “microdoses”) para poder continuar alerta enquanto bebia. Era raro alguém da equipa da revista ter o privilégio de participar na diversão – e levar o marido era absolutamente proibido. “Só podias frequentar a mansão se fosses mulher – e não podias levar namorados”, diz Suze. E justifica: “Mas, eles sabiam que eu não ia sem o Humphry, por isso tinha tratamento especial. Se és mulher e não te assustas, podes ter uma grande vantagem sobre esses tipos”.

Suze fala sobre as festas como se estivesse a recordar passeios de domingo com o cão, sobre as drogas e o champanhe, como cortar as unhas dos pés depois do banho. Casualmente, ela menciona a sua técnica quando se tratava de começar os trabalhos na mansão: “As pessoas nos EUA não aprendem a apresentarem-se – ficam só por ali. Todos esses famosos... é difícil começar a festa. Eu costumava dançar, a fazer o flash e a deixar toda a gente horrorizada”. Flash? Pergunto. O seu marido interrompe: “Dançar sem calças”. “Não, eu nunca usava cuecas”, diz Suze, como se usar roupa íntima a ofendesse. Até Holly ouviu as histórias: “Quando conheci Hef, ele disse-me que eles chamavam-na de 'The Flasher', porque ela ia para a mansão sem cuecas. Era a cena dela e eles faziam-na dar espectáculo todas as noites”.

Suze e a sua autobiografia, cortesia Suze Randall Estate.

Suze não sabia na altura, mas essa relação não ia durar. Segundo Suze, Hefner sentiu-se traído pelos detalhes sórdidos da biografia dela de 1977 e tentou fazê-la mudar algumas coisas – mas, o romper da relação entre ambos só aconteceu mesmo depois dela publicar o livro.

A história é que Larry Flynt – o infame pornógrafo e fundador da revista Hustler – estava a chantagear Hefner com fotos dele com uma rapariga que não era Barbi Benton, a sua namorada na altura. “Hef achava sempre que podia resolver tudo”, diz Suze, explicando o plano do fundador da Playboy dessa vez: “'Vou falar com ele na festa de domingo', pensou. 'Vai correr tudo bem'”.

Suze conheceu Larry nessa festa e deram-se incrivelmente bem. “Ele disse – sem perceber que ninguém que lê a Hustler lê livros – 'Ah, Suze, porque é que não pousas para a Hustler e promoves esse teu livro?'”. Então, Suze pousou para a Hustler, como já tinha feito para a Playboy, mas de maneira muito mais provocante, a fazer pink-shots: fotos a expor a vagina. “Larry é muito engraçado, ele escreveu na capa: 'Fotógrafa da Playboy mostra a pink'. Ah, isso foi demasiado para Hefner”, lembra Suze. E adianta: “'Não somos pornógrafos!', disse-me ele e expulsou-me da mansão. Nunca mais voltei”.

Apropriadamente, Suze Randall também é uma hustler. Ela “enganou” Larry para que este assinasse um contrato de três anos com ela, que substituiu o que tinha com a Playboy e passou anos na revista, sendo a única pessoa que enfrentava o notório editor. “E, como faço sempre, acabei por discutir com Larry; não me lembro porquê”, diz.

Mudar para um estilo de vida freelance combinou bem com a sua disposição e também a sustentou de uma maneira excelente pelo resto da carreira, de uma forma que nem ela nem ninguém da indústria podia prever. Ser freelance significava que ela tinha os direitos sobre todas as suas fotografias, ao contrário dos fotógrafos com contratos bem pagos. “Na época não sabia que tinha os direitos; só comecei a trabalhar por conta própria, porque não gosto de ser comandada”, diz. E sublinha: “Quando a internet surgiu, eu tinha mais fotos do que qualquer outra pessoa – tive sorte, dei-me muito bem na Internet”.

Suze numa sessão, cortesia Suze Randall Estate.

E a internet não teve piedade das revistas. O dono da Penthouse faliu e deu a Suze os direitos de muitas das suas imagens, assim como a High Society. Ela e Humphry planearam um arquivo online com 80 mil imagens da sua obra, o suze.net. Um sucesso explosivo – milhares de assinantes pagavam 24,95 dólares por mês – no auge do site, a dupla fazia 400 mil dólares por mês.

Suze era inteligente, mas a sua empatia elevou-a acima dos homens na sua área. Não só pela forma como ajudava as modelos a relaxarem, mas no sentido em que durante toda a sua carreira, ajudou mulheres em vários tipos de dificuldades. Ginger Lynn, uma das atrizes porno mais famosas de todos os tempos, diz que foi Suze quem a ajudou a superar o seu vício em drogas e a fotógrafa, literalmente, ressuscitou Briana Banks durante uma sessão. “Pode ser útil ter sido enfermeira”, disse ela uma vez no podcast da filha Holly. Claramente, sentia que ocupava o papel de uma mãe de substituição – ainda que temporária –, com as jovens mulheres que passavam pelas lentes da sua câmara.

Hoje, já não trabalha. Tem uma vida confortável e sossegada com Humphry nas montanhas atrás de Malibu. “Por sorte, consegui esta quinta de 30 acres, por isso ando a cavalo todos os dias. Estou a aprender, a treinar, a tentar tornar-me numa dama”. Com isto ela quer dizer que se quer tornar numa dama do dressage, um tipo de competição de montar, já que os seus filhos não a deixam fazer salto, desde que levou um coice de um cavalo e perdeu um olho. O que significa que já não pode tirar fotografias. Em vez disso, deixa fotógrafos entrarem no seu rancho e fotografarem. “Mando nesses homens e fico a vê-los em stress e a suarem e depois fico-lhes com o dinheiro. É maravilhoso”.

Suze Randall começa muitas das suas histórias com “por sorte”. Mas, para mim, nenhuma das suas conquistas me parece uma questão de sorte. Uma pitada de destino, talvez, mas mais do que qualquer coisa: coragem – coragem e ousadia de viver a vida que ela queria.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.