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Por Dentro da Favela Argentina no Rio de Janeiro

Existem torcedores que levam o futebol tão a sério a ponto de passar quase uma semana dirigindo seus calhambeques até Copacabana e, em alguns casos, passando pela segunda cordilheira mais alta do mundo.
15.7.14

Quando a Copa do Mundo começou, no mês passado, a Avenida Atlântica de Copacabana se encheu de carros velhos, barracas e ônibus cheios de torcedores do Chile e da Argentina. Gente que leva o futebol tão a sério a ponto de passar quase uma semana dirigindo seus calhambeques até aqui e, em alguns casos, passando pela segunda cordilheira mais alta do mundo. Algumas pessoas usaram as férias ou até largaram o emprego para partir nessa viagem épica, na fé de que seus times ficassem na competição até o final. Por várias semanas, as ruas ficaram cheias de torcedores fazendo churrasco, bebendo vinho, posando para fotos com turistas, balançando suas bandeiras do teto dos veículos, tocando violão e fazendo de Copacabana um lugar bem mais legal.

Aí o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, entrou na história. No meio da noite, a prefeitura levou todo mundo para o estacionamento enorme do Terreirão do Sampa, uma casa de shows localizada no meio do nada entre a Central do Brasil e o Sambódromo. Era aqui, perto de um projeto de moradia popular apelidado de “balança, mas não cai”, que os torcedores argentinos estavam morando desde então. Parecia um campo de refugiados do filme Distrito 9, mas com torcedores de futebol em vez de “camarões” alienígenas.

Com o final da Copa se aproximando, a fofoca nos jornais locais começou a crescer. Gente bêbada brigava a noite toda e, Deus que me perdoe, as pessoas estavam fumando maconha. Alguns diziam que não tinham dinheiro para voltar para a Argentina. Será que isso acabaria se tornando um gueto permanente de imigrantes ilegais? Com 70 mil argentinos na cidade para a final, e com a cidade de barracas chegando até o Sambódromo, o prefeito anunciou na quarta-feira passada que a polícia militar e a guarda municipal devem desocupar o lugar.

Então, decidi pegar minha bicicleta e ir até lá para ver o que estava acontecendo. Prendi a bicicleta em frente ao local e passei por guardas armados para chegar em outro mundo, um lugar cheio de cabeludos e caras de dread fazendo malabares, tocando instrumentos musicais e bebendo caipirinhas. A chuva tinha passado e roupas lavadas estavam penduradas por todo lado. Vi um punhado de carros novos, mas os ônibus e carros de 30, 40 anos predominavam. Quando um ônibus passou pelo viaduto acima, um brasileiro enfiou a cabeça para fora da janela e vaiou a multidão. Um grupo respondeu gritando “7 a 1!”.

Argentina e Brasil são vizinhos, mas as diferenças culturais são grandes. No Brasil, eles preferem cerveja; na Argentina, vinho. Na Argentina italianizada, cabelo comprido para os homens parece nunca sair de moda, no Brasil, os adolescentes mudam o corte de cabelo quase tanto quanto o Neymar. Os dois países estão cheios de imigrantes uns dos outros. Todo mundo que conheço aqui tem amigos argentinos, e notei muitos brasileiros misturados com o povo do acampamento, rindo e bebendo com amigos. Tirei algumas fotos e cruzei com uma argentina que veio de carro, de Buenos Aires, com três amigos. Eles estavam bebendo cerveja com um brasileiro que disse ser de Manaus e assando uma pizza numa churrasqueira improvisada. Eles não ficaram muito satisfeitos com o produto final, mas me ofereceram um pedaço. Até que ficou gostosa.

“Como os brasileiros estão tratando vocês?”, perguntei.

“As pessoas têm sido incríveis”, ela disse, “essa rivalidade é só em campo. Não é como Alemanha e França, por exemplo, que já estiveram em guerras. Nosso rival de verdade é o Chile. Torci pelo Brasil contra a Alemanha. Alguns brasileiros dizem que estão torcendo pela Argentina e outros querem que a Alemanha vença. Claro que todo mundo fica nos provocando, mas é só dizer '7 a 1' agora.”

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Andei mais um pouco e tirei algumas fotos, depois sentei num quiosque no fim do acampamento e pedi uma cerveja. Comecei a conversar com a cozinheira, uma brasileira de meia-idade chamada Solange.

“Não estamos faturando muito com esse pessoal”, ela disse. “Cara, eles são muito pão-duros. Os chilenos eram ótimos, mas a maioria já foi embora.” Para confirmar o que ela tinha recém dito, um homem apareceu pedindo se ela poderia ferver água para o chá mate dele como favor.

“Eles ficam provocando você?”

Ela riu. “É um inferno – são confiantes demais.”

Terminei minha cerveja e andei um pouco mais enquanto o sol começava a se pôr. Parei em frente a uma barraca onde um ruivo com cara de mau misturava uma garrafa de vodca barata numa caipiroska. Ele não me deixou tirar uma foto sua, mas me ofereceu um drinque.

***

Brian Mier é um norte-americano que mora no Rio de Janeiro. Ele é o autor de Slow Ride.

Tradução: Marina Schnoor