A Coleção de Sintetizadores do Arthur Joly é Pura Piração Analógica
Felipe Larozza

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A Coleção de Sintetizadores do Arthur Joly é Pura Piração Analógica

Conheça a história desse exímio arquiteto dos sonidos modulares e dos seus equipos de estimação.

Em meados de 2008, Arthur Joly foi surpreendido com o fim de um relacionamento. Mas o ciclo da vida segue uma rota de translação e quem já se ligou nisso sabe que todo final termina no mesmo ponto em que algo novo começa. Demorou apenas algumas semanas para que Joly descobrisse uma nova paixão, só que dessa vez não era uma mina, e sim os sintetizadores analógicos. Até então ele tinha alguns emuladores, plug-ins e tudo mais, contudo o primeiro synth no qual investiu uma grana foi um Moog Voyager. "E em menos de três anos, meu estúdio ficou parecendo uma loja de synth velho", relembra Joly, sentado ao lado do maior sintetizador modular da América Latina, que ele mesmo construiu, o JolyMod III.

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Com um trampo daora de publicitário que lhe garantia uma verba firmeza, Arthur Joly resolveu colecionar sintetizadores. Seu objetivo era comprar quanto pudesse no eBay, adquirindo pelo menos um sintetizador por mês. "Cheguei a ter uns 40 no meu estúdio", diz. Fuçando na internet, ele ficou sabendo que dava pra montar seus próprios synths. "Alguns sites vendiam as plaquinhas. Comecei montando um que era só um timbrezinho, 'tuc tuc'. E aí me liguei que, além desse kit básico de montagem, tinha uns mais invocados, e fui evoluindo".

O que me fascina nos sintetizadores analógicos é poder criar um timbre que nunca ninguém tenha escutado.

Para quem quer começar a se aventurar nesse barato, Joly dá a letra: a dica é investir num kit chamado Atari Punk Console, que ele garante ser facinho de montar. "Chega uma hora que o cara tem condições de montar um oscilador inteiro. Um kit de Punk Console você acha no eBay por R$ 35. Vem a placa e os componentes. Você só precisa ter um ferro de solda, um alicate e um fio de solda. Basicamente." Com o sucesso dessas experiências, veio a ambição de construir um modular personalizado, que seria a primeira versão do JolyMod. Essa missão contou com a assessoria do gringo de quem Joly comprava os primeiros kits, o Ray Wilson. "O Ray me ajudou a não empacar. Esse cara é um puta gênio, ele vende as placas, e me respondia todos os e-mails que eu mandava com dúvidas. No começo eu me ferrei porque não sabia que tinha como achar os componentes no Brasil, fui comprando de um jeito bizarro, peça por peça. Hoje em dia eu compro mil peças dessas por um real. Isso foi penoso.", lamenta.

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Na hora de dar vida ao JolyMod III, Arthur já estava escolado e não passou por tantos perrengues. Seu interesse em dominar totalmente a habilidade de construir uma máquina sonora modular o fez colocar em prática a técnica de fazer até a placa, corroída no ácido. "Eu pegava uma chapa de cobre, imprimia um desenho de circuito, passava o ferro quente, e esse desenho era gravado na placa, criando uma máscara. Aí eu pegava essa placa de cobre e jogava no ácido, e onde estava coberto não saía o cobre. Com o desenho de cobre inteiro nela, eu fazia furo por furo. A diferença em relação às duas primeiras versões é que a quantidade de erros, antes, era muito maior. Não posso dizer que travei porque eu ficava louco até resolver. Mas a demora era muito maior porque foi na unha. Levei algo em torno de uns oito meses, mexendo todo dia." Depois que pegou as manhas de produzir equipamentos mais complexos, Joly passou a enxergar os synths de sua coleção como obsoletos. Daí começou a se desfazer dos instrumentos, tanto que, em seu estúdio, resistem apenas alguns.

"O que me fascina nos sintetizadores analógicos é poder criar um timbre que nunca ninguém tenha escutado. E entender porque aquele som saiu daquele jeito. Você tem uma linha de baixo que é feita com onda serra, aí você pega um cabo e troca pra onda senoide, e na hora saca o motivo: na onda senoide a caixa de som vai pra frente e pra trás bem suavemente. Tem aquele grave gordinho. Quando você põe na onda quadrada, a onda tem uma quina. E essa quina dá aquela rasgada. Entender isso na física mesmo não só é gratificante como te abre a cabeça pra música de muitas maneiras." De vez em quando o Joly aceita encomendas e faz uns sintetizadores para um pessoal. Mas você tem que dar sorte de ele achar o seu projeto instigante o suficiente. "Teve uma época em que até tentei criar uma marca, a Reco-Synth. Mas hoje em dia esse não é meu objetivo. Eu prefiro muito mais produzir discos em que sejam empregados os Reco-Synths do que vendê-los. Porque eu construo sozinho um por um, e aí comecei a me enrolar com tempo, a deixar o povo na mão. E como esta não é a minha atividade principal, acabei tirando isso do foco. Precisaria de uma equipe. Eu não dou mais conta de pegar um monstro desse para entregar em seis meses."

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As histórias dos synths que encontramos no estúdio do Arthur Joly:

Fotos: Felipe Larozza

JolyMod I: "Foi um dos meus primeiros projetos, em 2009. Assim que comecei a entender como soldar os módulos e a descobrir o que era de fato o sintetizador modular, como era feito, entrei nessas de fazer o JolyMod. Durante muitos anos eu colecionei sintetizadores analógicos e o único tipo que eu não saiba como comprar, onde achar e como trazer para o Brasil era o modular, que são essas paredes. Eu sabia que existia, só não tinha noção de seu valor, não só de grana, mas o valor na música, nem o porquê da existência de todos esses cabos. Esse foi um dos primeiros e até hoje é o que eu mais amo. Foi quando resolvi usar a marca Reco-Synth, tatuei os dois braços com o logo e pensei: 'Quero fazer isso da vida'. Me apaixonei. Daí desenhei toscamente no papel e pedi para um marceneiro fazer o móvel. Era pra ele ser menor, o problema é que eu chutei as medidas. Só quando chegou eu vi que era gigantesco."

"Depois que comecei a montar, ligar, é que fui aprender a fazer síntese. Então ele veio antes até do meu conhecimento em síntese, em como usá-lo, de fato. Eu sabia que quatro sequências era um negócio difícil de ter num sintetizador, então falei: 'Vou meter quatro, já que vou fazer. Quero seis osciladores, quero quatro filtros…'. Fui fazendo tudo em grande escala. E hoje em dia, que eu sei usar, penso: 'Puts, ainda bem que saiu assim, porque é um diferencial foda'. Já realizei bastante coisa com ele. Uma delas, que eu acho a mais legal, foi o disco Punk Analógico. Mas já gravaram trilha de filme, já usaram em vários outros discos de amigos meus."

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JolyMod III: "Antes desse, obviamente teve o JolyMod II, só que aquele eu fiz para um outro cara, sob encomenda. Foi para um amigo meu, o cara que me apresentou os sintetizadores modulares. Quando ele soube que eu estava fazendo e viu o JolyMod I, pediu. A ideia com o JolyMod III era pegar tudo o que tinha de legal no JolyMod I, e construir outro, com as coisas que aquele não oferecia, com o objetivo de usar os dois sempre em conjunto. Fora isso, também foi necessário criar um novo modelo, mais prático, porque diversas vezes me pediram para levar o JolyMod em shows ou exposições, e eu não conseguia transportar a primeira versão. Então eu acabei construindo uma versão que fosse possível de transportar. Ele é dividido em cinco partes, enquanto o outro é praticamente um piano de cauda. Esse aqui já dá para transportar. É um trampo do cacete, mas eu já levei para muitos eventos, já fiz vários shows, exposições. Ele é uma espécie de trambolho portátil."

"Pensando na minha realização como construtor de sintetizadores, ele foi uma peça importante no álbum do Anvil FX, do Paulo Beto, chamado Joly Mod DIY. Esse disco é o seguinte: ele foi feito só com esse sintetizador. Todos os timbres foram criados nele, de bateria de caixa, cymball, baixo… tudo… os patches… Não teve nenhum outro synth envolvido. Foram lançados 250 vinis e, as capas, desenhadas uma a uma por um artista japonês. Desde a solda até a capa, tudo foi concebido à mão dentro desse projeto. É um projeto meu e do Paulo Beto, com participações do Pedro Zopellar e do Yupo Tozuka, o desenhista. Mas ele também foi muito usado no Punk Analógico. O lado B, por exemplo, são duas jams, usando dois patches que eu criei. Quando dou workshop, geralmente uso esse, é aquele pelo qual me apaixonei."

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"Eu dou muito workshop com turmas e tal, e agora eu vou oferecer um workshop individual em que o cara vem de manhã, entende, faz um patch, daí assim que o cara termina o patch eu subo, ponho o vinil pra gravar e ele faz o patch gravando em direct cut. Então o cara vai gravar o som que ele criou direto num vinil. É tipo uma aula criativa. Até imagino que, desses workshops, possa sair um disco, uma página na internet… vamos ver. Porque tudo que eu crio com ele, faço questão de registrar, já que um patch feito nele, depois que você tira o cabo, nunca mais acha. Cada vez que crio algo novo, descubro uma coisa que nunca imaginei que pudesse ser feita nele."

Acqua Space Ritual: "Trata-se de uma história bem louca, de um show que a gente fez no SESC Araraquara. O Paulo Beto inventou um projeto a pedido do cara do SESC, o diretor, que queria fazer um show na piscina de lá, que é uma piscina monstruosa, parece um lago, usando sintetizadores. Então o Paulo criou uma performance que era tipo um ritual alienígena e, nesse ritual, uma narração contava a história do universo e as lendas envolvidas. Num dado momento, o Zopelar e o PB, que faziam uma apresentação de teremim, pegavam um desses, entravam na piscina e iam pilotando até o centro da piscina, onde eles se encontravam. Nós construímos só para esse evento, e usamos eles com umas boias. O som era transmitido via cabo, então meu medo era eletrocutar os caras."

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"O primeiro desafio era que a caixa fosse totalmente vedada, porque se entrasse água era choque na piscina inteira. Ele tinha uma boia embaixo e, atrás dele, um cabo gigante, com boias também. Acqua Space Ritual era o nome da performance. Foi um puta show maluco. O público que estava lá, não sei nem se entendeu a proposta, mas pra gente ficaram os vídeos, e foi legal a história deles serem luminosos e tal."

Remanescentes da Coleção: "Esses aqui são os que sobraram da minha coleção. Eu comecei a comprar synth na época em que trabalhava com publicidade e tinha acabado de me separar do meu primeiro casamento. Não tinha filhos, então acabei tendo uma grana que nunca imaginei que poderia ter e aí eu achei o eBay. Foi a época em que comecei a comprar um sintetizador por mês, dois, três, a entender o que cada um fazia, e virei um colecionador. Essa salinha chegou a ter uns 30. Moog, por exemplo, hoje eu tenho só dois, mas já tive oito. Roland, já tive uns seis, hoje tenho dois. Tive ARP, mais uns quatro. Os vídeos "Modular" e "Cosmorama Sessions" mostram bem como era o estúdio antes de eu comprar uma máquina de vinil, que é a minha noia no momento. Quando eu peguei a máquina de vinil, cada agulha que quebrava custava um synth. Então, no começo, quebrei dez agulhas, e dei dez synths pra comprar agulhas novas, sabe?"

"E eu também desenvolvi um certo desapego porque depois que você aprende a mexer com esses modulares analógicos, os outros ficam obsoletos, vira mais um fetiche do que um objeto musical mesmo. O som que eu faço neles é bem menos avançado em relação aos que construí. Mantive o Moog Source, que eu acho lindo, uma puta peça de arte. Micro Moog… durante a coleção, apareciam vários com histórias diferentes. Essa história em particular foi um cara que, depois de ver minha coleção, me contatou e falou que nunca tinha pensado em vender, mas que queria vender pra mim porque ele tinha a certeza de que eu ia usar. Aí eu comprei do cara e não consigo revender porque ele confiou pra mim o negócio, ele só me vendeu porque eu era colecionador, então não tem como se desfazer. E aí tem mais dois que acabaram sobrando porque eu gosto dos timbres, mas não tenho muito apego, se alguém quiser comprar…".

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Vondina: "Fiz esse pra um cara que queria um modular, mas que não fosse em móveis, e sim umas caixinhas que pudessem ser ligadas umas nas outras, para ir reassociando. Dá pra usar uma, duas, ou mais. O tamanho não influencia, é só a carcaça, o que importa são as placas. Os osciladores são equivalentes. Nesse aqui, por exemplo, eu uso esses cabos banana, de uma ponta só, um empilha no outro, e dá pra colocar vários no mesmo ponto. É um outro tipo de abordagem. Eu chamo ele de Vondina. Porque o cara queria homenagear a vó dele, a Vó Ondina."

Solaris: "Essa é a maquete de um sintetizador que está no Rio, o Solaris. O cara que fez o móvel quis que ele tivesse uma maquete antes. Esse é um dos mais bonitos que eu já realizei, está lá com o Sávio de Queiros."

Phantastron: "Aí entre um e outro rolaram uns experimentos, tipo esse aqui, o Phantastron, de válvula. É uma tosqueira, nem pode ser considerado um synth, é um experimento doido. Ele é simplesmente um eletrônico com bastante saturação de válvula. Eu fabriquei vários desses miúdos, sabe? Dá pra criar umas musiquinhas com ele."

Encontre o Arthur Joly no Vimeo // Twitter