Portugueses são detidos nas manifestações de Paris e denunciam "condições desumanas"

Rebeca e Vicente estiveram cerca de 24 horas detidos, juntamente com outros 300 manifestantes.

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08 dezembro 2015, 8:03am

"As celas estavam imundas, cheiravam horrivelmente mal. Havia urina no chão, particularmente na cela das raparigas, onde estava uma poça enorme, e as paredes tinham coisas escritas com fezes humanas. Só havia um banco de pedra para nos sentarmos. Deixaram-nos lá bastante tempo a chorar e a gritar para, pelo menos, nos colocarem noutro sítio, mas a única resposta que tivemos foi a de um dos polícias que passou e respondeu: "pour les femmes c'est tout ce qu'il y a" (para as mulheres é só isto que há)". É desta forma que Rebeca Amorim relata à VICE as horas "intermináveis" que passou no Comissariado de Bobigny, em Paris, depois de com o namorado, Vicente Booth, e mais cerca de 300 pessoas, ter sido detida quando participava na manifestação que no dia 29 de Novembro substituiu a Marcha Mundial pelo Clima na capital francesa, que deveria ter decorrido à margem da COP21, mas acabou proibida na sequência da declaração do Estado de Emergência no País depois dos atentados de 13 de Novembro.

Fotografia de Rebeca Amorim. Paris, 2015.

Rebeca Amorim, 19 anos, é natural de Lisboa e está desde Setembro em Paris a estudar Antroplogia e Filosofia ao abrigo do Programa Erasmus. Vicente Booth, também lisboeta, tem 20 anos, estuda guitarra jazz no Hot Club e estava a visitar a namorada. No domingo, último dia antes de Vicente regressar a Portugal, o casal decidiu juntar-se à demonstração pacífica na Place de La Republique. "Já há um mês que via cartazes sobre a Marcha no metro e na rua e ia seguindo as páginas no facebook sobre os eventos que iam organizar-se. Na minha faculdade (Paris Diderot 7) houve debates, filmes e refeições colectivas e gratuitas, organizadas pelos alunos, nas semanas antes da COP 21. Pareceu-me excelente estar pela primeira vez numa cidade que se mexe para fazer coisas, que debate e se organiza em torno de questões tão importantes como o ambiente, o clima e a natureza", explica à VICE a estudante portuguesa.

Fotografia de Rebeca Amorim. Paris, 2015.

Chegaram à Praça por volta das 14h00 e imediatamente perceberam que, pelo aparato policial, "que bloqueava todas as ruas principais com carrinhas e homens", tanto as entradas como as saídas do local não estavam a ser facilitadas. Confessam, no entanto, que não assumiram isso como um possível problema: "No centro da Praça havia duas carrinhas a distribuir refeições vegetarianas a toda a gente. Encontrámos uma amiga minha italiana, também em Erasmus, num grupo sentado no chão a ouvir algumas pessoas a discursar com microfones, sobre o clima, a COP21, a natureza, novas medidas ecológicas... não havia na verdade nenhuma manifestação, mas vários grupos de pessoas a fazer coisas diferentes, com música, dança, debates, comida, e até um grupo de palhaços que estavam a fazer animações".

"A maior parte das pessoas juntou-se no centro como a tentar tapar os olhos e o nariz por causa do gás."

Foi quando, passado uns minutos, se deslocaram para um dos cantos da Praça - "fomos ver a instalação com os sapatos, representava a Marcha que deveria ter acontecido" - foi aí que ouviram os primeiros petardos e viram o fumo das granadas de gás lacrimogéneo, e começaram a aperceber-se de que alguma coisa estaria prestes a acontecer. Rebeca descreve: "A maior parte das pessoas juntou-se no centro como a tentar tapar os olhos e o nariz por causa do gás. Nós acabámos por aproximar-nos também, porque eu queria tirar fotografias, e começámos a ver pessoas a atirar garrafas e lixo para os cordões da polícia. Alguns agarravam em velas que estavam no memorial às vítimas dos atentados e atiravam-nas espalhando vidros por todo o lado. A maior parte deles estava vestido de preto e com máscaras, e a polícia começou a responder de forma mais agressiva. Nesta fase já toda a gente estava com os olhos a arder e com dificuldade em respirar, e sentimos claramente a violência a escalar cada vez mais entre a polícia e os manifestantes. O problema é que, por um lado estavam os manifestantes pacíficos, que se sentavam de mãos dadas e com flores à frente da polícia a dizer frases como "sans haine, sans armes, sans violence" (sem raiva, sem armas, sem violência), e por outro lado, o grupo que continuava a atirar coisas e a provocar, ignorando os apelos de toda a gente para parar com a violência".

Fotografia de Rebeca Amorim. Paris, 2015.

Do que o casal português não teve percepção imediata, foi do "cerco" que, entretanto, as autoridades começaram a fazer a todos os que se encontravam naquele espaço. "A polícia ficou bastante tempo parada a olhar para nós, sem fazer nada, até que de repente começaram a apertar cada vez mais o círculo, sem nos dar hipótese de irmos embora. Quando nos apercebemos, estávamos completamente cercados num canto da Praça (encostados a uma esquina de um edifício) e já era tarde demais. Não nos deixaram sair. Estivemos nesta situação mais ou menos entre as 15h00 e as 17h00 e ninguém podia fazer nada, inclusive jornalistas e idosos. Éramos à volta de 500 pessoas cercadas", assegura Vicente.

"Estivemos nesta situação mais ou menos entre as 15h00 e as 17h00 e ninguém podia fazer nada, inclusive jornalistas e idosos."

Com as escaramuças a continuarem e as forças policiais a começarem a fazer detenções apesar do cordão humano que se formou espontaneamente para as evitar, os dois portugueses fazem uma nova tentativa para abandonarem o local e evitarem a violência que, entretanto, começa de novo a subir de tom. "Achámos que seria melhor ir para o fim do cordão, perto da barreira policial, na esperança de conseguirmos sair e também para não nos misturarmos com pessoas que estivessem ainda a manifestar-se, ou a reagir de forma violenta", recordam. Movimento que, no entanto, se viria a revelar "fatal". "Do nada sentimos três polícias a agarrarem-nos e a levarem-nos dali para fora. Não os vimos chegar, estávamos completamente distraídos. Num primeiro momento entrámos em pânico, pensámos que iam separar-nos, gritámos e resistimos, o Vicente não queria deixar-me, mas depois um dos polícias assegurou-nos que íamos ficar juntos e parámos de resistir. Revistaram-nos, tiraram-nos as malas e fizeram-nos entrar numa carrinha onde já estavam 11 pessoas", descreve Rebeca que, garante, "não conseguia de chorar.

Fotografia de Rebeca Amorim. Paris, 2015.

Apesar do medo e da surpresa, ambos garantem que acabaram por se acalmar quando uma das pessoas que estava também dentro da carrinha lhes garantiu que seria uma situação "mais ou menos normal, que toda a gente seria detida, mas libertada logo de seguida". Algo que, no entanto, acabaria por se revelar bastante longe da verdade, como confirma à VICE Rebeca Amorim: "Fomos levados para o Comissariat de Bobigny, onde fomos novamente revistados e alvo de troça por toda a equipa de polícias que nos esperava à entrada. Tivemos que implorar para nos deixarem ir à casa de banho e para avisarmos as nossas famílias do que estava a acontecer. Acabámos por conseguir ligar, ainda com a ideia de que daí a pouco estaríamos dali para fora, mas pouco depois, as coisas começaram a complicar-se.

Levaram-nos um a um para dentro. Perguntei se podia ir com o Vicente, porque ele não fala francês, e disseram-me que não, mas que já nos íamos encontrar todos lá dentro. Eu fui primeiro. Entrámos cada um numa sala e fomos informados das nossas acusações. 'Manifestação ilegal e não cumprimento das ordens de evacuação da polícia'". O casal assegura que não foram dadas quaisquer ordens de evacuação e a estudante da Faculdade de Ciências sociais e Humanas de Lisboa prossegue o relato: "Informaram-nos também dos nosso direitos, se bem que mesmo tendo dito que queria um advogado e tendo dado um nome, disseram-me que não iam procurar o número por mim e que tinha que assinar um documento em que declarava que não queria advogado". Vicente corrobora e acrescenta: "Perguntei qual era a solução mais rápida, ao que eles responderam imediatamente que seria sem advogado. Aceitei. Estava completamente perdido, ninguém na esquadra falava um mínimo de inglês e não se esforçaram para me ajudar a compreender o que se passava".

Fotografia de Rebeca Amorim. Paris, 2015.

Apesar da desconfiança, a esta altura continuam a receber garantias de que "seriam só umas horas" até que, por fim, acabam por ser informados de que as supostas "poucas horas" durariam até, pelo menos, à manhã seguinte, segunda-feira 30 de Novembro, e nem o facto de Vicente ter voo de regresso a Lisboa marcado para as 10h00 e os constantes apelos a que os libertassem surtiram qualquer efeito: "Acabaram por nos tirar pulseiras, brincos, cordões dos sapatos, soutien, elásticos do cabelo, óculos e fomos uma vez mais revistados de cima a baixo, das meias às cuecas, literalmente. Aí apercebi-me de que íamos passar a noite separados, porque as celas não eram mistas, e comecei a chorar, em pânico. Não me deixaram sequer falar com o Vicente e explicar-lhe o que ia acontecer. O ambiente era horrível, sentimo-nos miseráveis".

"O Estado de Emergência em Paris por causa dos atentados não pode ser uma desculpa para se cometerem atrocidades com legitimidade."

"Fomos cada um para a sua cela. O Vicente ficou com um rapaz que tinha vindo connosco na carrinha e um homem que supostamente era acusado de tentativa de homicídio. Depois juntaram-se outros três que tinham vindo também da manifestação. Eu fiquei com mais duas raparigas que tinham vindo connosco", detalha Rebeca, por entre pormenores de degradação e condições deploráveis que experienciou nestas 24 horas e que considera "autênticas violações dos direitos humanos". "O Estado de Emergência em Paris por causa dos atentados não pode ser uma desculpa para se cometerem atrocidades com legitimidade – não pode ser uma ditadura, e é a isso que começa a assemelhar-se. Há muitas coisas a denunciar: a violência dos polícias, as detenções ilegítimas, as condições desumanas, a negação dos nossos direitos. Por isso não vamos calar-nos enquanto toda a gente não souber o que se passou", garante.

Fotografia de Rebeca Amorim. Paris, 2015.

Rebeca e Vicente acabariam por ser libertados por volta das 17h30, do dia 30, depois de identificados - "Fomos um a um fazer as fotografias e tirar as impressões digitais, e a alguns exigiram o ADN" - e de prestarem declarações, ainda que sempre sem advogado, ou sem sequer terem a hipótese de contactar com o Consulado Português em Paris, como exigiram a determinada altura. "Disseram que não podiam fazer nada. Que não era nada com eles. Nem os pedidos desesperados de uma rapariga que gritava por um médico foram atendidos", recorda.

"Os meus pais e o meu irmão [...] enviaram vários e-mails ao Consulado e nada".

Em Portugal, as famílias dos jovens garantem à VICE que, a partir do momento em que souberam das detenções tentaram obter ajuda por parte do Consulado Português, mas que todos os pedidos acabaram por revelar-se infrutíferos. "Ainda no domingo à noite disseram à minha mãe que não era problema deles e que não havia nada a fazer. Na segunda-feira de manhã disseram que iam tentar ligar para o Comissariat de Bobigny e que lhe ligariam de volta, mas nunca mais disseram nada", explica Rebeca. Vicente reforça: "Os meus pais e o meu irmão também enviaram vários e-mails ao Consulado e nada".

Também a VICE tentou obter junto do Consulado Português em Paris informações sobre a situação vivida pelos dois jovens portugueses na capital francesa, mas sem sucesso. Agora, Rebeca e Vicente garantem que não vão deixar que o que lhes aconteceu caia no esquecimento e vão integrar uma queixa colectiva que, dizem, está a ser preparada por muitas das pessoas detidas e vários advogados.

"Não podemos ignorar. Não podemos ficar calados. Paris para mim não é mais um sonho", conclui Rebeca Amorim.

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