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'Antifa', o videogame que quer ensinar sobre antifascismo para os gamers

No game, os jogadores lutam contra caricaturas ridículas do regime de Trump, mas tem uma mensagem política séria também.

por Arvind Dilawar; Traduzido por Marina Schnoor
03 Dezembro 2019, 10:00am

Imagem: Wobbly Dev.

Bem-vindo a Dumpland, onde Humpel Dumpty reina supremo! Comandando de milhares de televisões espalhadas pelo país, Dumpty mandou seus capangas para prender partes da população em uma escuridão impenetrável. Como “Antifa”, nosso herói com máscara de gás segurando um coquetel molotov, você sabe o que precisa fazer: libertar as pessoas destruindo as TVs de Dumpty e esmagado – literalmente – seus carcereiros pulando na cabeça deles.

Esse é o mundo de Antifa, um novo videogame que deixa os jogadores lutarem contra um Trump não muito disfarçado em todo seu ridículo. Os jogadores destroem televisões para ganhar pontos e “coquetéis apimentados” que colocam fogo nos capangas, tudo para libertar os habitantes presos de Dumpland e confrontar o próprio Humpel Dumpty no final. Claro, é uma sátira bobinha, mas as políticas antifascistas do criador não são brincadeira.

Antifa foi criado por um desenvolvedor que usa o pseudônimo Wobbly Dev. Lançado de graça no itch.io, uma plataforma popular para videogames independentes, o jogo estilo Super Mario World visa ser uma introdução simpática ao antifascismo para gamers, que podem só conhecer o movimento pela cobertura sensacionalista da mídia.

“O impulso por trás de fazer o jogo Antifa foi simplesmente a falta de jogos de computador abertamente antifascistas”, disse Wobbly Dev. “Considerando o entendimento equivocado geral da importância histórica e contemporânea do movimento antifascista, eu queria fazer um jogo que fosse acessível, fofo e inconfundivelmente antifascista em seu conteúdo.”

Os jogadores podem jogar Antifa como qualquer outro videogame clássico, quebrado caixas para ganhar bônus, pulando nos inimigos para esmagá-los e encarando um chefe em cada fase. Mas as políticas do jogo são igualmente aparentes. No mundo criado por Wobbly Dev, o jogador tem que derrotar o tirano laranja que fica tagarelando na televisão, empurrando seus seguidores para fazer o trabalho sujo por ele. Algo não muito distante do que os antifascistas dos EUA vêm dizendo desde a eleição presidencial de 2016 – ou seja, que Trump está alimentando uma nova onda de fascismo que precisa ser confrontada pelas pessoas comuns para ser derrotada.

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Antifa. Imagem: Wobbly Dev

“O jogo se conecta com minha política, já que sou antifascista”, diz Wobbly Dev. “Qualquer pessoa que não é pró-fascismo tem que anunciar com orgulho que é antifascista.”

Uma referência política um pouco menos óbvia pode ser encontrada nos créditos de abertura de Antifa, antes da tela de início. Ali Wobbly Dev incluiu o lema e logotipo dos Trabalhadores Industriais do Mundo [IWW em inglês], um sindicato trabalhista internacional do qual ele é membro e representante. Os membros dos IWW também são conhecidos como “Wobblies”, por isso o pseudônimo Wobbly Dev.

Segundo Wobblies of the World: A Global History of the IWW, o sindicato foi fundado em Chicago em 1905 e logo se tornou conhecido por seu radicalismo. Numa época em que mulheres, pessoas não-brancas e trabalhadores “não-qualificados” geralmente eram excluídos do movimento trabalhista, o IWW não só aceitava todos como membros da classe trabalhadora, mas também era abertamente militante antifascista. Wobblies do começo do século 20 se envolviam em brigas de rua contra a KKK e foram voluntários na Guerra Civil Espanhola contra o golpe fascista de Francisco Franco. Mais recentemente, os membros do IWW desafiaram supremacistas brancos em Charlottesville e viajaram para a Síria para lutar contra o ISIS.

Na história antifascista do IWW, Antifa pode ser uma contribuição pequena mas única. A dinâmica do jogo é familiar pra qualquer um que já jogou um jogo de plataforma 2D como Super Mario. Suas opções básicas são se mover para direita ou esquerda e pular por cima ou em cima de vários oponentes e obstáculos. A única adição são os coquetéis molotov mencionados, que podem ser jogados nos capangas para os reduzir a cinzas.

O desafio é acertar seus movimentos para evitar os bandidos e suas balas. Apesar de ter jogado literalmente uma dúzia de vezes, não consegui passar da primeira fase, que culmina com o minichefe Warden Klunke – uma caricatura do “Xerife da América” David Clarke.

Conseguindo passar da primeira fase de Antifa, você vai ter que esperar Wobbly Dev lançar as próximas fases. Das prisões de Dumpland, os jogadores vão viajar por esgotos, áreas rurais e cidades até chegar na Dumpel Tower, com cada ambiente sendo uma fase distinta, com seus próprios inimigos e chefes para derrotar.

“A primeira fase da prisão é só o começo dos horrores”, diz Wobbly Dev. “As próximas fases vão revelar um mundo maior contra o qual o jogador tem que lutar.”

Antifa não é uma revolução nos jogos indie, mas tem sucesso em seus próprios termos: trazer o antifascismo para os gamers.

“Acho que o aspecto satírico de Antifa age como um escudo – ou talvez uma introdução palatável para a mensagem”, ele diz. “Colocando os horrores do autoritarismo numa estética de desenho animado, acho que tenho mais margem para manobra, tematicamente, e uma chance melhor de espalhar a mensagem: 'Ei! Fascismo é ruim! Antifascismo é bom!' Não deveria ser tão difícil assim.”

Matéria originalmente publicada pela VICE EUA.

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