VICE entrevista: Fernando Haddad

O presidenciável fala sobre aborto, Venezuela, fake news, Lula e seu adversário Jair Bolsonaro.

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out 16 2018, 7:01pm

O presidenciável Fernando Haddad (PT) responde às questões sobre aborto, drogas, Venezuela, conservadorismo, Lula, fake news e democracia levantadas pela VICE. Ele também fala sobre Jair Bolsonaro (PSL), seu oponente no segundo turno da corrida eleitoral rumo ao mais alto cargo executivo do país. Assista ao vídeo acima ou leia a entrevista abaixo.

Nota: a VICE convidou o candidato Jair Bolsonaro (PSL) para uma entrevista, mas até o momento não houve resposta. Outro pedido de entrevista já havia sido feito para o documentário "O Mito de Bolsonaro", mas Bolsonaro não aceitou.

VICE: Nessas eleições de 2018 temos visto uma polarização política muito grande. Os candidatos de direita tentaram ou inflaram ainda mais essa questão do ódio com relação de parte da população ao PT. Tudo isso culminou em violência física e verbal, que vimos com mais intensidade nos últimos dias. Queria te perguntar de que maneira uma provável eleição sua poderia acalmar os ânimos e não deixar esse clima de animosidade maior?
Fernando Haddad: Olha, sinceramente eu acho que vou ter que exercer minha profissão de professor no seguinte sentido: ter a humildade para aprender coisas, que senão, você não tem o que ensinar. Ter a generosidade de dialogar. Minha profissão é fundada no diálogo, na interação humana. E, sobretudo, na interação do diferente. Com quem sabe mais, com quem sabe menos, com quem pensa diferente. E eu penso que se nós conseguirmos criar um ambiente em mais harmonia e mais diálogo pra buscar saídas coletivamente, nós vamos chegar e sair mais fortes dessa crise do que entramos. A democracia pode sair mais forte. Se nós passarmos essa prova que é a ameaça do Bolsonaro. Bolsonaro é uma ameaça à democracia. É uma ameaça à harmonia. E eu penso que se nós superarmos essa prova que nos foi colocada, nós podemos sair muito melhor. Mais fortes, mais robustos, com um projeto mais generoso pro país.

"Bolsonaro é uma ameaça à democracia"

Essa escalada de violência te assusta?
Assusta porque tem gente sendo morta, né? Tem gente sendo agredida. Uma menina teve a suástica entalhada à canivete no próprio corpo. Hoje uma igreja católica amanheceu pichada com a suástica. O Moa da Bahia foi assassinado com 12 facadas. Imagina um pessoa, em que estado de espírito está para atacar, por uma questão de voto, uma pessoa com 12 facadas. Nós tivemos nosso carro fechado em Brasília com gente gritando contra a igreja católica. Falando que a igreja católica é a igreja comunista, igreja gay. Coisas absurdas acontecendo. Eu, pessoalmente, no WhatsApp, sou ofendido, caluniado, todos os dias. Já virei promotor de incesto, proprietário de uma Ferrari, proprietário de um relógio de 500 mil reais. Coisas assim são ditas com muita naturalidade. Esse não é o caminho da paz.

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O presidenciável Fernando Haddad (PT) e a jornalista Débora Lopes, da VICE. Foto: Larissa Zaidan/VICE

Você acha que a imprensa tá cumprindo o papel dela nessas eleições?
Olha, eu vou te dar a opinião da ombudsman da Folha [de S.Paulo] de hoje. Não. A imprensa tá naturalizando as opiniões do meu adversário, que já chamou o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns de vagabundo e picareta, que já disse que o problema da ditadura foi que ela torturou mas não matou, de dizer que uma colega não merecia ser estuprada por ele, de dizer que o filho não casaria jamais com uma afro-descendente porque foi educado e não vive em meio promíscuo. É dessa pessoa que estamos falando. Agora querem expô-lo como se fosse uma pessoa como outra qualquer, e não é uma pessoa como outra qualquer. E já deixou isso claro. Ele próprio. Quer dizer, se ele não se escondeu durante esses 28 anos em que ele não fez nada a não ser agredir, por que que a imprensa está escondendo?

E você acha que o povo brasileiro votar no Bolsonaro faz delas um reflexo dessa postura de ódio?
Eu não acredito que seja. Eu acho que tem um núcleo duro, no máximo de 20%. E tudo mais a gente resolve com informação. Então nosso desafio nos próximos dias é informar, informar e informar. Combater fake news, combater mentira. O nosso propósito é esse. É passar as duas próximas semanas dialogando permanentemente com a sociedade.

"A imprensa tá naturalizando as opiniões do meu adversário"

Sobre essa questão de fake news, um texto que circulou muito no WhatsApp, que foi uma ferramenta interessante nessas eleições, e sobretudo entre antipetistas, era que se você fosse eleito, você ia soltar o presidente Lula. E, aí, queria te perguntar: você vai dar indulto ao Lula? Existe alguma possibilidade?
Na minha opinião quem deve soltar o presidente Lula é a justiça, por meio do recurso que ele impetrou. É um direito dele recorrer e ter a sentença reformada. A sentença que o condenou, reformada. E não sou eu que estou dizendo. Centenas de juristas, inclusive do exterior, que se debruçaram sobre o processo, concluíram absoluta falta de provas para condenar. Qualquer cidadão. Não é um presidente da república. Qualquer cidadão. Então, eu acredito que nas instâncias superiores, a sentença deva ser reformada, por absoluta falta de provas.

"Eu não conheço ninguém que saiba cuidar mais das pessoas do que o Lula"

E se o Lula estiver solto, ele poderá ter algum papel no seu governo?
Olha, o Lula vai ter uma participação na vida nacional. Tá tendo hoje uma participação na vida nacional. Eu sempre repito: o presidente Lula, na minha opinião, foi o melhor presidente da República. Deixou o maior legado de contribuição, aquilo que era o maior problema nacional, que era a desigualdade. Combateu como ninguém a desigualdade, oferecendo oportunidades pras pessoas. Esse legado não vai ser apagado. E eu mantenho um bom diálogo com todo mundo, mas eu não conheço ninguém que saiba cuidar mais das pessoas do que o Lula. Ele tem cuidado com as pessoas. É muito importante lembrar dessa sua característica principal. Ele gosta de cuidar de gente.

Haddad, nessas eleições a gente viu também uma surpreendente guinada da extrema-direita. O PSL, partido do Jair Bolsonaro, foi o segundo partido com mais cadeiras na Câmara, depois do PT. Vemos também a permanência de bancadas que atuam pelos próprios interesses, como a bancada da bala, do boi e da bíblia. Minha pergunta é: é possível governar em meio a esse caos ideológico?
Olha, é. Vai ter que ter muita habilidade pra isso e muito diálogo. Não tem outro jeito de compor. Mas serão maiorias por projeto. Não vão ser maiorias estáveis. Então, nós vamos ter que fazer a reforma tributária? Vamos ter que fazer. Nós vamos conseguir os votos necessários com base na qualidade do projeto. Não vai ser automático o apoio das bancadas a qualquer governo, na minha opinião.

Antes e durante essas eleições, vimos representantes do MBL e apoiadores do Bolsonaro reclamando sobre a doutrinação de esquerda nas escolas. Eles defendem o [movimento] Escola sem Partido, que, entre outras coisas, faz uma patrulha para selecionar livros que não flertem com o marxismo, socialismo e comunismo. Você é professor. Como você vê isso?
Olha, uma completa ignorância do que acontece nas escolas. As editoras que fornecem os livros didáticos para as escolas públicas são as mais respeitáveis do país. E são rigorosamente as mesmas que fornecem os livros para as escolas particulares. Rigorosamente as mesmas. Eu não vou fazer propaganda delas aqui, mas qualquer pessoa pode consultar. Além disso, a escolha não é do Ministério da Educação. O Ministério da Educação elabora um catálogo, e a escolha é do corpo docente da escola. Portanto, o Ministério da Educação não censura a escolha dos professores. Terceiro: ignora a qualidade do nosso professorado.

As nossas professoras são muito responsáveis. Sabe que mais de 80% da categoria é composta por mulheres? E são muito responsáveis e zelosas pelo o que acontece em sala de aula. Sobretudo no que se diz respeito a valores. Valor da democracia, da liberdade, respeito à diferença, respeito à liberdade religiosa. Tudo isso é muito cultivado na escola. Então, é uma ignorância em relação aos professores do Brasil. É uma ignorância em relação a qualidade das editoras que fornecem para as escolas particulares também. É uma ignorância em relação ao processo de fazer chegar ao nível didático com a escola. E quando tem uma falha, a própria comunidade... Porque os pais acompanham a educação dos filhos, então, quando acontece uma falha, o pai ou a professora ou a diretora faz o alerta. E, aí, as coisas se recompõem. E isso é muito raro de acontecer. Mas acontece. E quando acontece, existe o que a gente chama de controle social, não é o controle estatal. É a própria comunidade escolar protegendo as crianças naturalmente. Que é papel do pai acompanhar a educação dos filhos, e a professora está lá em sala de aula e sabe o que está acontecendo. Então, é quase que desrespeitoso em relação a essa bela profissão que é a de professora desse país.

"O modelo de governo da Venezuela não pode servir de exemplo pro Brasil"

Ainda nessa onda do que os apoiadores e eleitores do Bolsonaro usam para te atacar, tem a questão da Venezuela. Eles falam que, tanto Lula, quanto Haddad e Dilma querem transformar o Brasil na Venezuela, Cubazuela, são vários nomes. Esse boato também cresceu a medida em que as pessoas sentiam falta de um posicionamento seu sobre o Nicolás Maduro. Eu recentemente estive na Venezuela acompanhando a questão dos refugiados em Boa Vista, e a gente vê que a situação ali está lamentável. As pessoas estão morrendo de fome. Queria perguntar, então, até pra deixar isso mais claro: qual é a sua opinião sobre o que está acontecendo lá e também sobre o governo do Maduro?
O que está acontecendo na Venezuela é grave. A crise econômica é medonha. O desentendimento das forças políticas atingiu um patamar inusitado, de maneira que o modelo de governo da Venezuela não pode servir de exemplo pro Brasil. Outra coisa é querer declarar guerra à Venezuela. Outra coisa é querer botar uma base militar americana aqui no Brasil, cujo único objetivo é explorar o petróleo e não zelar pelo bem estar da região. Nós não podemos transformar a América do Sul em um Oriente Médio por causa do petróleo. Então, nós temos que ter muito cuidado com isso e desde o período Fernando Henrique [Cardoso] a Venezuela vive em instabilidade. E qual foi o papel da chancelaria brasileira? Da diplomacia brasileira? Criar um colchão de proteção da democracia venezuelana, criando condições para que eles saiam da crise institucional. E isso é desde o tempo do Fernando Henrique Cardoso. Então, nossa postura? A crise existe, ela é grave. Ela coloca em risco as instituições. Não há entendimento. O papel do Brasil como líder da região é mobilizar ONU, OEA, os vizinhos todos da Venezuela pra criar as condições de superação, e não ameaçar a Venezuela. Inclusive com base militar americana em território brasileiro. Coisa que nunca aconteceu e não precisa acontecer.

Aproveitando essa questão Estados Unidos, o Trump falou recentemente que a relação comercial do Brasil com os Estados Unidos é um pouco injusta. Queria saber se você sentaria com o Trump para conversar sobre acordos comerciais, e qual a prioridade do Brasil em uma relação Brasil x Estados Unidos?
Olha, na verdade nós temos que ter… O Brasil é grande demais pra adotar uma política externa. Na verdade, é um guarda-chuva de relações que nós temos que cultivar pra melhor. Então, pro Brasil é muito importante o Mercosul. Pro Brasil é muito importante a América do Sul. Os BRICS são muito importantes pro Brasil. A relação com a União Europeia está em risco. Várias lideranças europeias já disseram: "Se o Bolsonaro for eleito, esquece acordo Mercosul e Europeia. Vamos adiar". Em função dos riscos que ele representa pro continente. E a relação com os americanos também é boa. Sempre foi boa.

A China cresceu na parceria comercial com o Brasil? Cresceu. Mas por características da industrialização chinesa e da necessidade que eles têm dos produtos produzidos aqui. Sobretudo, alimento. Eles alimentam 1,4 bilhão de pessoas. Então, eles precisam do Brasil, que tem o melhor contexto para produção de alimentos no mundo. Então, isso tudo tem que ser muito pensado. Agora, nós não podemos entrar na onda de quem não quer o bem do continente. Nós não precisamos aqui. Nós estamos há 140 anos sem guerra. Tudo que a gente não precisa é uma confusão com um vizinho. Lembrando que o mundo olha pra cá com simpatia e tal, mas o petróleo que foi descoberto no Brasil, e as reservas, que são as maiores do mundo na Venezuela, vão fazer com que a cobiça venha pra cá também. A cobiça do mundo em relação às nossas riquezas. Então, é a hora da gente ter clareza sobre o nosso tamanho e não importar conflitos que não são nossos. E ajudar conflitos que são nossos e precisam da liderança do Brasil para serem equacionados.

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O presidenciável Fernando Haddad (PT). Foto: Larissa Zaidan/VICE

Vou agora abordar dois assuntos que são muito importantes pro nosso público, que é o pessoal mais jovem. O primeiro é o aborto. A Dilma era favorável ao aborto, mas não conseguiu tocar essa pauta com sucesso. Queria saber como um eventual governo seu abordaria essa questão.
Olha, eu vou responder muito sinceramente. Eu acho que é muito difícil o executivo, o Poder Executivo, ter protagonismo nesse debate. Muito difícil do ponto de vista institucional. Nós temos que compreender que é um tema muito complexo, que divide opiniões, que lida com paixões e valores que nós temos que compreender. E esse debate tem que acontecer [com] a sociedade, com o Congresso Nacional, com o Supremo Tribunal Federal, uma vez que envolve direitos individuais. É um contexto muito mais amplo que um presidente achar que ele vai resolver uma questão como essa, tão complexa. Não vai acontecer. O que cabe ao Executivo? Nós temos que zelar pra que essa questão, enquanto está sendo discutida, seja tratada como questão de saúde pública. Porque as pessoas morrem. Morrem. E a gente precisa ter uma política, educar as nossas jovens e os nossos jovens em relação ao seu próprio corpo, falar das consequências da gravidez precoce, falar das consequências das doenças sexualmente transmissíveis, educar as pessoas pra que elas efetivamente consigam planejar suas próprias vidas, né. Planejar uma gravidez no momento certo da vida, quando ela achar adequado. Então, a política pública tem que ser toda voltada do Executivo pra saúde e educação.

E tá faltando isso. Tá faltando educação, esclarecimento, educação. Os nossos jovens não estão sendo expostos ao conhecimento científico que os ajude a compreender como lidar com o próprio corpo. O mesmo vale em relação às drogas lícitas e ilícitas. Às vezes a gente fala só das ilícitas, mas o efeito do álcool sobre o organismo, o sedentarismo, o consumo de alimentos pouco saudáveis. Nós temos que lidar mais com isso. Tornar isso parte do dia a dia do currículo escolar. Com mais educação. E cuidar de quem se tornou usuário de droga, de quem às vezes praticou o aborto e está à beira da morte por falta de assistência. Então, nós temos que ter uma outra visão um pouco mais generosa, mais abrangente. E o debate vai acontecer na sociedade, já acontece.

É que parece cada vez mais difícil, né. A gente tem o que eles chamam de "kit gay", de ideologia de gênero. Com o Congresso ficando ou permanecendo conservador, é difícil a gente conseguir avançar nessas pautas.
Sim, mas são eleitos pelo povo… essas pessoas. Você vai… Não tem outra fórmula. É aprofundar o debate. É fazer a ciência chegar à escola, aprimorar os nossos mecanismos de comunicação, é cultivar valores. É um processo isso. Não é uma eleição presidencial que vai… Até porque quatro anos depois vai ter outro presidente lá. Ou oito anos depois. Então, não pode ser dessa maneira. Tem que ser uma coisa muito mais robusta do ponto de vista institucional pra que as decisões sejam tomadas com maturidade. Então, o envolvimento social tem que ser muito maior. Isso começa educando. Educando as pessoas e cuidando daquilo que saiu dos eixos. Tem alguém com a saúde prejudicada, com risco de vida, nós temos que acolher com o sistema de saúde.

Eu ia abordar as questões das drogas também, né. No seu plano de governo você menciona experiências internacionais. Eu imagino, por exemplo, que a gente pode pensar no Uruguai com relação à maconha. Qual que é a chance de um provável governo seu também abordar essa pauta, de regulamentar, de descriminalizar?
Já existe a lei de 2006 que está sendo julgada agora nas cortes superiores, que eu penso que vai ser um avanço em relação a isso. Eu sempre fiz uma grande distinção entre o grande traficante, aquele que efetivamente está enriquecendo e que raramente mora na comunidade, em geral moram em coberturas muito bem localizadas, e o usuário, que muitas vezes é vítima de um processo de aliciamento. A gente sabe como essas coisas acontecem. Então, nós temos que saber diferenciar, e a lei de 2006 era uma chance, infelizmente ela foi mal usada e, agora, a jurisprudência, que é a interpretação da lei, vai ser consolidada. Eu acho que nós temos aí uma oportunidade de avançar.

Um dos argumentos do discurso antipetista é essa questão do controle social da mídia. Eu li seu plano de governo, mas eu queria que você me explicasse um pouco. As pessoas ficam meio apreensivas. O que, afinal, é esse plano de controle... "Novo marco regulatório da comunicação social eletrônica"?
É, basicamente, o que acontece na França, Inglaterra e Estados Unidos. Esses países são o berço da democracia ocidental e eles têm determinadas leis que impedem concentração de propriedade. Por exemplo, praticamente todos os estados brasileiros têm uma família que detém a TV, a rádio e o jornal de maior circulação daquela região. Isso, num mundo desenvolvido, é proibido. Por quê? Pra que as pessoas sejam expostas a uma pluralidade de informações maior.

Uma família não pode deter tudo de um determinado estado. E a gente sabe que no Brasil é assim. Todo estado tem uma família que detém tudo. Em geral associado ao poder político. Esse tipo de coisa não é saudável pra democracia e por isso que é proibido nos países de tradição liberal. Então, basicamente, é disso que nós estamos tratando. Tem uma outra coisa importante. Esses grupos de comunicação no Brasil entraram com uma ação judicial no Supremo pra tirar do ar os sites em língua portuguesa mantidos por agências internacionais. Por exemplo, não sei se é o caso da VICE. Certamente é, né.

Certamente.
Mas o El País, vocês próprios, a BBC Brasil, a Deutsche Welle Brasil, todos esses sites, na visão dessas famílias, deveriam ser proscritos, proibidos no Brasil. E nós entendemos que tem que ter uma lei dizendo que não, que esses sites são bem-vindos, eles são em língua portuguesa, mas são sites noticiosos de excelente qualidade. Aliás, uma qualidade superior aos nossos jornais, no meu entendimento. E deveriam ser mantidos. Não poderiam ser proibidos. Então, são leis como essa, que garantem mais pluralismo, que nós estamos defendendo. Sobretudo essa ação junto ao Supremo me preocupa muito, porque o Brasil seria talvez o único país do mundo a proibir um El País, uma VICE, uma BBC de publicar em língua portuguesa notícias sobre o Brasil. Seria, na minha opinião, um escândalo internacional. E, talvez, o Brasil fosse visto aos olhos da comunidade internacional como um país que, definitivamente, abraçou uma espécie de ditadura simulada de comunicação.

"Não à ditadura. Não à tortura. Não à cultura do estupro. Não à promoção da violência."

Bom, nosso tempo é curto e, pra fechar, eu queria fazer uma pergunta mais rápida, que é: qual é o futuro que você vislumbra do Brasil com Haddad presidente e com Bolsonaro presidente?
Com Bolsonaro eu não vislumbro futuro. Nenhum. E, comigo, eu tenho dito o seguinte: eu falo uma coisa que meu pai aprendeu do meu avô. Que uma pessoa tem que acordar e saber pra onde ir. Querendo dizer o seguinte: se você acorda e não tem um emprego, não tem uma matrícula em universidade, escola técnica, não leva o teu filho pra creche... Você acorda e não tem pra onde ir, o país tá com problema. Não é só aquele indivíduo que tá com problema. E, hoje, muitos brasileiros acordam e não têm um destino. Então, pra mim, trabalho e educação são duas coisas que deveriam nortear qualquer governo. Garantir oportunidade de trabalho e de educação pra todo mundo. Foi isso que eu fiz como prefeito, como ministro, foi isso que eu procurei fazer, ampliar as possibilidades porque… Outra coisa que aprendi com os meus pais. Deus deu talento pra todo mundo. Mas cabe a nós criar as oportunidades pra que esse talento apareça. Se a gente sufocar as pessoas, o talento não vai brotar. Todo mundo tem um talento. Vamos descobrir o talento de cada um porque aí todo mundo vai poder se desenvolver. Então, se nós nos apegarmos a isso, que todo mundo tem que ter uma oportunidade de trabalho e uma oportunidade de educação, acho que não tem crise possível pra esse país. E outra é abraçar com força a liberdade e a democracia. Não à ditadura. Não à tortura. Não à cultura do estupro. Não à promoção da violência. Por isso que eu acho que meu adversário não tem futuro nenhum. Porque ele só promove os piores valores pra uma sociedade que se pretende desenvolvida.

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