Conheça a mulher por trás da utopia africana em 'Pantera Negra'

A designer de produção Hannah Beachler construiu Wakanda como um mundo onírico afrofuturista.

por Gabrielle Bruney; Traduzido por Marina Schnoor
|
fev 16 2018, 7:44pm

Foto de Hannah Beachler cortesia de Emmanuel Bates Communications (E). Still de Pantera Negra © Marvel Studios 2018 (D).

Matéria originalmente publicada na VICE US.

Em seu poema de 1925 “Heritage”, o poeta da Renascimento do Harlem Countee Cullen lamenta a brancura de Cristo, assumindo “talhar deuses negros, também”, deuses “coroados com cabelos pretos rebeldes”. As décadas intermediárias familiarizaram os negros norte-americanos com Jesus negro, Papai Noel negro e todos os tipos de deuses negros da cultura, e o Pantera Negra da Marvel é o último deles. Mas o poema de Cullen é mais famoso por seu refrão – “O que é a África para mim?”, uma pergunta que os negros da diáspora encaram há centenas de anos. Pantera Negra se passa em grande parte em Wakanda, o lar africano ficcional do herói e um mundo criado para as telas pela designer de produção Hannah Beachler. Para levar Wakanda das páginas dos quadrinhos para os cinemas, Beachler teve que descobrir o que a África era para ela, e o que poderia se tornar para os espectadores do mundo todo.

“Penso em mim como uma designer de história”, disse Beachler sobre seu trabalho. Departamentos de arte dos filmes trabalham com os diretores para criar o mundo visual. Beachler foi designer de produção dos filmes anteriores do diretor de Pantera Negra Ryan Coogler: Fruitvale Station: Última Parada de 2013 e Creed: Nascido para Lutar de 2015. Ela também trabalhou em Lemonade de Beyoncé e no vencedor de Melhor Filme do Oscar de 2017, Moonlight. Nos últimos cinco anos, Beachler – a única mulher negra no topo de seu campo – foi a mente por trás de alguns dos visuais mais influentes da América negra. Mas Wakanda, um Éden Afrofuturista num continente distante, foi todo um novo desafio.

“A pergunta é: 'O que é ser africano, e como sendo afro-americanos podemos nos identificar? Como nos conectamos?'”, pergunta Beachler. A África sempre esteve nos sonhos dos negros de uma existência finalmente livre do racismo, e não é coincidência que o primeiro grande filme de super-herói negro de Hollywood não seja sobre os EUA: mesmo no universo Marvel, com seus supersoldados congelados e magos místicos, um filme sobre afro-americanos que nunca tiveram que encarar o racismo prejudicaria a verossimilhança.

Still de Pantera Negra. © Marvel Studios 2018.

Quando Coogler e Beachler visitaram o continente para sua pesquisa, eles não encontraram as “latrinas” dos comerciais de “Salve as Crianças”, mas nações negras diversas onde tradições tribais e modernidade são forças complementares em vez de opostas. “Senti pessoalmente que tinham mentido para mim sobre o que o continente realmente é”, ela disse, descrevendo cenas de idílio rural e modernidade cosmopolita, incluindo ver mulheres Turkana usando pintura facial tradicional em seus trabalhos em canteiros de obras urbanos que pareceriam em casa em qualquer cidade ocidental.

De suas viagens e pesquisa, eles construíram uma utopia africana muito distante da mistura arquitetônica Tóquio/Nova York que frequentemente serve como futurismo urbano no cinema. Uma viagem aos Três Rondavels, um impressionante trio de montanhas que lembram habitações circulares chamadas rondavels, enfatizaram os laços locais entre a natureza e o design, e se tornaram os arranha-céus de Wakanda com tetos de rondavel. Outras referências regionais e étnicas abundam em Pantera Negra, do otjize que cobre o cabelo de uma idosa no estilo das mulheres himba da Namíbia, aos cobertores Basotho em que os membros da Tribo da Fronteira do filme se enrolam, até o disco labial usado por um dos anciões, emprestado de grupos etíopes como os mursi.

Para Beachler, era importante tratar suas inspirações africanas com reverência – “E com isso quero dizer não simplesmente agarrar coisas que achei que pareciam legais”. Ainda assim, a significância cosmética do otjize ou o status social de um disco labial terão pouco significado contextual para a maioria do público norte-americano, fora por sua beleza. Enquanto a América negra tem uma longa história com nossas Áfricas imaginárias, acesso às opiniões reais de africanos sobre nossas fantasias da terra-mãe são novas, assim como a terminologia – como “apropriação cultural” – para descrevê-las.

As perspectivas de afro-americanos da África podem ser “bidimensionais” e “também têm seus problemas”, disse Courtney Baker, professora de estudos afro-americanos do Occidental College. Um exemplo disso são as alegações da artista anglo-liberiana Lina Iris Viktor de que a equipe de Pantera Negra usou seu trabalho sem autorização para o clipe “All the Stars” de Kendrick Lamar e SZA, uma música da trilha sonora do filme. “Mas com Pantera Negra, acho que você tira mais disso pensando no projeto do Afrofuturismo, que é sobre a possibilidade negra, diversidade negra e empoderamento negro, e isso tem a ver com a condição global da negritude”, acrescentou Baker.

Still de Pantera Negra. © Marvel Studios 2018.

E para um continente que já foi pintado com um pincel cruelmente amplo e impreciso, um pincel indiferente às especificidades ou nuance e inteiramente ignorante do contexto cultural, talvez uma tomada mais positiva possa formar parte de uma contranarrativa mais apropriada. Beachler espera que as crianças americanas possam ver o filme e saber que a África não é só o “continente negro”.

Para ela, criar Wakanda foi uma empreitada profundamente pessoal. “Eu estava na África do Sul... olhando a terra e pensando 'Tudo isso foi roubado da minha história'”, disse Beachler. “Fiquei muito emocionada, porque não achei que isso ia me afetar desse jeito.” É essa ligação emocional que evita que Wakanda seja a grande Apple Store que outro designer poderia ter criado. Avanços recentes para diversidade em frente às câmeras em Hollywood ainda precisa ser igualadas nos bastidores, então enquanto o status de Pantera Negra como um blockbuster de super-herói com um elenco majoritariamente negro já é impressionante, talvez a diversidade atrás de suas câmeras seja ainda mais surpreendente. Claro, qualquer diretor e designer de produção viajariam para a África e ficariam impressionados com o continente, mas a ressonância emocional e histórica que Beachler trouxe para a estética de Pantera Negra é especificamente negra.

Still de Pantera Negra. © Marvel Studios 2018.

“Lembro de entrar no set pela primeira vez e olhar em volta, e era uma das equipes mais diversas que já vi na minha carreira”, disse Beachler. A equipe de Pantera Negra inclui a diretora de fotografia Rachel Morrison, cujo trabalho em Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi rendeu a ela a primeira indicação de Melhor Fotografia para uma mulher da história do Oscar. “Vamos dar o crédito ao Ryan”, disse Beachler. “Quase todas as chefes do departamento dele eram mulheres, de diferentes orientações sexuais, religiões, cores e credos.” Nesse ponto de sua carreira, Beachler também pode reunir equipes igualmente diversas, com seu currículo como prova viva do valor de visões variadas nos bastidores. “Tive que passar pela porta”, ela disse, “depois pude, tipo, colocar um tijolo na porta para mantê-la aberta para outras pessoas”.

Siga a Gabrielle Bruney no Twitter.

Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter e Instagram .

Mais VICE
Canais VICE