Fui obrigada a continuar com uma gravidez inviável. Esse é meu diário

Quando os médicos disseram a Claire Cullen-Delsol que sua gravidez não era viável por um transtorno cromossômico, ela pediu um aborto – que foi negado pelas leis da Irlanda. Ela documentou a experiência num diário, que ela compartilha aqui.

por Claire Cullen-Delsol; Traduzido por Marina Schnoor
20 Maio 2019, 10:00am

Ilustrações por Calum Heath.

Em 2015, a mãe irlandesa de dois filhos Claire Cullen-Delsol descobriu que estava grávida de seu terceiro bebê. Era uma gravidez não-planejada, mas Cullen-Delsol e o marido Wayne ficaram empolgados com a perspectiva de ter outro filho.

Ultrassons revelaram que o feto tinha um raro transtorno cromossômico chamado Síndrome de Patau, significando que o bebê não sobreviveria muito tempo depois do nascimento; mais provavelmente morreria no útero. Depois de receber o diagnóstico, Cullen-Delsol decidiu que preferia abortar em vez de suportar meses de uma gravidez condenada. Mas as leis da Irlanda proíbem abortos em todas as circunstâncias exceto se a vida da mãe estiver em perigo, significando que mesmo que o feto não vá sobreviver ao nascimento, a gravidez deve ir até o fim.

Como resultado de sua experiência traumática, Cullen-Delsol se tornou uma ativista fervorosa do direito à escolha. Hoje, ela é diretora do Terminations for Medical Reasons, um grupo que ela formou para fazer lobby e mudar as leis de aborto na Irlanda.

“Fazer campanha de mudança para outras mulheres foi algo que comecei para lidar com a minha perda”, ela disse a Broadly. “Não vou me curar enquanto souber que toda semana, dois ou três casais irlandeses precisam viajar para o Reino Unido para abortar um bebê querido, mas que está morrendo. E vai saber quantas outras pessoas estão em casa, sofrendo como eu sofri?”

“Meu grande medo”, acrescenta Cullen-Delsol, “é que minha filha tenha que passar pelo que passei, e que este país a trate tão mal como me tratou”.

Abaixo você lê trechos do diário que ela escreveu durante sua terceira gravidez, publicados com permissão dela.

13 de agosto de 2015

É um dia ensolarado muito bonito. Estou voltando do trabalho para buscar Wayne, meu marido, e as crianças para ir ao Waterford Hospital para meu ultrassom.

Uma obstetra me leva para uma sala sozinha primeiro, para conferir o básico antes de trazer todo mundo. Conversamos pelo que parece uma eternidade até eu perguntar, sem muita preocupação, se tudo parece estar certo. “Não”, ela responde, de maneira direta. “Tem algumas coisas que preciso checar antes.”

Depois de alguns minutos, ela começa a apontar calmamente para grandes cistos na placenta, ossos faltando no rosto do bebê, e questões de desenvolvimento cerebral. Passamos para outra sala com uma máquina melhor e ela pede para chamar meu marido. Ele está com as crianças no café do hospital enquanto esperamos pelo segundo ultrassom.

Ele segura minha mão enquanto sentamos em silêncio. Enquanto a obstetra faz o exame, estudo o rosto dela procurando sinais de um sorriso ou alívio. Não encontro nenhum. Ela aponta mais coisas: fissuras bilaterais, dedos sobrepostos, cerebelo subdesenvolvido, cistos na placenta, nenhum estômago observável, problemas nos rins e manchas no coração do bebê.

Ouço aterrorizada enquanto lágrimas escorrem pelo meu rosto. Eventualmente o exame acaba, e vamos embora com um encaminhamento para um especialista em medicina fetal do hospital Holles Street. Saímos para o sol. Estou tremendo.

Em casa, procuro no Google “transtorno cromossômico”. “A condição raramente resulta em nascimentos com vida”, leio. “Alta taxa de mortalidade no primeiro mês. Poucos bebês sobrevivem ao primeiro ano. Incompatível com a vida. Fatal.”

Quero morrer. Quero encolher numa bola e ser engolida pela terra. Meu mundo todo muda. Nada parece real. Não sei como lidar com isso. Minha pessoinha pode não chegar a este mundo e podemos perder um filho. Não sei como lidar ou viver com isso. Quero manter este bebê seguro pra sempre.

15 de agosto de 2015

Hoje é o dia da nossa consulta no hospital Holles Street. Os últimos dias têm sido um borrão de lágrimas, raiva e insônia.

No hospital, o médico é direto conosco. Ele concorda com as descobertas da primeira médica: o estômago, os cistos, a extensão da fenda labial. Ele reserva o diagnóstico de transtorno cromossômico. Faço uma amniocentese e volto pra casa para esperar. Me agarro à esperança.

21 de agosto de 2015

Um dia muito longo e estressante. Estamos esperando o resultado da amniocentese, mas não há ligações. Às 16h começou a ligar para o hospital. Eles ainda não têm notícias. Temos que esperar até segunda-feira. Estou devastada. Estou exausta por não conseguir dormir e começando ver a pressão no rosto do Wayne também. Vai ser um final de semana difícil.

23 de agosto de 2015

Estou cansada de pessoas me dizendo para ser positiva ou acariciar minha barriga. Estou com muita raiva. Brigo por qualquer coisa.

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24 de agosto de 2015

Acordo me sentindo positiva e esperançosa, mesmo que tenha dormido muito pouco. Tomo banho e até passo maquiagem. Me distraio fazendo compras. Às 15h finalmente ligo para a obstetra. Ela liga de volta às 16h20. Más notícias. O bebê tem Síndrome de Patau, o que significa que há três cópias do cromossomo 13 em cada célula de seu corpo. Isso não é compatível com a vida e desenvolvimento normal no útero. O bebê não vai sobreviver.

Minha vida desmorona ao meu redor. Seguro as mãos de Wayne enquanto ele desaba. Ele segura a cabeça nas mãos. Ele está devastado. Sinto meu coração parar e meu estômago revirar. Desespero gelado parece escorrer pelas minhas costas e só consigo chorar. Depois de chorar tudo que posso, ficamos sentados lá num silêncio atordoado.

Começamos a contar para as pessoas. Não vou aguentar ouvir a voz da minha mãe quando ela souber que sua neta vai morrer, então Wayne faz a ligação. Ouço um soluço de cortar o coração pelo telefone e estou acabada de novo. Mando mensagem pro meu irmão. Não consigo falar com ninguém.

Do nada a realidade me atinge de novo. Não consigo descrever. A dor e o luto são tão completos que parecem chumbo. Tento literalmente empurrar o peso de mim. Sinto a decepção fisicamente. Estou uivando como um animal. “Não”, grito. Agarro a camisa do Wayne, implorando. Eventualmente a dor gritante vira silêncio. Nos abraçamos por muito tempo, aí começamos a nos preparar para quando as crianças chegarem da escola. Quando elas chegarem, temos que fazer nossas caras normais.

25 de agosto de 2015

No carro, dirigindo para Dublin, comemos rolinhos de café da manhã e conversamos. Wayne e eu estamos de mãos dadas. O médico explica clara e pacientemente a síndrome, seu resultado e nossas opções. O bebê não vai sobreviver. É improvável que ela nasça com vida ou sobreviva além de algumas horas como ela é. Posso esperar um aborto natural tardio, um natimorto ou, se a gravidez for até o fim, vou dar à luz a um bebê que vai morrer no parto ou logo depois.

Não pode haver nenhuma intervenção. Qualquer ação para acelerar o parto será considerada um aborto e é ilegal sob a Oitava Emenda da Irlanda, que proíbe aborto em qualquer circunstância exceto para salvar a vida da mãe. O médico não menciona a opção de viajar ao exterior para fazer um aborto até eu perguntar. Ele me diz que o hospital sabe do alto padrão do Liverpool Women's Hospital, mas não podem me encaminhar pra lá. Eles podem passar a informação se eu pedir. Nenhum profissional médico irlandês pode me ajudar a agendar o aborto ou marcar uma consulta lá. Tenho que arranjar tudo sozinha.

Estou com raiva. Estou grávida de apenas 22 semanas. Terei que continuar grávida por pelo menos mais 15 ou 16. Terei que parir e depois perder minha filha. Enquanto isso, tenho que trabalhar, deixar as crianças na escola, e lidar com toda a atenção que mulheres grávidas recebem. “Pra quando é o bebê?”, as pessoas vão perguntar. Não consigo lidar com isso.

Mas como posso viajar para Liverpool por uma semana? Deixar meus filhos com a família e amigos, ir para Liverpool, dar à luz a um bebê morto, dizer adeus a ela, e voltar de avião para esperar as cinzas chegarem pelo correio?

Não quero abortá-la. Quero tê-la. Quero carregá-la e me despedir no tempo dela, não sair correndo para pegar um voo. Quero que meus filhos, pais e irmão a conheçam e carreguem. Quero minha própria cama. Quero um funeral, não cinzas entregues pelo correio. A vida dela significa mais que isso. Mas a minha também. Como os direitos dela e os meus podem ser iguais sob a lei irlandesa? Ela nunca teve uma chance de viver. Toda célula do corpo dela tem uma pequena falha catastrófica, e ela nunca poderia sobreviver fora do meu corpo.

“Sou uma mulher adulta. Tenho filhos, marido, amigos, um emprego. Como tudo isso é igual a um batimento cardíaco sem esperança de um corpo que está morrendo?”

Sou uma mulher adulta. Tenho filhos, marido, amigos, um emprego. Como tudo isso é igual a um batimento cardíaco sem esperança de um corpo que está morrendo?

26 de agosto de 2015

Hoje tive que contar para minha filha Carla que sua irmãzinha vai morrer. Foi a coisa mais difícil da minha vida. O rosto dela desmorona e ela pergunta se não há mesmo esperança. Ela quer acreditar, mas não posso deixar que ela tenha falsas esperanças. Olho nos olhos dela e digo: “Não. O bebê vai morrer. Não tem nada que possamos fazer para ajudá-la”. Por mais cruel que seja, essa é a opção mais sincera que tenho.

Ela chora e chora. Eu faria qualquer coisa para não ter que fazer ela passar por isso.

Tenho outra consulta no hospital. A obstetra me olha nos olhos e diz que sente muito. O médico me diz que não há uma boa razão médica para me manter grávida, mas não há outra opção. Ele sente muito. Ele faz outro ultrassom e imprime cópias para toda a minha família.

Estou no centro da cidade comprando livros escolares e uniformes quando tenho outra crise. Percebo que nunca vou conseguir lidar com uma viagem para Liverpool agora. Mal consigo fazer compras. Não consigo pensar em ir ao supermercado. Mesmo se tivéssemos dinheiro para o voo e o procedimento, eu não conseguiria lidar com o aeroporto, o ônibus, o hospital. Pensar nessas coisas me faz tremer de medo. Vou ter que esperar.

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10 de setembro de 2015

Tenho pesadelos com o parto há dias. Acordo chorando. Hoje fiquei acordada a noite toda. Não sinto o bebê se mexer. Nada. Por volta das 6h sinto um pequeno movimento. Choro de alívio e medo.

11 de setembro de 2015

Outra noite acordada. Procuro no Google “indução depois da morte do bebê” e “se preparando para um natimorto”. “Parto de bebê morto.” Como o bebê vai parecer? Vou poder carregá-la? Beijá-la? Quantas noites mais terei que sofrer, imaginando se ela já está morta?

12 de setembro de 2015

Wayne está no trabalho quando minha mãe liga. Eu estava chorando em casa na mesa da cozinha. “Estou indo praí”, ela diz quando ouve minha voz. Quando ela chega, estou no chão. Não consigo levantar. As crianças estão tentando me confortar, mas estou em pânico. “Por que eles não te ajudam?”, minha mãe pergunta quando me vê. “Eles não podem te deixar assim! Eles vão mesmo deixar mães desmoronarem pelo bem de um bebê que não vai sobreviver?”

Sim, eles vão.

15 de setembro de 2015

Assisto um debate sobre a Oitava Emenda. Mando mensagem para os participantes, dizendo que espero poder falar. Um deles me responde. Como estou, ela pergunta. Estou conseguindo ajuda? Como ela pode me ajudar? Estou recebendo apoio psicológico?

Percebi que estava procurando ajuda quando mandei a mensagem. Eu estava desesperada para ter alguém que entendesse.

17 de setembro de 2015

Encontro a obstetra. Ela diz que vou saber quando o bebê morrer. Ela explica como será a indução. Que analgésicos estão disponíveis no meu caso. Falamos sobre o caixão. Roupas de bebê. Pílulas para impedir que o leite desça. Se quero enterrar ou cremar o bebê. Minha garotinha.

21 de setembro de 2015

Carla sente o bebê chutar pela primeira vez. É o primeiro chute real delas em semanas.

23 de setembro de 2015

Ela morreu. Será que ela sofreu? Foi algo rápido ou lento? Os cistos na placenta impediram que ela tivesse nutrientes e oxigênio? A pressão do fluído ao redor dela foi demais para seu coração? A falha genética significou que seu desenvolvimento não podia continuar além deste ponto?

25 de setembro de 2015

Alex Patricia Cullen-Delsol nasceu no dia 25 de setembro de 2015. Ela pesava 490 gramas. Ela era linda, perfeita, quebrada e imóvel. Completamente imóvel.

15 de outubro de 2015

Estou com dificuldade para me adaptar a vida normal. Estou confortável em casa. Confortável demais. Estou começando a cozinhar e limpar para compensar pela péssima mãe que tenho sido para meus filhos. Evito pessoas, a luz do sol, exercícios.

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4 de novembro de 2015

Hoje mandei um tuíte para o primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny. “Minha primeira menstruação desde meu bebê natimorto”, escrevi. “A carreguei por seis semanas depois do diagnóstico, perdendo a cabeça com o luto. #revoguea8.” Quero evitar que outras famílias sofram como nós.

Uma jornalista entrou em contato comigo e compartilhei minha história. Choramos. Ela escreveu uma matéria maravilhosa. Sou convidada a conhecer a Ministra do Trabalho e Proteção Social para contar minha história. Consigo viajar para Dublin? Posso tentar.

9 de dezembro de 2015

Me sento num salão com a ministra e falo por 20 minutos direto. Ela chora comigo sobre a Alex. Vejo o poder da minha história. Me sinto menos desesperada, menos insignificante. Alguém está finalmente ouvindo e concordando que o que experimentei foi errado. Que eu não merecia isso. Ninguém merece. E isso precisa mudar.

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