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Como é Ser uma Mulher numa Oficina de PUAs

O estilo de vida PUA, que tem a reputação de ser misógino, manipulador e desonesto, é baseado na formação de estratégias para pegar mulher.
8.9.15

Foto via usuário do Flickr Rishi Luchun.

Quando tinha 22 anos, eu li O Jogo, o controverso best-seller explorando a cultura dos pick-up artists (ou PUAs), e continuei fascinada por isso desde então. O estilo de vida PUA, que tem a reputação de ser misógino, manipulador e desonesto, é baseado na formação de estratégias para pegar mulher. Já ouvi esse tipo de conversa em bares e reconheço que alguns dos métodos funcionaram em mim. A ideia de ser vulnerável a isso me deixava um pouco desconfortável, e eu queria saber mais, mesmo que só para detectar quando isso estivesse acontecendo.

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Então, quando ouvi que Neil Strauss, autor de O Jogo, tinha um programa de autoajuda para pick-up artists chamado Neil Strauss' Stylelife Academy e que dois amigos meus (Byron Seingalt e Jay Schultz) davam cursos de final de semana para o programa, resolvi acompanhá-los para ver o que eu podia aprender numa oficina que diz ensinar homens a dar em cima de mulheres como eu.

VÍDEO 1

Vídeo via Stylelife Academy no YouTube.

DIA UM

O primeiro dia começou no apartamento de Jay em Los Angeles. Um sofá e algumas cadeiras estavam organizados num círculo improvisado na sala, onde Byron e Jay – conhecidos respectivamente na comunidade PUA como "Evolve" e "Sneak" – esperavam os alunos chegarem.

Byron é um bonito homem de barba, com um jeito masculino meio vampiro. Ele estudou genética em Yale antes de começar a trabalhar com Strauss. Seu livro sobre sedução, Attract and Seduce, oferece um sistema em quatro passos para "atrair mulheres bonitas de alto calibre e se tornar o homem mais interessante da sala".

E, então, temos o Jay. Se o Byron é o vilão do filme, Jay é o ajudante atrapalhado do herói. Ele é simpático e fácil de conversar – e usa o seu cabelo crespo selvagem preso num rabo de cavalo que desafia a gravidade. Quando leu O Jogo, ele era um adolescente solitário, mas, assim que começou a se responsabilizar pela forma como as garotas o viam em vez de se ressentir, ele conta que sua vida mudou.

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Byron estava no meio de um ataque sobre o macho-alfa, dirigido para ninguém em particular, quando os estudantes começaram a chegar. O primeiro foi Eric, um ruivo de rosto bonito com bigode e um sotaque sulista exagerado. Depois, veio Tomas, um cara hispânico de rosto jovem, seguido por dois homens carecas, John e Paul, que não vieram juntos embora estivessem usando blusas vinho combinando. Paul era inglês. Um cara grisalho chamado Charles apareceu logo depois, e, por último, veio Alex, um cara texano de rosto barbeado vermelho. Me impressionou como, no geral, eles eram razoavelmente atraentes.

"Estamos sempre tentando mostrar a melhor parte de nós mesmo", disse Byron. "Isso em si é uma atuação."

Senti como se fosse o primeiro dia de aula, porém com homens crescidos em vez de crianças se remexendo nas cadeiras – e eu. Dava para perceber que a minha presença os deixava desconfortáveis. Byron começou a discutir a natureza da sedução e como isso se aplica a tudo, independentemente de você estar prestando atenção ou não. Ele não acredita que algumas pessoas tenham um dom "natural" para isso, e sim prática.

O primeiro princípio a aprender é ser sempre a exceção, Byron frisou. Ele contou uma piada de Chris Rock: quando homens conversam com mulheres, eles estão basicamente dizendo "Que tal um pinto?". Assim, as mulheres desenvolvem um reflexo a homens que as abordam – da mesma maneira como desviamos de pessoas oferecendo coisas nas ruas. O trabalho dos alunos era ser o cara que não está oferecendo o pinto numa bandeja. Fazer as pessoas se sentirem confortáveis numa conversa, ele falou, era o objetivo principal.

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Byron e Jay deram alguns exemplos de como puxar conversa, sendo todos eles perguntas. Havia a conversa da blusa de caxemira, tipo: "Oi, uma pergunta rápida! Vou embora daqui a pouco, mas eu estava planejando comprar uma blusa de caxemira para a irmã do meu amigo de aniversário, e ela usa P e M. Se eu te desse uma blusa, você preferia que ela fosse um pouco justa ou um pouco larga?". Na versão imaginada num café, você finge uma "conversa" por telefone em que a garota esteja ouvindo; então, perguntar isso pra ela soa natural.

Eles fizeram os estudantes treinar as frases entre si e depois responder a perguntas – de novo e de novo, todos ao mesmo tempo. A cacofonia das sentenças de paquera afogando umas às outras era absurda. Metade do grupo repetia as frases automaticamente, porém alguns pareciam mais naturais.

"É como atuar", cochichei para Byron. E esse é o objetivo, ele destacou. "Estamos sempre tentando mostrar a melhor parte de nós mesmo. Isso em si é uma atuação."

Cada estudante devia usar de quatro a dez "sets", ou abordagens frias, com garotas num clube designado naquela noite. Antes de irmos até lá, perguntei em particular a Byron e Jay se os caras que investem em PUA só estão atrás de bucetas.

Jay me contou que, anos atrás, ele estava desesperado por um encontro de apenas uma noite. Ele finalmente conseguiu levar uma garota para casa e, na hora da ação, gozou quase imediatamente. Esse foi um passo necessário para se tornar mais evoluído, ele explicou, já que só experimentando as realidades bizarras de suas fantasias ele pôde descobrir que preferia sexo dentro de um relacionamento mais sério.

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Embora existam sempre aqueles com objetivos menos singelos, Byron e Jay contaram que muitos de seus alunos procuram apenas uma seleção maior. Eles podem até querer se apaixonar ou casar, mas ninguém deveria se conformar com a primeira pessoa que aparece só porque suas opções são poucas ou inexistentes. E, apesar de ser importante trabalhar em si mesmo, disse Byron, experiência prática é a única maneira de romper o hímen social (termo meu). É por isso que os caras procuram o Stylelife. Geralmente, eles estão desesperados.

Mais tarde, no bar, assisti aos alunos se balançando nervosamente, olhando de soslaio para as garotas ao redor. Parecia que a mãe deles estava prestes a chegar para encher a bunda de todos de chineladas. Senti vontade de abraçar os meninos.

Vídeo via Stylelife Academy no YouTube.

DIA DOIS

No dia seguinte, ouvimos as experiências dos alunos. No geral, a coisa toda foi desconfortável, mas alguns caras conseguiram se divertir. Paul pareceu ser quem teve mais sorte.

Byron começou a discutir maneiras de acrescentar valor – como dar elogios sinceros não baseados em aparência e saber sobre várias coisas. "Quanto mais você sabe", ele comentou, "de mais conversas você é capaz de participar".

Aí ouvi a palavra que estava esperando: negging. Um neg é um insulto embrulhado num elogio, e esse talvez seja o elemento mais conhecido e odiado do mundo PUA. Negging, me falaram Byron e Jay, é o que a comunidade de sedução chama de "desinteresse ativo" – basicamente, qualquer coisa capaz de plantar uma semente de dúvida na mente da garota sobre as chances de você gostar ou não dela. Coisas como fazer provocações e interromper a conversa também funcionam, ou dizer "Você é incrível! Você seria perfeita para o meu amigo".

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Desinteresse ativo, eles explicaram, é algo pensado para desativar a reação automática da garota (a uma suposta oferta de pinto); assim, ela pode responder mais sinceramente, criando espaço para uma conversa real. Jay reiterou: "Isso ainda é real, quer você esteja consciente disso ou não".

Bom, ele está certo. Na minha vida romântica, faço piada com os caras, jogo as falhas na cara deles e faço comentários que, para ser honesta, subconscientemente pretendem deixá-los um pouquinho inseguros. Eu pratico uma versão do desinteresse ativo. Então, por que é tão tabu tentar aprender o que vem naturalmente para tantos?

Byron acrescentou que as pessoas deveriam evitar se referir a seres humanos como "obstáculos", parar de classificar garotas com números e largar o termo "friend zone" – qualquer coisa que implique que o único valor de uma mulher é sexual.

Jay me disse que todo mundo deveria tentar alcançar um lugar em que não decida que gosta de alguém antes de conhecer a pessoa ou só porque ela é bonita. Logo, é apropriado plantar sementes de dúvida, porque elas são reais. Ele e Byron acrescentaram que as pessoas deveriam evitar se referir a seres humanos como "obstáculos", parar de classificar garotas com números e largar o termo "friend zone" – qualquer coisa que implique que o único valor de uma mulher é sexual. Não era isso que eu esperava ouvir numa oficina PUA.

Conheci melhor alguns dos caras no clube naquela noite. Charles, o cara grisalho, me falou: "Não estou aqui para pegar várias garotas. Isso é mais sobre melhorar minhas habilidades sociais e minhas maneiras com meus pacientes". Charles é um quiroprático bonito, se você gosta de tipos como o Michael Keaton (eu gosto); ele, no entanto, parecia desconfortável sempre que falava. Isso prejudicava sua atratividade, mas eu tinha esperanças.

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Os outros caras tinham histórias similares: Eric estudou meditação na Índia e tinha se juntado ao Stylelife quando voltou, porque esperava atrair mais mulheres. Ele queria encontrar alguém com quem fosse compatível em vez de ficar com a primeira garota que se interessasse por ele. Paul, que era bonito de um jeito convencional, me confessou: "Para mim, é mais fácil falar com os chefes-executivos das 500 maiores companhias do Reino Unido do que falar com aquelas duas garotas ali". Ele contou isso gesticulando na direção das duas mulheres ligeiramente atraentes do outro lado do bar. Descobri que ele tinha definido um objetivo de mil abordagens em dois anos e que escrevia "relatórios de campo" sobre elas na internet.

DIA TRÊS

No último dia da oficina, os caras pareciam mais confortáveis e sua linguagem corporal relaxou. No entanto, ainda precisávamos abordar um momento crucial: o beijo. Tornar o primeiro beijo memorável é importante, mas, se ela rejeitar isso, você não deve agir estranhamente ou ficar bravo. Se responsabilize. Você leu o momento do jeito errado. Ele sugeriu dizer: "Você é incrível. Senti que tinha de fazer isso". Isso pode fazê-la decidir que quer te beijar depois, embora se trate, principalmente, de uma coisa legal para se fazer. No pior dos casos, você acaba com uma amiga legal.

Especialmente no mundo PUA, no qual os programas mais falados atualmente são os misóginos encabeçados por gente como Roosh V e Julien Blanc, que foram proibidos de entrar em vários países, muito disso me pareceu revolucionário. Eles estão dizendo que as mulheres também podem ser boas… amigas? Mesmo se elas não transarem com você?

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Jay falou de saúde, beleza e moda, além das várias maneiras de aumentar seu valor externo. Ele pediu que os alunos pensassem em quatro palavras que descreviam como eles queriam ser vistos pelas mulheres. Estudei o rosto deles, tentando adivinhar as respostas, enquanto Jay tocava a música tema de Jeopardy.

Eles escolheram palavras como "protetor", "honesto", "gentil" e "seguro". Alguns caras escolheram "suave" e "excitante", mas no geral a maioria queria ser visto como… "legal". Paul, que queria ser "poderoso", "carismático" e "emocionante", foi a única exceção.

Durante o jantar de despedida, Paul me contou discretamente que tinha conhecido dois homens na noite anterior e transado com os dois em seu quarto de hotel. Ele me mostrou uma foto dos três na cama. Eu ri.

Finalmente falei com Tomas, que tinha sido o cara mais quieto do final de semana. "Tudo que eles ensinaram eu já tinha aprendido nas minhas aulas de evolução social", ele me disse, se referindo ao seu diploma de psicologia, "mas aprender os princípios e aplicá-los são coisas completamente diferentes". Tomas ficou relutante em ler O Jogo no começo. Ele não tem interesse em transar com mulheres aleatórias. Ele se juntou ao Stylelife, porque, de novo, queria opções para encontrar a pessoa certa um dia.

"Bom, eu também quero isso", pensei comigo mesma.

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Tradução: Marina Schnoor