Fotografia

Fotos da vida de um jovem skinhead

Gavin Watson repassa sua trajetória como um jovem skin na Londres dos anos 70 em seua mais novo livro 'We Were Here 79-89'.

por Biju Belinky; fotos por Gavin Watson
06 Outubro 2016, 5:30pm

"Eu nunca conseguiria falar na frente das pessoas se não tivesse sido skinhead", diz Gavin Watson, fumando um cigarro num bar enevoado nos arredores de Londres. Agora usando um casaco preto e boina em vez de coturno e suspensórios, ele é simpático, intenso e curte muito jogar Dark Souls no Playstation.

Você pode conhecer Watson por seu livro de fotos Skins & Punks — que é exatamente isso: um monte de fotografias de skinheads e punks nos anos 70 e 80. Watson também já trabalhou com música e moda, e publicou outros dois livros de fotos. Mas ele não tem nenhum deles, dizendo que não se sente "paternal" com seu trabalho. Ele é muito mão aberta.

Ele deve lançar seu quarto livro em breve — We Were Here 79-89, uma coleção de fotos escolhidas a dedo de quando ele era um jovem skinhead — e por isso estávamos num pub em Londres, falando sobre trabalho, vida e o passado.








VICE: Por que você acaba sempre dando seus livros?
Gavin Watson: É melhor eles estarem na casa de alguém do que na minha, certo? Eu conheço as fotografias e um trabalho de arte nunca está completo se ninguém estiver olhando para ele — por isso dou meus livros embora. Posso falar sobre as fotos, mas é trabalho do observador tentar dar um sentido para a imagem. Já fiz meu trabalho, tirei as fotos, as pessoas gostaram e elas foram publicadas. Também há vários rótulos que dão imediatamente para o meu trabalho, por isso raramente descrevo o que está rolando, mesmo que sempre me encham o saco por causa disso.

"Por que não tem uma explicação?" Cara, você sabe de onde os skinheads vieram. Olhe a foto e invente uma história na sua cabeça. Onde aquele moleque está indo? Onde ele está hoje? Essa é a melhor parte da fotografia na minha opinião. Às vezes você precisa saber as bases — essa foi tirada em High Wycombe em 1982 — mas eu poderia dizer "Esse é o Neville, filho de um padre irlandês, os skinheads estão indo para blá, blá, blá...." Mas não é isso que faço. Isso é trabalho para os outros.








Além do mais, naquela época você só estava tirando fotos dos seus amigos, né?
Sim, até os 28 anos, essas eram só fotos dos meus amigos, acho que eu tinha umas 60 imagens que valiam alguma coisa. Minha vida era em Londres, tentando ser alguém na vida, seja atuando ou fotografando, tentando achar meu caminho. Skinhead era só uma coisa do passado que estava numa caixa em algum lugar — até 1994, quando a moda explodiu de novo. Antes, isso era só uma caixa de "cultura jovem" na Camera Press, um armazém que parecia saído do Indiana Jones. Eu saía, fotografava meus amigos, revelava alguns filmes e colocava as fotos na caixa. Eu levava uns £50 aqui e ali pelas fotos, não pensava muito nisso. Na época, elas acabaram impressas em algum lugar do Zimbábue ou acabavam em publicações de direita sobre skinheads malucos. Eu odiava quando isso acontecia. Mas naquela época os skinheads ainda estavam por todo lado, e eles eram considerados moleques inúteis, a não ser que você estivesse fazendo um editorial sobre eles.








Falando em publicações de direita — isso sempre foi uma questão para o movimento skinhead, não?
O movimento skinhead era uma coisa tão universal que os skins de direita eram tão parte da subcultura quanto os rudeboys da Jamaica. Todos eles são parte disso agora — parte do tecido da cultura. Mas você não pode se afastar muito das raízes: isso veio de uma mistura de negros e brancos. Isso deve deixar os skinheads de direita loucos.

Foram os americanos que começaram a definir e enquadrar tudo. Isso não era uma coisa skinhead — não das raízes. Acho que a classe trabalhadora mexicana entende isso, assim como os trabalhadores da Indonésia — eles entendem que os skinheads estão fora de qualquer rótulo; você faz o que tem que fazer e quem quiser que te julgue. Essa era a parte boa de ser skinhead, a desconstrução. As pessoas tentam pegar algo que estava basicamente unido negros e brancos —especialmente nos anos 80 com The Specials e Madness, o movimento two-tone — e destruir a coisa toda enfiando uns nazis bizarros que saíram do nada no meio disso.

É política. Aqueles garotos estavam cantando sobre libertar Nelson Mandela, e do nada todos eles eram uns 30 skinheads nazis horríveis, que moravam em King's Cross e estragavam todo show de esquerda da cidade — é meio estranho, né? Do nada, todo mundo estava dizendo que skinheads eram nazistas. Eles foram manipulados. Se era um psicopata violento, você dava qualquer desculpa pra isso.

A mídia ter inventado tanta merda tornou o movimento mais forte para mim — até eu ter uns 23 anos e partir para as raves, aí eu pensei "Não tenho que provar nada pra ninguém".








Como você foi de skinhead para raver?
A aventura me levou para a cultura rave, e foi uma coisa da idade — ter 23 anos não era a mesma coisa naquela época; hoje esses putos ainda pensam em si mesmos como adolescentes, entrando na faculdade. Além disso, a rave era muito menos definida que o movimento skinhead, então não podia ser demonizada tão facilmente. O visual eram roupas esportivas e cabelo comprido pouco distinguível, deixando as diferenças entrarem. Foi uma das ideias mais poderosas da história. E como não havia nenhum gancho — nenhuma Twiggy ou Rolling Stones —, a rave era uma coisa sem rosto. Ela veio, mudou tudo e se foi, mas não é vista como uma coisa para se ter saudades como os anos 60, porque não gerou aquele nível de rótulos de que a mídia pode se apoderar. A rave foi como uma barragem estourando, levando embora várias atitudes. Era o zeitgeist — a rave e o Muro de Berlim. Tudo estava bem até o 11 de Setembro. Lembro que eu pensava "Se o mundo continuar assim, cara, a gente vai ficar numa boa". Dez anos depois, ninguém mais consegue dizer isso.








Qual era a importância da subcultura para você?
Para mim foram os anos em que me tornei homem, porque não tinha ninguém me guiando. Não havia modelos, eles já tinham sumido. Seu pai era sempre um cara deprê e num beco sem saída na vida, então você não conseguia olhar para ele e dizer "Quero ser assim". Não havia processo de iniciação.

Quando você é jovem, todos os pensadores criativos estão num grupo de arte ou são um pouco fodidos em casa — metade deles vão se tornar skins, punks, hippies. Esse não o tipo de pessoa que passa nas provas e sente que está fazendo tudo certo — os garotos das subculturas são aqueles que no fundo pensam "Tem alguma coisa errada nisso: Foda-se, você não entende nada". A raiva tem tanta energia que pode construir impérios — é paixão. Se eu não tivesse canalizado pelo menos um pouco disso para a arte, eu teria morrido.








Naquela época, os garotos eram implacáveis e sem direção, e quando você é assim, você se agarra a coisas como o orgulho. Orgulho é natural, mas pode ser manipulado e guiado, especialmente quando você tem 16 anos e está cheio de testosterona e raiva. Se você tem dificuldades para se encaixar na sociedade, vivendo com seus pais ou num abrigo, você atrai coisas e acaba lutando com a mesma pessoa que você é. Alguém tão cheio de raiva quanto você, mas com um chapéu diferente. Quer dizer, foram 100 anos de psicologia para nos tornar assim, cara – não é mágica. Você pode até achar que ainda estamos presos nos anos 50 pelo jeito como a mídia continua falando dessas coisas.

As pessoas querem demônios, para conseguir continuar no controle. Eu fui demonizado – o mundo [skinhead] sobre o qual a mídia escreveu, minhas fotos mostram que não era nada disso, certo? Ninguém me pagou para tirar essas fotos, por isso elas são tão reais. Agora, se o Observer aparecia, eu ia ser outro moleque encostado num muro fazendo cara feia. Mas não – a gente era feliz, a gente ria. Éramos garotos.

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Para ajudar a publicar o livro We Were Here 79-89 de Watson, acesse a página no Kickstarter do projeto.

Tradução: Marina Schnoor

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