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A Fúria Hipnotizante do Siete Catorce

Conheça o DJ e produtor mexicano que manda ver num som tribal viajadão e acabou de soltar "Syncopate", faixa que integra o projeto Upper Cuts do selo Enchufada.
25.10.13

Eram 3h da manhã de um sábado quando chegamos à Del Valle, o miolo da classe média da Cidade do México. Nos dirigimos a um bar vazio e meio cafona onde Siete Catorce iria fazer um set tardio. Ten Foot, um renomado DJ londrino, estava tocando para uma multidão de oito pessoas, e quando o produtor mexicano de eletrônica chegou ele foi direto para a cabine. Os dois se embananaram na troca e, depois de algum tempo, Siete assumiu seu posto em frente ao seu laptop. Estávamos lá para vê-lo fazer música ao vivo direto do seu computador, mixando e manipulando faixas originais com nada menos que um laptop e um mousepad.

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Era uma estranha noite úmida de verão. Haviam mesas espelhadas, luzes fluorescentes, pessoas fumando (o que é legalmente permitido aqui, mas só por acaso), e passagens furtivas para os banheiros para "retocar o nariz". Não seria estranho se este bar estivesse no meio do bairro de Koreatown em Los Angeles, e era o lugar perfeito para dançar a mistura de tribal, techno e "emo broken beats" de Siete Catorce.

Em poucos minutos do seu set, eu estava dançando. Uns tantos minutos mais e todos no bar estavam dançando.

A manhã se aproximava e ele continuava tocando. Magrelo e astuto, imerso no brilho da tela do seu computador, Siete pulava e requebrava durante seu set. Só depois que cada autoridade do local, do barman ao promotor, o disseram que ele tinha que parar, é que Siete resolveu parar de tocar. Os auto-falantes descansaram. As pessoas estavam ofegantes, andando em círculos. O jovem DJ se voltou pra menina mais próxima e perguntou, ainda balançando, "Foi bom? Você gostou?". Mas ele já sabia a resposta.

Foi MUITO bom. A menina ao lado dele sabia. Eu sabia. Até mesmo o barman bravo sabia.

Dá um pause na fita. Siete e Catorce acaba de ser convidado pelo selo português Enchufada a participar da série Upper Cuts, projeto que qinzenalmente reúne novidades de artistas da label e sons de novos nomes da dance music. Siete liberou hoje "Syncopate", música que mistura o techno jam mais lento com o tribal guarachero e o resultado é uma vibe bem futurista. Dá uma ouvida:

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Mas voltando para Cidade do México: desde que se mudou da sua Mexicali natal pra capital do país - graças ao lançamento do seu EP pelo selo NAAFI - Siete Catorce arrebatou a cidade, tocando sempre que pode, e frequentemente dando moshs (ou stage diving, como preferir) durante seus sets. Do bar sem nome em Del Valle, ao lugar do momento, Bahía, às pistas esfumaçadas da Cidade do México, ele vem maravilhando o público com sons que casam o júbilo tribal mexicano (à la 3BALL MTY) com uma inconfundível sensação de tristeza, raiva, e mau agouro.

Afinal de contas, já estava na hora de alguém fazer isso.

A vida no México andava difícil: o trânsito era horrível, a estação das chuvas foi devastadora, ninguém tinha dinheiro, as pessoas ganhavam muito mal. Dar de cara com violência dos cartéis ou do estado era basicamente normal. Alguns economistas acreditavam que o México estava entrando numa nova recessão, mesmo que os custos de alimentação e transportes continuassem a subir. Mas noite após noite, fim de semana após fim de semana, a festa continua. Na Cidade do México, Siete Catorce (ou "7:14") não nos deixa na mão.

"Minha música é muito mexicana, mas também muito viajona", Siete Catorce me disse. "Eu gosto da vibe daqui. Me lembra de quando eu morava em Oakland, mesmo com aquele clima. Gosto da vibe de uma cidade que está sempre ocupada."

Marco Polo Gutierrez nasceu em Mexicali, mas foi criado na maior parte do tempo em Oakland, na Califórnia. Ele se identifica muito com a área da baía de São Francisco em sua música, gostos, e postura cultural. Isso nos rendeu assunto. Eu frequentei a escola no Bay Area e passei verões visitando parentes no norte da Califórnia. Depois de uma sessão de conversa e YouTube descobrimos que ambos sabíamos cantar em cima de "93 'till Infinity".

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"Nasci em Mexicali, e quando tinha dois anos de idade, fui morar em Oakland", Siete me contou durante uma chuvasca. "Morei lá até os 14 ou 15. Vim pra cá porque deportaram minha mãe, e então toda a família voltou."

Mexicali é a vasta cidade irmã de Tijuana no deserto. O cantor e compositor Juan Cicerol é de lá, onde há uma significativa população chinesa-mexicana, mas fora isso não há muita coisa a seu favor. Deve ter sido um lugar de difiícil adaptação depois da liberdade e mobilidade da vida em Oakland.

"Bem, lá [em Oakland], você está no gueto. É massa porque existem culturas de toda parte. E você cresce exposto a tudo isso. Eu andava com os meus primos. Todos eles eram doidões e ouviam rap e hip hop. E foi nesse ambiente que eu cresci."

Seu som, ele explica, está profundamente enraizado nas festas quinceañeras que acontecem madrugada adentro que marcaram sua infância - as horas e horas de cúmbia. É uma experiência que praticamente toda criança mexicana teve, mas, neste caso, foi marcada pela expulsão dos pais dos Estados Unidos.

Em 2007 a mãe de Siete foi deportada. Ele me contou que ela teve que visitar um parente em Mexicali e usou o passaporte de uma irmã para voltar aos EUA, quando foi pega. Toda a sua família foi junto com ela para Mexicali. Isso aconteceu na mesma época em que o contrabando de drogas dos Baja eclodiu numa guerra interna - uma guerra ao tráfico que se espalhava sem controle pelo país. Por todo o norte do México, muitos jovens produtores e músicos naquela altura estavam literalmente se trancando em seus quartos por segurança. Eles arriscavam-se entre gêneros, de sad-core garage à hardcore club. No processo, eles desenvolveram personalidades que depois vieram a ser um Erick Ricon ou uma Dani Shivers da vida, nomes que atualmente definem a música no México.

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Siete Catorce começou tocando piano aos 5 anos. Quando se estabeleceu em Mexicali, ele baixou o Ableton Live e começou a arranhar batidas de house e electro. "Então eu comecei a fazer glitch, glitch hop, dubstep, coisas assim", contou Siete. "Mas isso já foi há tempos, quando ninguém ouvia Skrillex, nem nada."

Ele explica seu início como produtor em passos reconhecíveis: primeiro veio o tédio adolescente, depois o isolamento, seguido por uma introdução às raves, umas poucas lições de mixagem no computador, uma época de passeios por vários gêneros e cenas antes de achar seu som, por fim. Neste caso, foi graças a um remix de cúmbia que ele fez só por diversão.

"Você pode dizer que o que mudou tudo foi quando eu fiz o remix de uma faixa do Celso Piña, 'Cumbia del Poder'", contou Siete.

O remix de Celso ganhou uma batida de dub que a deixou mais modernosa. Um DJ no Canadá a encontrou, e então o site de música Generation Bass a postou, Siete se lembra. Então, em abril de 2011, ele foi convidado pra abrir uma festa de música experimental eletrônica em Tijuana.

Marco Polo, na época conhecido pela alcunha de Den5hion, nem estava no flyer do evento.

"Foi a primeira vez que só toquei faixas próprias." Mas no dia seguinte, ele contou, ele se transformava em Siete Catorce.

"Foi quando eu descobri o som tribal ou pré-hispânico, tribal guarachero, e gostei muito dele, também, mas ainda não tinha o entendido completamente até ouvir o ruidosón", contou Siete. "Meu estilo era puramente festa, cúmbia e dubstep, e quando fui nessa festa [em Tijuana] fiquei muito impressionado porque o que eles estavam fazendo era muito obscuro, mas era divertido".

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Com a cúmbia obscura e dançante do ruidosón, Los Macuanos, Maria y Jose, Santos, e outros artistas na cidade que faz fronteira mexicana com San Diego, estavam levantando uma cena e um som que tinha a capacidade tanto de rejeitar quando construir em cima do gênero eletrônico da fronteira, o nortec. O ruidosón era mais festivo e politizado. E isso fez sentido pra época. Os artistas estavam atacando diretamente o governo sangrento do ex-presidente Felipe Calderón, e também o Partido Revolucionário Institucional, depois que os ternos cinzentos do PIR retomoram a presidência em 2012. Eles faziam isso nos seus Tumblrs, nas suas letras, e nas festas.

Siete sem dúvida pertence ao grupo. Mas, ao mesmo tempo, ele talvez seja mais fortemente influenciado pelo DJ Javier Estrada, um expoente de Monterrey que já estava misturando batidas de cumbia com tribal pré-hispânico e um brostep mexicano esquisito, desbravando toda uma nova área da música que ninguém ainda havia considerado possível.

O jovem produtor, ainda um adolescente, começou a fazer o que ele chama de "tribal ondeado", ou "tribal viajandão", um tema recorrente em seus sons hoje em dia. Existem elementos de terror, fúria e niilismo nos seus híbridos de cúmbia, como se pode ouvir na faixa de destaque do EP de 2013, a inquietante e assustadora "Verdad".

Os formadores de opinião da Cidade do México ficaram alertas. Ele fez sua primeira aparição por lá em novembro de 2012, durante as séries ao vivo do Estado, organizadas pelo Mexican Jihad, na praça ao ar livre abaixo do monumento Estela de Luz, próxima ao parque Chapultepec. O festival de um mês de duração destacou quatro regiões produtoras de música eletrônica no México - Ciudad Juárez, Tijuana-Mexicali, Cidade do México e Monterrey -- que eram representadas aos sábados à noite por três artistas de cada vez. Representando o movimento ruidosón, Siete Catorce tocou ao lado do DJ Nombre Apellido (Moises Horta of Los Macuanos) e do Santos.

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A viagem marcou não só sua estreia na Cidade do México, como também sua primeira vez num avião. ("Foi suave", ele disse).

Naquela noite, por acaso, eu estava na fronteira de Tijuana/San Diego visitando familiares, perdendo um evento que eu sabia que seria marcante. A série Estado presenciou uma geração de produtores da fronteira mandando sons num importante marco político cuja história é mal contada: o frio e fálico monumento Estela de Luz, construido durante a administração sangrenta de Calderón. Um lugar profano que rapidamente se transformou sob a pressão do povo num espaço para protestos e vigílias.

Com Siete Catorce na linha de frente, o ruidosón anda bombando no México já mais de três anos. Até o momento, ele se materializa como parte de um movimento mais amplo da eletrônica mexicana, e mais incrivelmente, ele continua a amadurecer com elegância, estando longe da sirene que apita em situações constrangedoras ou excesso de publicidade.

Assim como Los Macuanos, Santos, María y José, e os irmãos produtores Mock The Zuma e Wyno em Ciudad Juárez, a música de Siete Catorce flui com uma fúria hipnótica alimentada em partes, acho, por uma situação política constantemente frustrante, e uma falta de segurança que parece deixar todo mundo deprimido no México.

Mas essa energia é despejada com uma força que faz com que seus quadris queiram se mexer. Como posso dizer isso? Tipo, se uma festa quienceñera se transformasse num filme do Hitchcock, a música de Siete Catorce seria a trilha sonora. Deu pra entender?

No Twitter e Facebook, Gutierrez exterioriza sua raiva adolescente de uma maneira que não soa falsa. Ele expressa altos e baixos, ambos inquietantes à sua maneira. Tento me lembrar de que muitos artistas da sua geração estão enfrentando demônios, sinto que estão numa batalha contra forças obscuras, ou simplesmente odeiam tudo, e essa é uma postura que eu ao menos respeito.

Siete Catorce me disse que faz dance music, mas é "ao mesmo tempo música para pensar"."Deixa eles viajarem um pouco" ele diz.

Daniel Hernandez é o editor da Vice México. Siga ele @longdrivesouth.

Siete Catorce nas redes:
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