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Como estão os principais museus públicos do país?

Em levantamento feito pela VICE, vimos que demissão de funcionários, portas fechadas e água caindo pelas goteiras são rotina de alguns dos principais locais de exposição.

por Julia Reis
31 Outubro 2018, 10:00am

Museu Nacional após o incêndio de setembro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Num trágico domingo de setembro, o Museu Nacional, a instituição científica mais antiga do país, foi destruído por um incêndio no Rio de Janeiro. As causas ainda estão sendo investigadas, mas já é sabido que o prédio tinha sérios problemas estruturais e de segurança desde 2014, quando passou a receber só 60% da verba destinada para sua manutenção.

O problema na conservação de museus no Brasil não é fenômeno recente. Um levantamento a partir do Cadastro Nacional de Museus em 2017 aponta que 12,9% dos 2.254 museus públicos do país estão fechados ou foram extintos. Os recentes cortes de verba pública na cultura e na área científica também ajudam a aumentar o estado de alerta em relação à conservação dos patrimônios no país.

A VICE apurou o status de seis dos principais museus públicos nacionais para conferir o atual estado das instituições. Conferimos parcerias, investimentos públicos e conservação do espaço. Os resultados não são muito animadores.

Museu do Ipiranga, São Paulo

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Imagem: Wikipedia

Por que é importante: O Museu do Ipiranga foi o primeiro museu fundado na cidade de São Paulo e é um dos mais visitados da capital paulista. A instituição científica que está vinculada à Universidade de São Paulo foi fundada em 7 de setembro de 1895 e é o maior símbolo da Independência do Brasil.

Como está hoje: Em 2013, quando comemorava seus 120 anos de fundação, o Museu do Ipiranga emitiu um aviso de que seria fechado em tempo indeterminado por conta de problemas no forro do teto. Na nota divulgada, a instituição afirmou que, por causa de vistorias técnicas, percebeu-se a necessidade de uma reforma para “garantir a proteção física do acervo”. Continua fechado até hoje.

O futuro: O museu recebe 3,2% da verba que a foi destinada, segundo a Folha de S.Paulo. O acervo paulista fez aniversário de cinco anos com as portas fechadas um mês antes do incêndio no Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro. Algumas peças foram transferidas para outras unidades e a previsão é que ele reabra em 2022, data em que se comemora o bicentenário da Independência do Brasil.

Acervo Thomé Portes Del Rei, Minas Gerais

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Imagem: Wikipedia

Por que é importante: Em 1759, nasceu neste prédio a ativista política, mineradora e poetisa Bárbara Heliodora. A arquitetura colonial ainda se mantém no século XXI. Ali, se destacam o Braço da Balança de pesagem do Quinto do Ouro, louças e objetos da época. Os bordados de João Cândido e o quadro Baronesa de Cana Verde também estão no acervo.

Como está hoje: O prédio chegou a ficar interditado em 2010 por razões de risco do desabamento do teto. Um investimento foi feito, mas a estrutura continua precária. A energia do museu, por exemplo, é divida com a biblioteca da cidade. Neste momento, a instituição está passando por uma reestruturação. Segundo o jornal O Tempo, uma estagiária está fazendo o planejamento de forma gratuita.

O futuro: Os planos são para que o acervo se mude para um casarão ao lado, mas ainda não tem previsão para finalizar o projeto.

Museu Arqueológico de Araruama, Rio de Janeiro


Imagem: Divulgação

Por que é importante: Fundado em 1862, a antiga Fazenda Aurora é uma casa cultural que já serviu como lugar de comercialização de negros escravizados. O museu contava com um acervo que resgatava a valorização da cultura das populações pré-coloniais.

Como está hoje: Por conta da má conservação, o museu está fechado para visitação desde 2013. Segundo reportagem do G1, o lugar recebeu a última visita técnica do Corpo de Bombeiros em 2007.

O futuro: Durante esse tempo de interdição, o acervo foi movido para o Museu Nacional do Rio de Janeiro, destruído por um incêndio no dia 2 de setembro. A instituição segue com visitas monitoradas com painéis e imagens.

Memorial da América Latina, São Paulo

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Imagem: Pixabay

Por que é importante: Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, o Memorial foi construído para ser um espaço de integração dos países da América Latina. Localizado na Barra Funda, em São Paulo, ele também acolhe o Parlamento Latino-Americano desde 1989.

Como está hoje: O Memorial da América Latina sofreu um incêndio no mesmo ano em que houve o fechamento do Ipiranga em São Paulo, 2013. O início de um curto-circuito em uma lâmpada do auditório foi o que causou as chamas. Com isso, 16 bombeiros foram atingidos com o fogo e dois deles sofreram feridas graves. Em 2017, o local foi reaberto com os projetos restaurados de Oscar Niemeyer e Tomie Othakie. A tapeçaria feita pela artista foi reconstruída com material não-inflamável.

O futuro: Após a inauguração, a assessoria declarou que teve como prioridade nas obras "a segurança, acessibilidade, conforto e visibilidade do ambiente". Desde então, o Memorial se tornou um dos maiores centros culturais da cidade de São Paulo, recebendo de mostras de arte à grandes festivais nacionais

Museu Nacional do Mar, Santa Catarina

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Imagem: Wikimedia Commoms

Por que é importante: Localizado no bairro de São Francisco do Sul, em Florianópolis, o espaço é considerado o maior patrimônio naval brasileiro. O museu foi criado em 1992 e aberto ao público no ano seguinte. O local reúne um extenso acervo retratando a grande diversidade de embarcações que pertencem ao território nacional.

Como está hoje: Em 2015, o Museu Nacional do Mar em Santa Catarina foi encontrado com goteiras, umidade e falta de climatização. O descuido acarretou na retirada de acervo do artista e navegador Amyr Klink em março, por conta do risco de depreciação do material. O museu se encontra com uma sala e um artefato patrimonial interditados por conta de problemas estruturais e aguarda manutenção, sem previsão de entrega.

O futuro: A instituição conta com parcerias do Governo do Estado e instituições privadas para manter o funcionamento. Segundo o coordenador, não corre risco de fechar.

Cinemateca, São Paulo

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Imagem: Wikipedia

Por que é importante: Fundada pelo Ministério da Educação e da Cultura em 1956, a instituição é uma das principais responsáveis por preservar a memória do cinema nacional. A Cinemateca concebe mostras e apresentações de materiais raros da filmografia brasileira.

Como está hoje: A instituição destinada a conservação do patrimônio cinematográfico sofreu um incêndio em 2016, destruindo cerca de 500 obras. Os filmes feitos na década de 40 e que estavam expostos no local foram o maior prejuízo da instituição. O local segue funcionando normalmente.

O futuro: Em março deste ano, o Governo do Estado passou a gestão da Cinemateca para a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), vinculada ao MEC. O contrato tem duração de 3 anos.

Museu de Arte de Brasília, Brasília

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Museu em obras. Valter Campanato/Agência Brasil

Por que é importante: O MAB foi fundado em 1985 e se transformou em um dos mais importantes museus de arte moderna e contemporânea do Brasil. Inicialmente ele abrigou o Clube das Forças Armadas, logo depois se transformou no Casarão do Samba para, a seguir, abrigar um acervo da estética artística dos anos 50.

Como está hoje: O museu está fechado por recomendação do Ministério Público, desde 2007. Investigações apontaram que o local não tinha estrutura o suficiente para comportar visitas. Após ser interditado, o acervo foi encaminhado ao Museu Nacional da República, localizado no mesmo estado.

O futuro: A reconstrução do museu ficou parada por 10 anos e foi retomada em outubro de 2017. A previsão é de que o espaço seja reaberto em 2018.

Museu Afro Brasil, São Paulo

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Imagem: Wikimedia Commoms

Por que é importante: A instituição se destaca pela afirmação da participação histórica pela perspectiva africana na formação da identidade brasileira. O acervo que conta com seis mil obras celebra a memória e a pesquisa da cultura negra em âmbito nacional.

Como está hoje: O Museu Afro Brasil demitiu 25 funcionários em 2015 após um corte de orçamento de R$1,6 milhão. Na época, a instituição também teve que adiar duas exposições previstas. Com nenhuma mudança no orçamento desde então, o museu organiza outras formas de captação, como projetos paralelos de realização, para poder pagar as despesas. Ainda funciona normalmente.

O futuro: A instituição quer virar referência de gestão em ações para a cultura afro-brasileira. A assessoria afirma que a aplicação e exposição de novos projetos é parte crucial para o desenvolvimento do museu.

Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

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Imagem: Wikipedia

Por que é importante: Com mais de 3 milhões de visitantes em 10 anos de história, o Museu da Língua Portuguesa tem grande importância na história da capital paulista. Ele foi construído na Estação da Luz por ser um local de grande fluxo de imigrantes que chegavam ao país. O papel do local é de valorizar os traços históricos da língua portuguesa.

Como está hoje: No final de 2015, o Museu da Língua Portuguesa sofreu um incêndio causado por curto-circuito que teve início no primeiro andar do prédio. Um bombeiro faleceu enquanto tentava conter o fogo. Pelo acervo ser majoritariamente digital, as obras não foram tão prejudicadas.

O futuro: O Governo do Estado assinou um acordo juntamente com a Fundação Roberto Marinho para a reforma do museu, um mês após a tragédia. O custo total da obra será de R$65 milhões e a abertura está prevista para 2019.

Assista ao vídeo "Como a impressão 3D pode ajudar a reconstruir o acervo do Museu Nacional"

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