Fotos do ritual de resistência indígena que celebra São Bilibeu
Todas as fotos por Ingrid Barros.
Viagem

Fotos do ritual de resistência indígena que celebra São Bilibeu

No Maranhão, tiros de espingarda, caça e cantorias comemoram a existência do santo milagroso.
21.5.18

Sábado, seis da manhã. Um rojão de foguete indica o início da festa de São Bilibeu, um ritual que, antes de tudo, é uma ação de resistência e demarcação com os pés para o território indígena Akroá-Gamella, localizado no município de Viana, Maranhão.

Os indígenas assumem personagens: a onça, o gato maracajá e o cachorro-chefe. Os futuros "cachorros" se reúnem ao redor do forno de torrar farinha e esfregam as mãos na parede interna. Dali, eles retiram um pigmento escuro, tisnando seus rostos e corpos com desenhos indígenas feitos de jenipapo e criando também caretas vermelhas com urucum.

De volta ao terreiro e depois de receberem um nome especial, adultos, crianças e mais velhos iniciam às caças por todo território, num ritmo de cantorias e maracás.

São Bilibeu ou Belebreu, santo que tem como um de seus milagres dar graças à fertilidade das mulheres, é uma figura negra esculpida em madeira, que possui uma festa secular nascida originalmente em Centro do Antero, situada em um povoado há mais ou menos 12 km da sede do município, dentro do território indígena dos Gamella.

Publicidade

Tradicionalmente, o festejo – que antes ocorria na época do Carnaval – começa com a busca do mastro feito de um tronco de árvore. Depois de ser enfeitado com frutas, o tronco é levantado com uma bandeira no topo. O ritual tem também os “bagageiros”, que são responsáveis por recolher a caça morta e levar até a cozinha do festejo. Os “caçadores”, por sua vez, lançam um tiro de espingarda pro ar toda vez que um animal ou "tesouro" é encontrado.

As caças, quando aves, são jogadas para o alto, atiçando os cachorros que executam um ritual de presa e morte. Garrafas de conhaque ou de cachaça são enterradas no chão para serem encontradas por eles. As caças podem ser também refrigerantes, que são dados às crianças, tidas como os cachorrinhos de Bilibeu.

Ações e cenas seguem se repetindo durante todo o percurso: os indígenas dão voltas, jogam água em si mesmos, se amontoam ao chão, rolam, se lambuzam de terra e lama, emitem grunhidos e latidos. E é assim que a festa preserva dentro de suas características um ritual no qual os brincantes, ao pintar seus corpos, dar seus gritos e piques, se reencontram com uma identidade silenciada por décadas.

Neste ano, o festejo aconteceu num final de semana do mês de abril. Na véspera, o deputado estadual Jota Pinto (PEN/Patriota) discursou na tribuna da Assembleia Legislativa do Maranhão dizendo que os indígenas estariam usando a expressão cultural para expandir seu território. Dessa forma, o político incitou ainda mais a rivalidade entre indígenas e proprietários rurais, assim como fez o deputado federal Aluísio Mendes (Pode) antes do episódio que ficou conhecido como Linchamento Gamella, em 30 de abril de 2017.

Portanto, um ano depois do ataque aos Akroá-Gamella, ainda sob ameaças e olhares racistas, crianças, jovens e mais velhos, ao reverberarem alegria e força no exercício de suas tradições, mandaram o recado: “Quem não pode com Gamella, não assanha esses guerreiros”.

Publicidade

Mais fotos da Festa de São Bilibeu abaixo e no Instagram da Ingrid Barros.

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter, Instagram e YouTube.