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A literatura de Dalcídio Jurandir sem pavulagem

O escritor paraense desconhecido para muitos, mas que tem suas obras vendidas até R$ 350 em sebos online, e está prestes a ser reeditado.

por Débora Lopes
16 Janeiro 2018, 12:00pm

Livros do paraense Dalcídio Jurandir. Crédito: Casa de Cultura Dalcídio Jurandir/ Reprodução/ Facebook

Comunista, marajoara, lavou pratos no Rio de Janeiro, trabalhou como revisor não remunerado, foi jornalista, viu o sol nascer quadrado por causa de suas opiniões políticas ainda na década de 30 e se tornou um dos maiores escritores do Pará. Hoje, é preciso desembolsar até R$ 350 para conseguir comprar uma obra original de Dalcídio Jurandir e ler sua fantástica e minuciosa narrativa da vida cabocla, do ribeirinho amazônico. Pavulagem (presunção), coió (tolo, ridículo), carapanã (pernilongo), apoquentar (irritar). Expressões típicas da região Norte do país ganham ritmo e fôlego em seus cobiçados livros, disputados por vendedores e compradores de sebos físicos e online. Para rotacionar essa relação, a Pará.grafo Editora lançou uma campanha de financiamento coletivo para reeditar duas obras dalcidianas: Três Casas e um Rio (1958) e Os Habitantes (1976).

“As pessoas não lêem Dalcídio porque não têm acesso aos seus livros”, defende o editor Dênis Girotto de Brito, responsável pelo projeto gráfico e coordenador da campanha. “Ele é relevante não só na região amazônica, mas em todo o mundo. Não à toa recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, em 1972, e foi publicado também em Portugal e na Rússia.”

O escritor paraense Dalcídio Jurandir ainda jovem. Foto: Casa de Cultural Dalcídio Jurandir/ Reprodução/ Facebook

Nascido na Ilha do Marajó, Dalcídio escreveu 11 romances, sendo que dez deles integram o Ciclo do Extremo-Norte, série que conta a saga do menino Alfredo, um pequeno ribeirinho marajoara que sonha em concluir seus estudos na cidade grande, mais precisamente em Belém. Dalcídio chamava os vaqueiros, pescadores e ribeirinhos que compunham sua narrativa sobre o espaço geográfico e social amazônico de “criaturada do Marajó”.

TRECHO DE TRÊS CASAS E UM RIO

Tinha seis anos, quando certa manhã viu um pescador, ferrado de arraia, gritando de dores. Uma velha disse qualquer coisa à mulher do caboclo e Andreza foi levada para um quarto, escanchada nua em cima da ferida do pescador. Ela gritou, mas lhe dissera que era para sarar a ferrada e que só uma menina naquela posição podia com o veneno da arraia. – Dalcídio Jurandir

Lançado em 1976, Os Habitantes nunca ganhou uma reedição. Três Casas e um Rio, publicado em 1958 com capa de Cândido Portinari, faz 60 anos de aniversário agora em 2018. Para que ambos sejam reeditados, a Pará.grafo tem como objetivo levantar R$ 28 mil até 31 de janeiro deste ano.

O baiano Jorge Amado cumprimentando Dalcídio Jurandir ao receber o Prêmio Machado de Assis, em 1979. Foto: Casa de Cultura Dalcídio Jurandir/ Reprodução / Facebook

Não é a primeira vez que Dênis e sua editora apelam para o método: em 2017, arrecadaram mais de R$ 15 mil para reeditar Ponte do Galo, outra obra do autor.

Saber quem foi Dalcídio Jurandir numa pesquisa rápida pela internet é uma tarefa até que complexa. Existem poucas fotos do marajoara e nenhuma entrevista disponibilizada online. No máximo, alguns livros digitalizados, trabalhos acadêmicos e textos de blogs.

TRECHO DE OS HABITANTES

Agora no pescoço o tucumã com um contrafeitiço dentro. Deus? Deus? Nem podia mais catar os cacos de Deus, metê-los no carocinho. Deus? Naquele ano, pela cidade acesa de velórios de anjo, as moscas nasciam do corpo podre do Senhor Morto. A noite, esta, encalhou? – Dalcídio Jurandir

As capas das duas obras reeditadas. Imagem: Pará.grafo Editora

Não é só a rica narrativa dalcidiana que torna os livros do autor desejáveis, mas também a diversidade da linguagem popular utilizada pelo caboclo e reproduzida por Dalcídio. Para facilitar a vida do leitor, a pesquisadora e doutora em língua portuguesa Rosa Assis (que em 2014 lançou um livro sobre o vocabulário popular de Belém) foi convidada para elaborar um glossário com termos amazônicos que aparecem nas obras.

“A proposta é levar a literatura de Dalcídio Jurandir não só para os seus velhos leitores, mas para novos”, finaliza o editor.

Para colaborar com o financiamento coletivo, vá até o site do projeto.

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