O Neurosis quer que sua música dure para sempre e inspire os outros

Lendária banda americana de metal desembarca na América do Sul pela primeira vez em dezembro com shows no Brasil, Argentina e Chile.

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nov 28 2017, 11:00am

Após mais de 30 anos de estrada, o Neurosis finalmente fará a sua aguardada primeira tour pela América do Sul no próximo mês de dezembro, com shows imperdíveis no Brasil, Argentina e Chile – quem tiver a chance de ir nas três datas, com certeza não irá se arrepender.

Responsável por alguns dos álbuns mais importantes e inventivos dos anos 1990 e 2000, como Enemy of the Sun (1993), Through Silver in Blood (1996) e A Sun That Never Sets (2001), a lenda do metal sobe ao palco do Carioca Club, em São Paulo, no dia 8 de dezembro para celebrar as três décadas de carreira e mostrar o seu trabalho mais recente, o discaço Fires Within Fires (2016) — o setlist deve ser uma mistura de músicas novas e clássicos como “Locust Star” e “Lost”, a julgar pelas apresentações da banda neste ano.

Por conta desse verdadeiro momento histórico que se aproxima, conversei por telefone com o guitarrista e vocalista Steve Von Till, que falou sobre o que espera (ou não) da sua primeira passagem por solo sul-americano, a recente tour com os amigos do Converge e Amenra pelos EUA, como o punk mudou a sua vida, os 25 anos do Souls at Zero (1992), a busca por sons experimentais e como quer ser lembrado, entre outras coisas.

Noisey: Vocês finalmente virão tocar no Brasil (e no Chile e na Argentina) em dezembro. Quais as expectativas para os seus primeiros shows na América do Sul? Vocês terão algum tempo livre para conhecer os países, aliás?
Steve Von Till: Infelizmente não. Todos temos empregos comuns, então teremos de chegar na véspera do primeiro show e voltar no dia depois do último. Vamos fazer os três shows em seguida porque precisamos voltar para trabalhar. Como a viagem é longa, já vamos tirar algo como quatro dias de folga apenas para conseguir fazer os três shows. Nós adoraríamos (poder ficar mais), mas infelizmente não podemos nos dar a esse luxo. As nossas expectativas...Sabe, é difícil ter uma expectativa, é um lugar novo para nós. Não esperamos que as pessoas nos conheçam como nos EUA ou na Europa. Então realmente não temos ideia do que esperar por aí. Tenho certeza que as pessoas que forem aos shows...meio que conhecendo o tipo de pessoa que gosta da nossa música...vão realmente curtir a banda. Estamos animados para conhecer pessoas interessadas pelo mesmo tipo de música que a gente na América do Sul. Não houve realmente uma comunicação cultural cruzada conosco com bandas daí, poucas chegaram aos EUA. É claro que bandas maiores como o Sepultura ou algo assim. Talvez o Ratos de Porão. Mas, por outro lado, estamos lançando o álbum (Configuração do Lamento) de uma banda do Brasil, o Deaf Kids. Um dos meus discos favoritos em anos, realmente incrível. Estou super animado para vê-los, espero que me impressionem ao vivo. Eu não sei, cara. Apenas estamos ansiosos por uma aventura, uma nova experiência. Um novo território para nos expressarmos e ver como as coisas acontecem.

Além dessa reportagem com a sua entrevista, também estou conversando com músicos brasileiros para falar sobre o impacto do Neurosis em suas vidas e na forma de escrever suas faixas e ver as coisas. Como é para você ter inspirado tanta gente pelo mundo com a sua música e seu trabalho com o Neurosis como um todo, a ponto de essas pessoas terem iniciado bandas por sua causa ou repensado a forma como encaram a música por conta disso?
Bom, esse é o maior elogio que você pode receber na vida. Em primeiro lugar, nos sentimos extremamente orgulhosos e honrados pelo fato de qualquer pessoa gostar da nossa música. Porque sabemos que é estranha e que não é "amigável" (risos). Não é uma música "fácil". É apenas o que sentimos que devemos fazer, vem de algum lugar de dentro. É essa força, essa energia. E é claro que nós fomos inspirados por bandas que nos fizeram querer pegar uma guitarra e conhecer toda a cena punk/hardcore em que crescemos e em que você não precisava ser um músico estudado e tudo mais. Apenas pegar algo e fazer barulho, desde que você estivesse se expressando e sendo verdadeiro, honesto e intenso. Então isso meio que apenas evoluiu para a gente, olhando para o mundo ao nosso redor e os sons que nos influenciaram. E realmente tentando entender o que significava expressar questões da alma, do coração e da mente em um mundo tão louco, por meio do som e da música. Nos deparamos com algo que penso ser bastante único e isso é tudo o que sempre quisemos, ser como as nossas bandas favoritas, que não soavam como ninguém. O Black Flag soava como se tivesse saído do nada, o mesmo com o Black Sabbath, Amebix, Joy Division, as primeiras coisas do Pink Floyd — todos soavam como se tivessem surgido do nada. Então é isso o que sempre buscamos. E o fato de que qualquer pessoa goste (da nossa música)... e o fato de ela mexer com alguém da mesma forma como mexe conosco, como eu disse, é uma honra e apenas algo incrível. E se nós inspirarmos qualquer pessoa a pegar uma guitarra ou uma bateria ou a fazer barulho com o que tiver em mãos, seja um eletrônico quebrado ou uma lata, não importa, então está ótimo, fechamos o ciclo. Pagamos de volta pelo que recebemos dos outros.

Ainda sobre bandas que tiveram esse impacto sobre as pessoas, houve algum show que te impactou de tal maneira, a ponto de te fazer mudar o modo de ver e fazer as coisas?
Hmm, não consigo realmente apontar um show. Foi mais descobrir toda a cena underground "faça você mesmo" (DIY). Tipo, você não precisava ir a essas porras desses shows de rock em arenas para ouvir música. E, quando eu era bem jovem, fui sortudo o bastante de conseguir ir a alguns shows grandes de rock de bandas que eu gostava, como Rolling Stones, Kiss e também alguns dos maiores nomes de metal e hard rock da época. Mas quando eu era adolescente, no colegial, apenas tinha essa vontade de fazer música e isso sempre pareceu tão impossível, fazer parte de algo que parecia intocável. Então o punk apareceu e eu comecei a notar que as pessoas estavam usando realmente instrumentos primitivos e habilidades primitivas para tocar todos os estilos diferentes de música. Sem esperar que alguém as descobrisse ou lançasse seus discos, mas sim marcando os próprios shows e lançando os próprios álbuns. Apenas descobrindo, indo a todos os tipos de shows, nas casas das pessoas, em porões, em salões alugados, prédios abandonados, onde quer que fosse. Penso que toda essa descoberta foi o que realmente me inspirou e a todos da banda a construir a nossa própria comunidade, a fazer parte de algo alternativo, verdadeiramente alternativo. E esses valores ficaram com a gente, é por isso que ainda trabalhamos apenas com artistas independentes, lançamos nossos discos com a nossa gravadora, que fica na minha garagem (risos). Esse era o estilo de vida do qual queríamos fazer parte.

Falando nisso, vocês fizeram uma tour recente com o Converge o Amenra pelos EUA, que penso que simboliza meio que uma continuidade desse pensamento do “faça você mesmo” e da união de diferentes cenas alternativas, mesmo sendo de estados e países diferentes e tocando estilos variados de música. Como foi essa experiência para você?
Ah, foi incrível. São todos amigos nossos há bastante tempo. Para nós, apenas parecia ser o que fazia mais sentido. Íamos fazer uma viagem rara e mais longa de ônibus pelos EUA e queríamos fazê-la ao lado de pessoas que gostamos e que obviamente também deixariam a noite destruidora em termos musicais. Quase demais da conta (risos). É muito poder com essas outras duas bandas. Mas foi incrível e estamos pensando em provavelmente repetir a dose na Costa Oeste dos EUA no ano que vem com as mesmas bandas.

Aproveitando que estamos falando sobre shows, vocês pensam em fazer um setlist especial para sua estreia na América do Sul? Quer dizer, vocês tocaram em outros lugares onde nunca tinham estado recentemente, como Portugal e outros locais da Europa, mas de qualquer forma muitas das pessoas desses países tiveram chances de vê-los antes, enquanto que por aqui a maioria das pessoas que irá nos shows nunca os viu ao vivo. Por isso, queria saber se pensam em tocar coisas diferentes nesta tour.
Nós não pensamos realmente desta maneira. Não pensamos nesses shows de forma diferente em relação a qualquer outro show da banda. Todo show precisa ser uma libertação espiritual, ter intensidade e entrega, sabe? Então realmente o que tocamos é o que nos inspira. E é o que sempre fizemos, tocamos o que é inspirador para nós no momento. Não vamos ‘cavar’ umas músicas antigas apenas porque as pessoas podem querer ouvi-las se não sentirmos que podemos entregar 100%, a experiência completa que elas merecem. Porque nossos sentimentos mudam e às vezes as coisas antigas… E nem sabemos se as pessoas na América do Sul conhecem as nossas coisas antigas, não temos ideia. Tipo, quais dos nossos discos chegaram aí. Sei que as pessoas trocavam fitas e que elas podem ouvir online, mas não temos ideia sobre como as coisas chegaram. Eu sei que é uma cena musical muito vibrante e intensa, é o que todos dizem. É meio que o estereótipo sobre o público sul-americano que temos aqui, que é um público extremamente dedicado. Mas não temos ideia, então tocaremos um set que será provavelmente composto na maior parte pelo nosso último disco ( Fires Within Fires, de 2016) e outras músicas que adicionarmos por sentir que possam ter o impacto emocional que queremos.

Já que você comentou sobre músicas antigas, o Souls at Zero (1992) completa 25 anos do seu lançamento em 2017. Como você olha para esse disco hoje em dia? Como é escutá-lo tanto tempo depois?
É claro que tudo que fizemos no passado nos torna o que somos agora. Por isso, somos extremamente agradecidos e orgulhosos por cada passo ao longo do caminho. Acho que o Souls at Zero foi quando realmente nos tornamos pela primeira vez a banda que deveríamos ser. Foi quando realmente nos libertamos das nossas próprias limitações e expandimos os limites em termos de composição. O uso de teclados e samples abriu todo um universo sonoro a ser usado. Para não sermos apenas guitarra, baixo e bateria e sintetizadores e teclados, mas também batidas de trem e bombas nucleares (risos). Pedaços de som...nós podíamos ser qualquer coisa. O que quisséssemos adicionar para aumentar a intensidade da música, nós podíamos usar como instrumento. Então, por isso somos muito agradecidos por essa época, em que as nossas mentes expandiram, nosso som expandiu, nos levando realmente ao ponto seguinte.

Continuando sobre inspiração e sons novos. Li uma entrevista no MusicRadar em que você fala sobre ter parado de usar captadores humbuckers em troca de modelos P-90. Por isso, queria saber o que te inspira a buscar novos sons como músico? Queria saber se essas mudanças específicas nos seus instrumentos mudam a maneira como você enxerga a música e a sua criação? Ou são mais coisas gerais?
Hmm, é… Na maior parte do tempo, nosso som permanece bastante constante. Trocar algo como o captador da guitarra ou a própria guitarra pode ser definitivamente uma diferença, mas acho que sempre meio que estivemos tentando refinar o som que ouvíamos desde o início. Quero dizer, há alguns aspectos principais do nosso timbre que não acho que gostaríamos de mudar. E nós não os alteramos radicalmente. Mas acho que apenas tentar refinar e aperfeiçoar. Tipo, “qual o melhor timbre limpo que podemos conseguir?”, “quais os melhores sons com uma distorção parcial?”, “qual o melhor timbre pesado que podemos alcançar?”. E algumas dessas coisas nós descobrimos por acidente, apenas com base no equipamento que tínhamos naquele momento. E vamos nos movendo lentamente em direção ao que estamos ouvindo. Mas na teoria você está certo. Colocar um instrumento diferente nas suas mãos… Sabe, já mudei o tamanho do braço da minha guitarra algumas vezes ao longo dos anos e segurar um pedaço diferente de madeira faz com que você queira fazer coisas diferentes, eu imagino. E extrair coisas diferentes da música. Definitivamente já explorei muitos pedais de efeitos e fuzz, moduladores, pedais de sintetizadores, sou viciado em phasers… Já usei muitas coisas diferentes que definitivamente, neste nível, podem trazer avanços e novas ideias algumas vezes apenas ao "brincar" e testar esses equipamentos. O som fará com que a sua mente e as suas mãos reajam de uma determinada maneira e isso trará um tipo de riff ou parte que você não criaria de outro modo, se não tivesse esse timbre. Então com certeza nós exploramos coisas fora dos sons e timbres normais. Tipo, nós temos esse lance principal que estamos perseguindo, mas então há esse tipo de área periférica de barulhos e texturas psicodélicas e outras coisas que não tem nada a ver com o modo tradicional de tocar guitarra. Acho que isso apenas vem do nosso amor por coisas mais experimentais, sabe? Nós também fomos muito inspirados por coisas como Throbbing Gristle, Coil e até a microfonia do Jimi Hendrix (risos). Algo como: “não consigo tocar essas partes da guitarra, não sei como fazer isso, mas posso fazer microfonia” (risos). Apenas focar muito mais nos sons do que no modo tradicional de tocar guitarra. Somos mais interessados em como duas notas que você não deveria tocar ao mesmo tempo vibram uma contra a outra. Ou como tocar em uma determinada região do braço da guitarra soa completamente diferente e possui alguns sons secundários esquisitos ou alguma vibração harmônica estranha. Meu uso de afinações abertas é porque eu adoro essa vibração harmônica. E também poder tocar todas as seis cordas com um acorde bem simples que faça algo que não seria possível na afinação padrão. Então nós já fizemos muitos experimentos apenas para meio que "esbarrar" em maneiras únicas, estranhas e não tradicionais de abordar nossas músicas, com certeza.

Essa é a última pergunta. Como você quer ser lembrado como um artista?
Como provavelmente todo artista, eu espero que parte dessa arte, que um determinado aspecto dela, torne-se um pouco eterno, que tenha pernas e dure, continue a inspirar as pessoas. Mas, quanto ao que somos, apenas que fomos sinceros ao nosso som, à nossa irmandade e às nossas famílias. E que éramos completamente dedicados ao som, que era uma jornada espiritual, uma catarse espiritual. E que nós fomos sortudos por poder sermos um instrumento disso.

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