Tecnologia

Hackers criaram uma arma que pode ser disparada com a sobrancelha

Essa tecnologia assistiva é feita de peças avulsas e ajuda a levar um hobby bastante popular aos incapacitados.
Foto: ATMakers.

Ao longo dos últimos quatro anos, um pequeno grupo de hackers de tecnologia assistiva desenvolve uma arma controlada remotamente, que pode ser disparada utilizando unicamente os músculos da testa do atirador. Na semana passada, Michael Phillips, 37 anos, morador da Flórida, testou o assistente de tiro em um clube de tiro local e se tornou, provavelmente, a primeira pessoa do mundo a disparar uma arma com a sobrancelha.

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Phillips tem amiotrofia muscular espinhal (AME), uma doença genética que causa a perda de movimento muscular voluntário. Quando nasceu, os médicos deram a Phillips menos de um ano de vida, mas praticamente quatro décadas mais tarde, ele segue riscando itens da lista de “coisas pra fazer” na vida. Apesar de descrever a si mesmo como “ultraliberal, anti-NRA e contra as as coisas relacionadas ao Trump”, Phillips tinha uma visita a um clube de tiro para “disparar uma arma com um interruptor” em sua lista de pendências.

“As armas são como parte da ficção, e como objetos, sempre me fascinaram”, Phillips afirmou. “Quero dizer, quando um cara saca a pistola antes de descarregá-la na cabeça de um zumbi, aquele som de clique-clique é muito massa. Acho que é possível admirar uma pistola como um objeto, como algo utilizado para diversão, e ainda ser completamente contra os modos com os quais as pessoas usam as armas para perpetuar atos vis de crueldade.”

Dizer que shooting ranges são populares nos EUA é quase uma tautologia. O tiro ao alvo é uma indústria de bilhões de dólares, e a NPR vai ainda mais longe, afirmando que os estandes de tiro são as “novas pistas de boliche”. A maioria dos estandes e clubes oferece uma vasta seleção de armas de fogo para seus clientes, mas nenhuma delas é adequada para pessoas como Phillips, cujo movimento muscular voluntário está restrito à sua sobrancelha.

A ideia do assistente de tiro para Phillips surgiu em 2014, a partir de um encontro com Bill Binko, fundador do ATMakers, uma organização que combina espírito hacker com tecnologias assistivas.

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Desenvolver um assistente de tiro levou quatro anos e exigiu a transposição de diversos obstáculos regulatórios e técnicos. Depois de clearing o projeto com o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, Binko teve de desenvolver uma interface computacional que permitisse a Phillips mirar e disparar, bem como uma interface robótica e um suporte para a arma.

“O maior desafio técnico foi, na realidade, permitir que ele segurasse a arma com segurança”, Binko afirmou.

A fim de realizar esse desafio, Binko utilizou uma instalação para tiros desenvolvido por uma empresa chamada Ransom, que é principalmente utilizada por investigadores forenses a fim de recriar cenas criminais. Como o sensor na testa de Phillips já o permitia navegar pela internet por meio de movimentos da sobrancelha, Bink desenvolveu uma interface web que o permitiria ativar o interruptor robótico que dispararia a arma. O assistente de tiro resultante é uma composição do sensor na sobrancelha de Phillips, um minicontrolador raspberry Pi, um servo motor pequeno, um apoio para arma personalizado e algumas dezenas de linhas de código Python.

A plataforma para assistente de tiro finalizada com uma Glock 17 instalada. Imagem: YouTube.

Em 23 de junho, Phillips e Bink levaram o assistente de tiro para um clube de tiro na Flórida e o utilizaram para disparar em alguns alvos com uma Glock 17. O primeiro disparo saiu um pouco para fora e acertou o ombro do contorno do alvo, mas a tecnologia funcionou. A respeito da experiência por si, Phillips a descreveu como “realmente foda pra caralho”.

Em uma época em que as armas de fogo aprimoradas com tecnologia ainda são um assunto extremamente controverso, o assistente de tiro de Phillips parece uma visão do futuro. Os fabricantes de armas resistem muito ao desenvolvimento de “armas inteligentes” e a natureza controversa do projeto não diminuiu com Phillips.

“A vida não é preto e branco, ela é cinza”, Phillips afirma. “As armas estão envoltas nesse cinza. Tudo diz respeito ao modo como uma arma é utilizada.”

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