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Como se sentem as mulheres negras numa capital em que o Dia da Consciência Negra não é feriado?

Elas falam como é viver e resistir em Curitiba, a capital do estado cujo próprio governo fez uma campanha contra o racismo.

por Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo
21 Novembro 2016, 7:05pm

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Curitiba é a cidade mais negra da região Sul do país. Segundo o Centro Cultural Humaitá, uma associação voltada ao estudo e pesquisa da arte e cultura afrobrasileira, 23,4% da população da cidade é afrodescendente. Além disso, o Paraná é o estado, no Sul, com a maior quantidade de negros, cerca de 30% da sua população. Os dados, porém, não foram suficientes para fazer valer o Dia da Consciência Negra por lá.

Em 2013, a associação comercial do Paraná e o Sinduscom entraram com um pedido na Justiça pedindo que a data não fosse considerada feriado em Curitiba. A Câmara de Vereadores, por sua vez, aprovou o pedido em 2013, alegando que mais um feriado causara prejuízos econômicos para o comércio local.

Leia também: "Justiça no RS considera inconstitucional o feriado da Consciência Negra"

Curitiba, também conhecida como "cidade modelo", não parece ser exemplo quando o assunto é racismo. Recentemente, Michele Mara, cantora que ficou conhecida depois de ganhar um concurso no Domingão do Faustão, denunciou na imprensa que uma loja na cidade não a teria deixado provar uma roupa porque seu cabelo iria supostamente estragá-la.

Para saber como é o preconceito racial na capital de um estado cujo o próprio governo fez uma campanha contra o racismo, conversamos com algumas mulheres negras curitibanas para saber como elas se sentem numa cidade onde o Dia da Consciência Negra não é reverenciado como um feriado nacional.

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Daiane Etelvina da Silva Paixão, a "Preta de Curitiba", 28 anos:

"Coloquei o nome de Preta de Curitiba justamente pra bater nesse teclado que dizia que não existia negro em Curitiba. E falavam isso olhando pra minha cara. Você já vê o racismo nas pequenas palavras. E temos que lembrar que Curitiba também foi ajudada a ser erguida pelos escravos, coisa que não é muito falada. No meu tempo de escola, eu não ouvia. O máximo que eu escutada era sobre negros na shibata. E como você vai querer ser representada dessa maneira? Então acho que tem que bater mesmo na tecla e tem que ser feriado no país todo. Desculpem os comerciantes, mas temos tantos feriados. Qual o problema em ter o da consciência negra? Eu não consigo entender. Quando se nasce negra você já é vítima de muito racismo. Na escola eu sofri muito racismo e chegou um momento que eu já estava achando natural sofrer racismo, piadas, até próprias agressões, assédios, ficou muito natural isso. Hoje sofro racismo nivelado e disfarçado. Mas agora eu consigo lidar melhor com isso. Porque tem os movimentos negros, tem a questão do empoderamento e a gente é fortalecida. E hoje eu vejo muitas crianças negras, pequenininhas, assumindo seu black, assumindo sua cor, isso está fazendo a diferença, coisa que eu não tive na infância."

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Flavia Pereira da Silva, 23 anos

"Meu primeiro preconceito foi na escola, quando eu tinha uns 8 anos. Era festa junina e a gente tinha que dançar de parzinho. E um menino todo ensaio dizia que não queria dançar comigo só porque eu era preta. Eu fiz ballet durante 10 anos e eu me lembro de pouquíssimas outras alunas negras, a única que se formou recentemente fui eu e hoje tenho algumas alunas negras em que os pais me veem muito como uma representatividade para essas meninas, porque não tem bailarina negras. Então nesse sentido, quando eu digo pra alguém que eu danço a pessoa sempre pergunta se é funk, se é axé, se é samba... e quando eu falo ballet clássico eles ficam 'nossa você é formada em ballet mesmo?' Isso é muito chato. Na escola, quando as alunas me veem dançando ballet, no começo, elas olham meio estranho porque eu sou a única professora negra da escola, as outras são todas branquinhas e loirinhas. Mas aos poucos elas vão vindo e mostrando coisas que fazem em casa, mostram vídeo e perguntam se tem outras bailarinas como nós. E os pais vêm falar direto comigo porque eles também acham muito legal saber que tem uma pessoa que trabalha só com artes. Chegam a falar literalmente, 'ah será que minha filha vai ser assim que nem você?' Eu fico meio emocionada, acho muito bonito isso.

Eu assinei a Capricho durante minha adolescência e eu quase nunca sentia vontade de fazer as dicas de moda e beleza porque eu não me via naquelas coisas. Foi só depois, convivendo com outras pessoas negras, que eu comecei a me reconhecer como negra. Mas me incomoda muito quando a pessoa vê e já julga que eu vou saber dançar, que eu tenho algum gingado e que é por causa da cor da minha pele. E elas falam isso pra mim na balada! Por muito tempo eu fiquei muito frustrada em relacionamentos também, porque as vezes eu via que os caras preferiam a minha amiga branca de olho claro do que a mim, mas eu entendo que é por uma estética cultural e que tem na cidade, também."

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Enayllê Cristina Boff, 21 anos:

"Sou de Minas, vim para Curitiba faz dois anos. O primeiro lugar onde fui seguida em estabelecimentos foi aqui. Já entrei no supermercado e já fui seguida, já fui barrada em porta de loja, já fui seguida em shopping a ponto de o segurança me perguntar o que eu estava fazendo lá. O que que a gente faz no shopping? Várias coisas. A gente pode comer, a gente pode comprar. Mas ele queria saber o que eu ia fazer no shopping. O Dia da Consciência Negra aqui não ser feriado? é só mais um reflexo disso, de como Curitiba é racista. É extremamente racista. Disso eu tenho completa certeza. Eu posso afirmar com propriedade. Porque a sociedade o tempo todo desde sempre nos diz que somos feias que não somos as preferidas, o nosso cabelo é ruim, a nossa estética é feia. Tá ligado? Nada na gente fica bom. É bem aquela esse batom não fica bem em você. Mas quem que te disse, querida? Quem que te falou? E daí você tem um movimento que te empodera e que diz que você é bonita e que você tem representatividade de todos os estilos possíveis. O movimento de empoderamento estético é muito mais do que você, e lógico que é muito importante para as mulheres se sentirem bonitas e se posicionarem, mas a sua militância não vai só até ai. Você tem que ter consciência de que você é linda, você é maravilhosa, você tem que se sentir assim mesmo e você tem se mostrar assim mesmo! Mas você também tem que ter o pé no chão de que o preto não é o padrão. E você nunca vai ser padrão. Então é muito bonito você ver uma mulher assim usando um black power, eu bato palma pra ela. Dá vontade de dar um abraço até. Mas a gente sabe que muitas dessas mulheres na hora de pedir um emprego acabam alisando o cabelo porque não são aceitas. A democracia racial é uma ilusão. E a cidade de Curitiba escancara o quanto ela essa democracia é racista. Tanto que a praça da Espanha, da Ucrânia, do Japão são todas na região central da cidade. Enquanto a praça do Zumbi, fica num bairro super afastado."

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Sara de Souza Lima, 22 anos:

"Às vezes parece que vivemos num zoológico porque as pessoas falam com a gente o tempo todo, elogiando alguma coisa. Eu não gosto, eu não preciso que branco fique afirmando minha beleza. É muito tempo né, pra me achar bonita e agora precisar de um branco pra me afirmar? dá vontade de falar nossa, eu sempre soube. Apesar de vocês sempre tentarem dizer que não. Mas eu sei. A estética é importante sim pra mulher negra, só que a gente não deixa de ser perseguido no shopping porque a gente é bonita, a gente não deixa de ser maioria carcerária porque a gente é bonita. Um dia que feriado e estávamos na casa de um amigo nosso e precisávamos ir ao banco tirar dinheiro. Fomos num shopping mais próximo e os seguranças não quiseram nos deixar entrar com o discurso de que precisávamos mostrar a identidade pra comprovar a maioridade. Mas o menino branco que estava com a gente entrou tranquilamente, o segurança falou: 'Ele pode entrar', na nossa cara. A gente é olhada feio em qualquer ambiente que a gente vá, porque a gente não tem poder aquisitivo pra pagar porque é preto. 'Olha a polícia tá te procurando'. São coisas extremante racistas que as pessoas reproduzem muito na infância e não entendem a gravidade dessas frases. A pior coisada infância é você viver assustado com polícia porque teus amigos dizem que ela está procurando você e quando você cersce e entende que é porque você é preto, você fica com mais medo ainda. Eu não sei como seria minha vida se eu tivesse nascido branca. Eu tenho certeza que minha mente seria melhor. Eu teria muito menos problema psicológico, menos problema de empregabilidade, menos problema pra me relacionar. Então o racismo afeta a nossa vida inteira. Não é nem como foram as situações que passamos... Quando se nasce negro você resiste porque você nasce sofrendo."

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Stephanie Gama, 25 anos:

"Curitiba esconde muito seu passado escravagista. E é como se não houvessem pretos no Sul. Como se não houvesse escravidão aqui. Mas é por isso que não é feriado, porque é como se os pretos não existissem. A gente não é um povo, a gente não é nada. Eu acho que o racismo, pra mim, aqui em Curitiba foi tão pesado, que metade da minha infância é bloqueada. No [ensino] fundamental lembro que era muito brigona. A criança que chamava a mãe pra ir pra escola... Mas eu tenho certeza que era porque eu sofria muito racismo. Toda criança preta, quando sofre muito racismo, é a criança mais agressiva da sala. E foi o que aconteceu comigo. Eu cresci agressiva até a oitava série assim. Hoje em dia eu participo de movimentos pretos.... Quantas vezes eu escutei na minha vida, preta fedida. Baixa que a polícia está vindo. Me reconheci como negra quando eu entrei em contato com o movimento negro e quando eu entrei na faculdade, por cotas e ai sim eu percebi eu sou preta e eu tenho que representar um povo. E por isso que não basta ser só tombamento, você tem também que buscar uma maneira de ajudar o seu povo, de retribuir. Por isso que eu quero me formar e ser professora e educar o povo preto. Mostrar pra eles que a gente é, além do funcionário preto, além do segurança, além da empregada doméstica, é além da diarista que é o que a minha mãe é até hoje."

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Joseane do Prado Vieira, 28 anos:

"A gente sempre passa por situações de racismo, pra conseguir um serviço. Esses dias eu estava na praça e fui conversar com um senhor que tinha uma vaga e ele já falou assim 'ah, mas precisa ter um curso', ele me julgou me olhando achando que eu não tinha estudo nem nada só pela minha aparência.

Somos todos iguais e sempre tem preconceito, sim. Tem pessoa que acha que é frescura. É muito ruim a gente ir numa loja e o segurança seguir, você se sente mal porque o segurança está ali atrás de você o tempo todo. E homens também, eles veem a mulher negra como um símbolo sexual. É muito chato isso. Porque querem a mulher negra na cama, mas pra andar de mão dada, não dá. Eu tenho filha e incentivo ela a gostar do cabelo dela, da cor dela e a gente vem todos os dias lutando contra o preconceito. A gente usa trança colorida pra chamar atenção, a gente gosta da nossa cor, a gente mostra pra todo mundo que a gente tá aqui pra vencer. Não tem essa de preconceito. Cada pedra que atiram é um degrau para subirmos."

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Maria Lucia Vieira, 24 anos:

"O racismo é o nosso dia a dia, já começa na escola. Se você é a aluna negra da escola sempre vai ter alguém que vai tirar sarro do seu cabelo, que vai tirar sarro do tom da sua pele e assim é no nosso dia a dia, a gente vai crescendo e conforme a situação vai mudando, sempre estamos no mesmo contexto. Preconceito e tudo... a gente vive diversas situações, tipo se você vai numa loja você dá uma nota de dez reais eles vão olhar na sua cara e conferir se essa nota não é falsa. Ou se você chega com uma nota de cem reais eles já vão ficar meio desconfiados. Eles julgam bastante pela aparência e pela cor de pele. Eu não desanimo, eu uso [esses casos de preconceito] mais como motivação mesmo, a gente não tem que provar nada pra ninguém. Mas é sempre bom a gente pegar, correr atrás e conseguir tudo o que a gente quiser e dar um tapa na cara da sociedade. Provar que a gente é capaz sim de fazer — e a gente faz."

Foto: Isabella Lanave/R.U.A Foto Coletivo/VICE.

Eligeane Graciano, 42 anos:

"Fico muito feliz que nos últimos anos a população negra tenha tido mais coragem de falar e procurar os seus direitos de denúncias. Porque por muitos anos nós ficamos muito tempo calados. O racismo é muito grande em Curitiba. Eu ando muito no Centro e já sofri vários ataques não só de xingamentos, mas ataques físicos de atacarem coisas em mim. Também já tentaram colocar fogo no meu cabelo! Uma pessoa veio com um isqueiro no clube em que eu estava dançando e de repente falaram: 'Olha, um cara vai colocar fogo no seu cabelo', quando eu olhei o cara tava com o isqueiro para atear fogo mesmo no meu cabelo. As pessoas às vezes não tem noção do que a gente passa e como que isso vai ser trabalhado depois com essa pessoa, essa mulher negra, ela tem uma assistência ? Eu me matriculei uma vez num curso de inglês e no primeiro dia a dona da escola olhou para mim e disse: 'Mas você tem cabeça boa para aprender inglês? Olha porque tem que decorar muitas palavras...'. Eu achei assim uma coisa incrível esse tipo de pergunta. No momento não adotei nenhum postura de luta, eu hoje sou formada em Letras Português/Inglês e estou aí. Tem gente que ainda acha o negro inferior, que o nosso cérebro é diferente e que ele não vai conseguir fazer nada. São antigas ideias que precisam cair por terra, todos somos capazes de tudo!"

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