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Tecnologia

Hackers criaram uma arma que pode ser disparada com a sobrancelha

Esta tecnologia assistiva é feita com peças avulsas e pretende ajudar pessoas com incapacidades a praticarem tiro.

Por Daniel Oberhaus; Traduzido por Madalena Maltez
18 Julho 2018, 1:22pm

Foto: ATMakers.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Ao longo dos últimos quatro anos, um pequeno grupo de hackers especializados em tecnologia assistiva desenvolveu uma arma controlada remotamente, que pode ser disparada utilizando apenas os músculos da testa do atirador. Na semana passada, Michael Phillips, 37 anos, morador na Flórida, testou o assistente de tiro num clube de tiro local e tornou-se, provavelmente, na primeira pessoa do Mundo a disparar uma arma com a sobrancelha.

Phillips tem Amiotrofia Muscular Espinal (AME), uma doença genética que causa a perda de movimento muscular voluntário. Quando nasceu, os médicos deram-lhe menos de um ano de vida mas, praticamente quatro décadas mais tarde, ele continua a riscar itens da lista de “coisas a fazer” na vida. Apesar de se descrever a si próprio como “ultraliberal, anti-NRA e contra tudo o que esteja relacionado com Trump”, Phillips tinha na sua lista de desejos visitar um clube de tiro para “disparar uma arma com um interruptor”.

“As armas são como parte da ficção e, enquanto objectos, sempre me fascinaram”, afirma Phillips. E acrescenta: “O que quero dizer é que, por exemplo, quando um tipo saca da pistola antes de a descarregar na cabeça de um zombie, aquele som de clique-clique é muito forte. Acho que é possível admirar uma pistola enquanto objecto, como algo utilizado para diversão e, ainda assim, ser completamente contra os modos com que as pessoas usam as armas para perpetuarem actos vis de crueldade”.

Dizer que os shooting ranges são populares nos EUA é quase uma tautologia. O tiro ao alvo é uma indústria de milhares de milhões de dólares e a NPR vai ainda mais longe, afirmando que as carreiras de tiro são as “novas pistas de bowling. A maioria das carreiras e clubes de tiro oferecem uma vasta selecção de armas de fogo aos seus clientes, mas nenhuma delas é adequada para pessoas como Phillips, cujo movimento muscular voluntário está restrito à sobrancelha.

Interface computacional construído para Phillips. Uma visão em tempo real da arma está no centro e um botão para armar e disparar, nas áreas inferiores esquerda e direita. Imagem: YouTube.

A ideia do assistente de tiro para Phillips surgiu em 2014, a partir de um encontro com Bill Binko, fundador do ATMakers, uma organização que combina espírito hacker com tecnologias assistivas. Desenvolver um assistente de tiro demorou quatro anos e exigiu a transposição de diversos obstáculos, tanto técnicos, como em termos de regulamentação. Depois de aprovarem o projecto com o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, Binko teve de desenvolver um interface computacional que permitisse a Phillips apontar e disparar, assim como um interface robótico e um suporte para a arma.

“O maior desafio técnico foi, na realidade, permitir que ele segurasse a arma com segurança”, explica Binko. De forma a ultrapassar esse desafio, Binko utilizou uma instalação para tiros desenvolvida por uma empresa chamada Ransom, que é principalmente utilizada por investigadores forenses para recriar cenas de crime. Como o sensor na testa de Phillips já lhe permitia navegar pela Internet através de movimentos da sobrancelha, Bink desenvolveu um interface web que lhe permitiria activar o interruptor robótico que dispararia a arma.

O assistente de tiro resultante é uma composição entre o sensor na sobrancelha de Phillips, um mini-controlador raspberry Pi, um motor dedicado pequeno, um apoio para a arma personalizado e algumas dezenas de linhas de código Python.

A plataforma para assistente de tiro finalizada, com uma Glock 17 instalada. Imagem: YouTube.

A 23 de Junho último, Phillips e Bink levaram o assistente que tinham desenvolvido a um clube de tiro na Flórida e utilizaram-no para disparar contra alguns alvos com uma Glock 17. O primeiro disparo saiu um pouco para fora e acertou no ombro do contorno do alvo, mas a tecnologia funcionou. A respeito da experiência em si, Phillips descreveu-a como “verdadeiramente incrível”.

Numa época em que as armas de fogo aprimoradas com tecnologia ainda são um assunto extremamente controverso, o assistente de tiro de Phillips parece uma visão do futuro. Os fabricantes de armas resistem muito ao desenvolvimento de “armas inteligentes” e a natureza controversa do projecto não diminuiu com Phillips.

“A vida não é preto no branco, é cinzenta”, afirma Phillips. E conclui: “As armas estão nesse cinzento. Tudo depende do modo como uma arma é utilizada”.


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