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BD

Clube de leitura gráfica do Rudolfo #1

A rubrica mensal sobre livros e fanzines de banda-desenhada e ilustração.
4.2.14

Olá malta. Eu sou o Rudolfo e esta minha nova rubrica mensal onde vos vou falar de cenas e fazer umas críticas a livros/fanzines de banda-desenhada, ilustração, etc. Não pensem é que sou um Pedro Moura ou um Marcos Farrajota, até porque eu no secundário não prestava grande atenção às aulas de português. Estava sempre a fazer bonecos para fanzines de merda. Ao menos a minha professora curtia a cena e até os comprava. Beijos para a professora Rosmaninho. Como este é o primeiro número desta rubrica, decidi mostrar-vos apenas cenas boas. Nada de chungarias. Adoro este spread. Tem as três melhores coisas no mundo: mamas, rabos e pilas. DRAMING DREAWINGS
Elsa Pinto Basto
O Panda Gordo Este zine era uma das novidades d’O Panda Gordo para a 3.ª Edição da Feira do Jeco (eu fiz o cartaz). É um fanzine de 16 páginas com desenhos, borrões e texturas esquisitas, que segundo consta, a Elsa fez no dia anterior à impressão do zine. Foi da maneira que chegou a tempo da Feira e me pôs um sorriso na cara. Gosto muito destes bonecos descomprometidos que a Elsa faz. O meu desenho favorito neste pequeno zine é um boneco mesmo pequeno com um sorriso me faz lembrar o da autora. Não faço ideia se é um auto-retrato. Que saudades de ir fazer cocó enquanto jogo BRICK GAME. O Sobral sabe o que faz. THERE ARE ONLY SEVEN STORIES IN THE WORLD
Bárbara Fonseca, Diogo Bessa, Zé Cardoso, Sofia Palma, João Drumond, Amanda Baeza, João Sobral
O Panda Gordo Depois de uma série de fanzines de ilustração, fotografia, receitas, etc, até que enfim que O Panda Gordo lança um fanzine dedicado à banda-desenhada! Com uma antologia baseada no livro de Arthur Quiller-Couch, The seven basic plots. Cada artista usou um dos sete diferentes tipos de histórias referenciados nesse livro. É engraçado ver malta que normalmente está ligada à ilustração (ou outras áreas) como é o caso do Zé Cardoso ou do João Drumond, a fazer uma narrativa. Ainda que no primeiro caso (hilariante) pareça mais um conto ilustrado (a história da Sofia Palma sofre de algo semelhante), enquanto no segundo se trata de ilustrações soltas com um balão de fala. A “colagem ilustrativa” (como eu gosto de chamar às histórias sem qualquer imposição de vinheta, apesar de se notar que essa estrutura está lá, ainda que invisível) da Bárbara Fonseca é muito bonita de se olhar. Gosto muito da espessa neblina da narrativa silenciosa do Diogo Bessa. A antologia também conta com uma participação da Amanda Baeza. Convém dizer que a Amanda é daqueles “novos talentos”, para além de que vi os originais desta história na exposição colectiva Lixo Futuro (exposição organizada por mim na Galeria da livraria Mundo Fantasma) e são IMACULADOS. Não percebo como ela faz isto. Ah, e o João Sobral, o verdadeiro “Panda Gordo”, tem aqui também a sua primeira banda-desenhada. Gosto muito! Se conseguirem, metam as mãos nesta antologia (aqui por exemplo).

Não me apeteceu foder a lombada do livro para digitalizar umas páginas, portanto curtam esta capa brutal. Se quiserem ver o conteúdo, comprem né. THE DYING DRAUGHTSMAN
Francisco Sousa Lobo
Chili Com Carne Se não me engano, o último trabalho de banda-desenhada do Francisco, saiu em 2003. Ou seja, há dez anos atrás. Depois deste hiato e de se ter dedicado às artes plásticas por uns anos, parece que está de volta ao pobre e mal-agradecido mundo da Bêdê. Tanto que este livro saiu há pouco mais de dois meses e o Francisco já tem um próximo agendado para 2014 (chamado The care of birds e que também vai sair pela Chili Com Carne). Normalmente quando alguém faz um livro de banda-desenhada sobre ser artista, não o faz muito bem. Ainda noutro dia estive a falar disso com o André Coelho relativamente ao Cages do Dave Mckean ou o Pompeii do Frank Santoro. Este último até pode ter algumas semelhanças em termos de desenho com o Draughtsman, mas o livro de Lobo não tem sequer comparação. Acompanhamos a vida miserável de um desenhador, o Francisco Koppens. A personagem principal é um desenhador português que emigrou para Londres, trabalha para um arquitecto, vai constantemente visitar galerias de arte, é casado com uma mulher que não lhe fala há anos e tem uma forte ligação com o cristianismo. Um misto de auto-biografia com ficção, portanto. É muito difícil dizer muito mais que isto sem estragar toda a narrativa. Os jogos de cores que o Francisco faz para intensificar toda a narrativa são muito bonitos de se ver. Foi um regresso de louvar à BD, até porque o Camera Obscura, editado pela Lx Comics em 2003, é daquelas obras nacionais de referência, pelo menos para este vosso mui nobre servo. Ter o Lobo de volta com um dos melhores livros nacionais desta última década, só nos mostra que a BD portuguesa está de boa saúde e recomenda-se.

Também não quis foder a lombada deste. Mas, ei, é uma wraparound cover que esconde ainda mais tiras autobiográficas ultra parvas na capa e contracapa. MY BRAIN IS HANGING UPSIDE DOWN
David Heatley
Jonathan Cape Já há algum tempo que vi este livro à venda mas ficou esquecido algures na minha memória. Noutro dia estava numa cadeia de livros e encontrei-o a preço de amigo. “Olha, nem é tarde nem é cedo” disse eu para mim mesmo e claro, comprei-o. O livro divide-se em 5 capítulos: Sex, Race, Mom, Dad, Kin. Cada um dedicado ao tópico. Todos os capítulos (tirando o último) têm algumas histórias que representam sonhos que o autor teve, enquanto a outra parte do capítulo são histórias autobiográficas. É verdade que os sonhos já são mamados e parvos por si só mas a vida do gajo é ainda mais engraçada. Para além de que é preciso ter coragem para admitir que fazia sexo anal com um amigo quando tinha 6 anos ( todos fizemos isso…. certo?!), entre outros pormenores sórdidos da sua vida sexual. Provavelmente a cena mais esquisita é o David ter incluído uma BD chamada Black History, ou como ele chama, “um catálogo quase completo de todas as pessoas de raça negra na minha vida”. Soa um bocado racista, sim, mas o conteúdo nem é assim tanto… É um livro engraçado até. Fiquei um bocado na dúvida quando vi na aba da contracapa elogios do Chris Ware, do Daniel Clowes e do Gary Panter. Mas pelos vistos os grandes não se enganam.

LAPSOS I-I, I-II, I-III
Inés Estrada
Gatosaurio 2013 foi um ano de subscrições na edição independente (com edições da Sacred Prism, a segunda metade de Distante Mover do Patrick Kyle, 10 dos 12 números de Copra do Michel Fiffe, etc). A Inés, também não ficou atrás e lançou três números da primeira série da sua publicação maior até à data, Lapsos. Mal foi anunciado, fiz a subscrição para receber uns extras porreiros como posters, pequenos fanzines, autocolantes e etc. Para além de que subscrições são uma boa solução para edições independentes a pequeno/médio/longo prazo. Mas adiante, a Inés é uma artista talentosa oriunda do México. Tive o primeiro contacto com o seu trabalho na capa do disco de Bubblegum Octopus, Bad Happy e desde então que a sigo ou falamos um pouquito. Este LAPSOS, conta-nos a história dos roomates Roque e Mayra, as suas aventuras por Mexico City e dimensões alternativas. O Roque é motorista numa empresa de autocarros e põe-se a ouvir versões de Ramones em espanhol. Tem umas cenas muito tripalhocas, típicas do trabalho da Inés. Adoro a forma como ela trabalha a grafite. Desenhos vivos, limpos e ao mesmo tempo muito sujos (se os virem acho que dá para perceber onde quero chegar). Em 2012, teve duas nomeações de prémios Ignatz na categoria de “Outstanding Artist” e “Outstanding Anthology or Collection” (nesta última com Orrijitos Borrosos, uma antologia a compilar algumas histórias que fez nos últimos anos, incluindo trabalhos que fez para a defunta antologia de banda-desenhada trimestral que eu editava, Lodaçal Comix), infelizmente não ganhou nada. No entanto, prevejo que no futuro irá alcançar facilmente um desses prémios. Enquanto a segunda série de Lapsos não sai, nem existe um livro a compilar estes três números, a Inés ainda tem os fanzines disponíveis. Para quem não consegue ler espanhol, há legendas em inglês a acompanhar. Ah, não sei se sabem, mas a Inés faz parte da VICE México, para onde escreve, desenha e é responsável pela curadoria da secção de Banda-desenhada. Mantenham-se atentos. Até já malta e boas leituras!