Todas as fotos: Brazil Pump Festival/Divulgação.

A ascensão, queda e renascimento das máquinas de Pump It Up no Brasil

Como o antigo jogo rítmico de dança sobreviveu até hoje para se tornar um esport.

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fev 27 2018, 12:00pm

Todas as fotos: Brazil Pump Festival/Divulgação.

Na madrugada da Campus Party Brasil 2018 — entre infinitos cabos e nerds amontoados no pavilhão do Anhembi — uma fila meio desorganizada chamava atenção naquela ativa noite campuseira, cheia de pessoas inquietas e com olhos bem atentos em um homem de 20 e tantos anos uniformizado que movimentava-se rapidamente em cima de um pad metálico com cinco botões coloridos. “Nossa, eu não acredito que vocês tem um desses”, falavam aqueles que passavam por ali. “Posso jogar também?”

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O homem era Brunno Leonardo, 28 anos e o uniforme ele divide com Vitor Pereira, de 32 anos. Eles se conheceram anos atrás em um fórum online sobre Pump It Up (ou só “Pump”): um jogo rítmico de dança produzido pela empresa coreana Andamiro, que chegou ao Brasil nos anos 2000 distribuída pela DiverBras. De lá até aqui foram diversos campeonatos, encontros, farras, e muitos pisões nas setinhas. Mas hoje, e durante essa Campus Party, eles se reencontraram como o time de Pump It Up “WP”, uniformizados e treinando, para entreter e farrear com o público da CPBR.

Vitor, Elisa e Brunno, da equipe WP.

Entre um passinho e outro, a VICE Brasil conversou com os jogadores, que contaram sobre a formação da equipe em 2005. “Eu criei o time sem pretensão nenhuma, em Santos. Era eu e mais três pessoas", explicou Vitor, capitão e fundador do time. "O Brunno eu conheci depois em um fórum de Pump, e convidei ele para participar. E nesse tempo até hoje, o que teve de mais forte foi a amizade. A gente se trata como irmãos, todos do grupo, e a gente tem muito fácil acesso uns aos outros, então andamos muito tempo juntos como amigos mesmo, e treinando.”

“Agora no Brasil existem mais ou menos só 20 pessoas que tem uma máquina de Pump completa em casa”, contou Brunno, que possui um pad metálico da Pump produzido por uma empresa brasileira que substitui parcialmente a máquina completa do jogo, que ele levou para a Campus Party em 2018.

As máquinas de Pump It Up foram febre por todos os anos 2000, mas foram aos poucos desaparecendo junto com os arcades que as mantinham. A falta de inovação por parte da produtora Andamiro também contribuiu para que a máquina ficasse cada vez mais escassa, e o público foi afunilando-se até sobrar apenas aqueles mais apaixonados.

“O declínio da Pump está diretamente associado ao declínio do arcade, porque já não era um modelo de negócio interessante, por conta das LAN houses. Parte da queda da Pump também foi por conta dos games de movimento com o Kinect” explicou Vitor.

“A maioria das músicas são k-pops, música coreana, e daí vem esses jogos internacionais com música pop, como Just Dance e Dance Central, e acabaram caindo mais no gosto das pessoas.”

“Qualquer casa tem um Kinect, qualquer casa tem um Wii. Você não precisa sair de casa ou comprar uma máquina cara."

Além do fim dos arcades, a Pump It Up e sua comunidade também enfrentaram outros desafios na sua “era das trevas”. Apesar das tentativas da Andamiro de lançar versões mais acessíveis do jogo — como o tapete de plástico e tecido para PC — a experiência não era a mesma e os jogadores estavam sedentos por novidades. A própria empresa nunca teve abertura para conversar com sua comunidade e ouvir sugestões e críticas, o que tornava tudo ainda mais complicado.

“Qualquer casa tem um Kinect, qualquer casa tem um Wii. Você não precisa sair de casa ou comprar uma máquina cara. A Pump não acompanhou essa evolução pois precisa da máquina pra funcionar. Faltou inovação por parte do desenvolvedor”, disse Vitor.

O descaso com o público era pior no Brasil. Por conta de sua cultura de pirataria que floresceu juntamente com a chegada da Pump nos anos 2000, o mercado local era menosprezado pela Andamiro. “Teve pirataria no passado, o pessoal hackeava os CDs. E agora em 2015 também teve pirataria. Tanto é que isso rendeu uma punição para o Brasil em termos de participação de campeonato mundial”, contou Vitor sobre o último World Pump Festival em que o Brasil não pode concorrer, como forma de punição pela pirataria constante do jogo no país.

Brazil Pump Festival 2016.

Ainda é possível comprar uma máquina de Pump It Up completa e com todos os adereços e peças — luzes, pad duplo, suporte traseiro e mais —, mas apenas vinda do exterior. Dentro do país o mais comum é comprar máquinas usadas e em péssimo estado de conservação; ou optar pelos pads metálicos caseiros fabricados por aqui.

“O nosso maior problema aqui é quando a máquina chega na alfândega e você tem que declarar o imposto dela. Que é caríssimo.” explicou Vitor. “A máquina atual, versão de 2018, convertendo com impostos e afins, dá aproximadamente 80 mil reais. E um pad caseiro você pode comprar por coisa de 800 reais.” Já Brunno sonha com uma máquina completa: “Eu quero ter uma, já tenho o espaço em casa para ter, mas o que falta é a grana né?"

Brazil Pump Festival 2017.

Mesmo com todas as dificuldades, o nicho e a comunidade de Pump It Up sobreviveu, e de uma forma muito mais romântica do que se imagina: “Tivemos a nossa era das trevas, só que as pessoas ainda tinham a amizade”, disse Vitor.

O renascimento da cena de Pump veio com o surgimento de grupos online em torna da comunidade, que continua a se comunicar por fóruns, grupos do Facebook e pessoalmente, nos eventos e campeonatos. “As comunidades nasceram antes da ‘era das trevas’ de Pump. Se juntar todo mundo que gosta de falar sobre isso fica muito mais interessante.” contou Brunno.

Brazil Pump Festival 2017.

Os principais campeonatos no país são minúsculos se comparados a eventos de comunidades competitivas maiores, como as de League of Legends ou Counter-Strike: Global Offensive.

Alguns dos campeonatos mais famosos têm nomes incríveis, como o Netão, que acontece uma vez por ano em cidades do nordeste Brasileiro; a Semana Santa, em Belo Horizonte; e o Quatro Estações, que acontece quatro vezes em várias regiões do Brasil. Um dos principais eventos nacionais é o Brazil Pump Festival, ou BRPF, que Brunno e Vitor participam desde o começo.

“Mesmo não havendo as máquinas, mesmo com a pirataria, o pessoal se tornou muito unido por conta de alguns eventos. Um deles é a Semana Santa, que junta gente de todo o Brasil pela amizade mesmo”, disse Vitor. “Por conta desses campeonatos que voltamos a ter esperança em organizar um grandes campeonato nacional.”

Brazil Pump Festival 2017.

Mesmo com campeonatos pequenos e sem patrocinadores, para Vitor e Brunno a falta de prêmio não parece ser um problema — mas, obviamente, cairia muito bem.

“No Brasil a premiação é praticamente simbólica. É muito difícil conseguir patrocínio em um esport com poucos adeptos. Normalmente são medalhas, quando muito uma quantia pequena levantada pelos jogadores.” explicou Vitor. “A premiação internacional, como no mundial feito pela Andamiro, já chegou a pagar 30 mil dólares", disse Brunno. “Estamos torcendo para que, caso tenha um WPF (World Pump Festival) esse ano, nós consigamos vaga.”

Troféu e medalhas do Brazil Pump Festival 2017.

E porque não migrar para jogos de dança mais atuais como o Just Dance e Dance Central, que também tem campeonatos internacionais e nacionais? A diferença de mecânica entre esses jogos e a Pump clássica é maior do que parece.

“A Pump é um sistema em que você pisa em setas e acompanha a música, diferente do Kinect e do Just Dance, em que você copia uma coreografia", explicou Vitor. "Fora que é um exercício físico bem intenso e diferente do Kinect, que trabalha muito a parte do reflexo e agilidade.”

“Se for comparar, a Pump está mais próxima de um Guitar Hero do que de Just Dance. Basicamente é um Guitar Hero com os pés”, completou Brunno.

Brunno e Vitor ainda tem esperança e enxergam a Pump como um esport com potencial de crescimento. “Precisamos falar que é um esport, que existe, e que deve ser considerado tanto pelo pessoal que quer jogar quanto pelas empresas. A gente tem uma dificuldade expressiva de se comunicar com as empresas que fornecem os jogos. Eles são muito fechados, e na verdade a gente só quer acrescentar e aprender sobre coisas que os técnicos daqui não tem conhecimento, referentes a manutenção das máquinas, por exemplo", contou Vitor. "Assim, a gente não consegue treinar direito, a gente não consegue fazer bons campeonatos, e ai a comunidade vai decaindo.”

Mesmo com os obstáculos, Brunno não se vê largando a sua grande paixão de tantos anos. “Eu não me vejo parando de jogar. Só se eu quebrar uma perna, mas depois vou voltar.”

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