Claudia González retrata a realidade transexual de Havana
Claudia González

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Claudia González retrata a realidade transexual de Havana

Uma forma rápida de entender o processo por que passam os transexuais de Havana sem ter que dar mais explicações sobre a sua intimidade.
26.5.15

Claudia González (Santiago de Chile, 1977) começou a trabalhar com a comunidade transexual de Havana em 2011. "O projecto surgiu após ter conhecido o trabalho da Cenesex. Foi preciso um ano e várias viagens para que confiassem em mim, desde então tenho ido a Cuba todos os anos para fazer retratos, a última vez foi em Dezembro de 2014 e tenho pensado em regressar em breve, tenho ainda que decidir quando irei terminar o projecto, que penso que será quando se converter num livro".

VICE: Por que é que decidiste intitular o teu projecto Reassign?
Claudia González: Quando comecei o projecto, sem título definido, chamou-me a atenção a forma como se referia às pessoas que tinham mudado de sexo. Falavam de "redefinidas", parecia-me uma definição fria para qualificar algo tão complexo como uma mudança de sexo, com todos os entornos psicológicos e emocionais que acarreta. Soava-me como uma espécie de selo num produto de carne, por isso decidi redefinir todas as pessoas deste projecto. Porquê em inglês? Porque permite jogar com a dualidade de sexos, já que a transição tanto é masculina como feminina, e ainda para mais, redefine os que não levam a cabo uma transformação completa como os travestis ou os transformistas que também fazem parte desta série.

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Como chegaste até aos protagonistas?
Através dos Cenesex. E tive consciência, desde o início, que queria colaborar com eles. Para mim era muito importante contar com o seu apoio e de alguma maneira que se tornasse conhecido o apoio que prestam a toda a comunidade LGBT. Talvez teria sido mais fácil ir a Malecón e sacar contactos desde lá, mas atraia-me muito mais a luta pelo bem estar e a normalização pela qual estas pessoas trabalham, oferecendo-lhes a oportunidade de estudar e trabalhar, por exemplo. A experiência tem sido maravilhosa, conheci seres humanos fantásticos, recebi imensos agradecimentos de várias partes do mundo, porque isto não acontece só em Cuba.

As tuas fotografias mostram um antes e um depois. Como chegaste a este formato?
Vejo-o mais como um jogo visual, uma forma rápida de entender o processo por que passam sem ter que dar mais explicação sobre a sua intimidade.

Qual era o teu objectivo? O que pretendias com estes retratos?
Sobretudo, queria que fossem retratos de dignidade, que o espectador perceba os seus próprios preconceitos, com os seus sentimentos mesmo que seja por breves instantes. Recordo sempre uma frase de Danny Lyon que define e resume bastante bem este tipo de retratos: "As imagens não são feitas para incomodar a consciência das pessoas, mas sim alterá-la. As fotografias não pedem ajuda para estas pessoas, mas sim algo mais difícil: ser breve e intensamente consciente da sua existência, uma existência tão real e importante como a tua".

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Como foi a tua trajectória até chegares ao Reassign?
Já trabalho nos bastidores da fotografia há muitos anos, como assistente de vários artistas. Em 2008 consegui uma bolsa para um Mestrado de fotografia criativa que mudou completamente a minha visão fotográfica, criando a necessidade pessoal de que o meu trabalho revelasse algo mais que a beleza da fotografia editorial. Actualmente, estou com dois outros projectos também relacionados com o âmbito social, que, tal como Reassign, são a longo prazo.