Sexo

Falámos com um proxeneta ucraniano que vende sexo a multimilionários no Dubai

Queres disparar uma AK47 de um Lamborghini? Fazer uma orgia no deserto? Este é o homem que pode tornar isso possível.

Por Mahmood Fazal; Traduzido por Sérgio Felizardo
27 Junho 2019, 10:09am

Ilustração por Benjamin Thomson.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

O Dubai é a Las Vegas do Médio Oriente, se Las Vegas usasse burca. É a cidade das festas dos Emirados Árabes, onde os crentes podem ter um gostinho dos seus desejos mais carnais entre clubes nocturnos, ilhas artificiais, os arranha-céus mais altos e estranhos do Mundo e hotéis de sete estrelas. Em algum ponto desta justaposição está o verdadeiro conflito do espírito árabe: uma política que se deveria sob a bandeira do Umma e que, ainda assim, se encontra em infinitas contradições, guerra civil e violência sectária.

E sexo.

Há alguns anos percebi quantos trabalhadores sexuais operavam a partir de apenas um hotel local, encobertos por frases obscuras e proposições disfarçadas. “Não podes pedir para ter sexo aqui, pá”, recordo-me de ouvir um soldado norte-americano dizer. “É uma cena old school, tens de ir para casa delas e negociar os preços discretamente”.


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Queria mergulhar mais a fundo nas entranhas da indústria, portanto depois de vários telefonemas e uma conversa por Skype, um proxeneta ucraniano residente no Dubai concordou em falar comigo sobre a sua lucrativa profissão. Alex* é um homem pálido e apresenta-se vestido com um fato preto, polo Burberry e Rolex no pulso. Abaixo podes ler o que me contou sobre como é comandar trabalhadores sexuais num país onde a prostituição é ilegal e nunca pode ser mencionada.

VICE: És ucraniano. Como é que acabaste na indústria do sexo no Dubai?
Alex: Estava a trabalhar como consultor para uma empresa de engenharia em Jidá. Ao subir a escada corporativa, o meu trabalho tornou-se mais dedicado a passar tempo com os clientes quando eles viajavam para a Arábia Saudita e levá-los para fins-de-semana no Dubai. Estabeleci óptimos contactos e acabei por me mudar para o Dubai, onde fui subcontratado por várias empresas e bancos para proporcionar diversão aos seus clientes.

Tipo um organizador de festas profissional?
Sim, o meu trabalho é mais que simplesmente proxenetismo e prostituição. Atendo todas as necessidades dos meus clientes. Temos contacto com grandes hotéis e clubes nocturnos. Sempre que recebem convidados importantes que querem dar uma festa, ou fornecer algo especial aos seus hóspedes, ligam-me. Toda a gente ganha uma parte e construímos a nossa reputação com base na protecção da identidade dos nossos clientes. Já organizámos festas para celebridades, políticos e mafiosos. Toda a gente é diferente, nem toda a gente quer ter sexo com loiras de mamas grandes, alguns rappers vêm cá e querem fumar haxixe num hotel submarino, empresários por vezes querem disparar uma AK47 de um camelo ou de um Lamborghini no deserto. Eu ajudo-os a desfrutar das coisas boas da vida e a relaxar quando estão no Dubai. É o paraíso dos bad boys e um sítio onde podem esquecer o mundo real durante algum tempo.

Qual foi a festa mais estranha que já organizaste?
Um empresário norte-americano que queria que 10 prostitutas de burca fossem ao seu encontro numa tenda no deserto. Colocámos um sistema de som, um jacuzzi externo e grandes camas na tenda sob o céu estrelado. Ele pediu explicitamente para que as mulheres não tirassem a parte do rosto das burcas quando se despissem. Esse tipo era muito estranho. Gostava de ver os seus funcionários a pinar com as mulheres. Não pediu álcool nem nada disso. Só SUVs cheios de mulheres de burca.


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E festas estranhas para os locais?
Houve um xeque do Iémen que queria que eu organizasse uma festa com 30 mulheres africanas e Viagra suficiente para matar um elefante, tudo no período de uma hora. Convidou-me para a orgia, mas eu disse-lhe “Não, por favor, aproveite”. Fiquei sentado no hall do hotel a beber conhaque até o sol nascer e a ver o serviço de quartos a ir constantemente ao quarto dele com toalhas lavadas. Quando acabaram, foi como se uma bomba tivesse explodido no hotel. Tive que contratar pessoal de limpeza especializado. Havia todo o tipo de manchas naquele quarto.

Então, suponho que ele não era um homem religioso.
A questão islâmica não interfere nessa parte. Somos todos animais. Temos desejos. Sou como um caçador. Junto todos os elementos. O pecado está sob os seus ombros. Talvez aos olhos deles eu trabalhe para o diabo. Mas, estas pessoas não são crianças e a religião tem o seu momento e o seu lugar no Dubai; nos bastidores, todos entendemos isso. Durante o dia, para o público, sê um homem religioso, mas se trabalhas arduamente, podes conceder-te um refresco à noite. Pecar é muito natural.

Não tens medo das autoridades ou da polícia religiosa?
Temos contactos e sabemos operar discretamente. Não podemos discutir essas coisas, porque é uma questão sensível. Procuramos as pessoas certas. Não estamos a prejudicar ninguém. Conheço tipos que receberam chibatadas porque foram descuidados. Tentamos manter o nosso negócio longe de locais e sauditas. Claro que temos como objectivo vender os nossos serviços a estrangeiros e grandes empresários, mas o dinheiro fala mais alto. Aqui, pelo preço certo, podes safar-te do que quer que seja, como em qualquer lugar do Mundo. Podes controlar qualquer pessoa com sexo ou dinheiro. O resto é conversa fiada.

Como é que te sentes ao tratares as mulheres desta forma? O tráfico humano é um grande problema ao redor do Planeta.
Podes perguntar a qualquer mulher aqui se ela está a ser obrigada a trabalhar para nós. De onde eu venho, estas mulheres ganham muito pouco – quando ganham alguma coisa. Elas vêm de lugares problemáticos, admito, mas estão a ganhar a sua parte. Algumas mulheres que conheço vieram das aldeias mais pobres do meu país e agora conduzem Ferraris e vivem em apartamentos de luxo. Pergunta-lhes se foram obrigadas a vir e elas vão-se rir na tua cara. A rapariga com quem eu pinava no liceu vive agora em Biarritz, em França, com um filantropo milionário. Claro que nem todas as prostitutas vivem assim, mas não estamos neste negócio para explorar pessoas.


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Quanto cobras?
Se queres ter sexo com as nossas mulheres, não é barato. Não dependemos de ninguém e a nossa reputação fala por si. Trabalhamos só por referência. O preço das raparigas começa nos mil dólares por hora. Os rapazes começam nos 500 dólares.

Rapazes?
Sim. Não para os árabes, principalmente para estrangeiros. E pode ser bastante estranho, já tivemos incidentes violentos e sempre com os rapazes acompanhantes. Muitas vezes, esses empresários estrangeiros ficam confusos em relação aos seus sentimentos. Dormem com os prostitutos depois batem-lhes por vergonha. São cobardes que não sabem lidar com a própria sexualidade. Acham-se durões, mas gostam de levar no rabo. Não entendo.

Como é que lidas com esses tipos?
Prefiro que sejam espancados da mesma forma. Mas, neste negócio às vezes tens que ser civilizado. Os rapazes precisam do dinheiro e não vão beneficiar de vingança violenta, portanto cobramos uma quantia extra a esses gajos como compensação.

Para além do dinheiro, porque é que estás neste negócio?
Gosto de satisfazer as pessoas. De certa maneira, sou como um prostituto. Conheço os desejos secretos dos meus clientes e adoro a parte de organizar as coisas de forma a torná-los realidade. Adoro receber as pessoas depois e ver a satisfação nas suas caras. Sou humano, gosto de impressionar as pessoas. Sempre gostei dos gangsters dos filmes americanos, toda a gente que vem de um lugar pobre adora a imagem do tipo mau. Adoramos ser rebeldes. Posso fazer este trabalho, ser pago e todos me agradecem. Dos dois lados. Não estou a distribuir quilos de drogas em bairros pobres. Podia estar a fazer isso e a ganhar muito mais.

Achas que o teu trabalho é importante?
Pessoas imaturas acham que só podes ser bom ou mau. O que é que torna um desejo bom? E outro mau? Quem decide? Mas, acredito em negociação. No casamento, negoceio um equilíbrio com a minha mulher: gosto de algumas coisas nela, outras não, mas fazemos com que funcione porque somos adultos e negociamos. A nossa moral é apenas uma negociação; desde que não haja desequilíbrio, somos saudáveis. Forneço serviços que algumas pessoas acham que são maus, mas que, na verdade, são naturais e têm de ser experimentados de vez em quando. No Dubai chamam às coisas más de haram, no Ocidente chamamos de liberdade. De qualquer maneira, essas coisas são necessárias e forneço um serviço de luxo para aqueles que têm liberdade no mundo árabe para atender a esses desejos. Bons ou maus.

*Alex concordou em falar connosco sob a condição de anonimato, portanto este não é o seu nome real.


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