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Como Foi Feito: Giorgio Moroder com “I Feel Love”

No inebriante verão de 1977, Giorgio encarou o fundo do abismo eletrônico, sacando o espírito da máquina e criando o primeiro robô com emoção. Aqui ele falou com a gente sobre o que mudou de lá pra cá

por Davo McConville
12 Maio 2014, 5:12pm

Giorgio Moroder está com 74 anos de idade e nunca foi tão requisitado como DJ. No palco externo de Asheville, Carolina do Norte, entre plumas de fumaça, um homem de rosto gentil com cabelos brancos vai torcer os botões do Ableton Live com uma paixão que vai além dos ecos plásticos dos DJs-produtores-superstars de hoje em dia. Giorgio está aqui para fechar o segundo dia do festival de tecnologia-e-utopia-sintetizada Moogfest. A música pela qual Giorgio é conhecido é uma síntese no amplo sentido da palavra – uma mistura gloriosa de uma robótica trêmula fundida aos vocais soul superlativos de Donna Summer, ela se tornou um diagrama para o futuro da música (dance), na qual o virtuosismo insular do guitarrista solo é substituído pelo pulso cadenciado de um sintetizador Moog. Assim como seus contemporâneos do Kraftwerk, Giorgio encarou o fundo do abismo eletrônico, mergulhou e tocou a alma do instrumento, o espírito da máquina, criando o primeiro robô com emoção.

Nos encontramos com Giorgio depois de um longo dia de ginástica intelectual em torno das luminárias montadas no Moogfest para discutir sua composição mais famosa, “I Feel Love”. Lançada no inebriante verão disco de 1977, ela capturou perfeitamente aquele estado de espírito das duas da manhã, uma névoa sintética onírica com um coração pulsante. E ela foi totalmente criada no Moog Modular, o qual coincidentemente foi relançado pela Moog no Moogfest.

Noisey: Muito obrigado por disponibilizar o tempo pra conversar conosco.

Giorgio: Que dia! [risos] Você conta a mesma história de novo, e de novo... e por aí vai.

Não vamos falar sobre coisa alguma das mesmas histórias desta vez. Podemos evitar qualquer coisa sobre a qual você já tenha falado hoje...

Não, não, não! Sabe, são sempre as perguntas corriqueiras, mas fazer o quê. Você me pergunta apenas e talvez eu te dê respostas diferentes.

Eu vi a sua palestra mais cedo...

Oh, então você já sabe de tudo.

Não mesmo! Podemos falar em detalhes sobre “I Feel Love” e o equipamento que você usou?

“I Feel Love” foi inteiramente feita com o grandão, os pedaços do Moog todos conectados. O Modular. Eu tive sorte na ocasião porque contei com um grande engenheiro, Robbie Wedel, eu acho, que foi capaz de extrair o som pra mim. Porque naquela época você precisava de 12 conexões entre os osciladores e então cada som levava cerca de meia hora. Daí eu queria criar sons como chimbau, então criamos um ruído branco, cortamos certas frequências fora, depois foi a caixa e depois outra peça percussiva. Então, na verdade pra aquela acho que usei um dos sintetizadores italianos, que já tinham os troços polifônicos. No começo, ao menos, acho que usei aquilo. Mas todo o resto foi com o Moog.

Você fez cada som de bateria nele também?

Fiz todos os sons de bateria exceto o bumbo. O Moog não conseguia me dar um som com impacto, ele me dava “ump” ao invés de “dum”. Então isso foi a única coisa, e foi Keith Forsey que tocou. Ele teve um trabalho e tanto, um trabalho imenso, já que o baterista está acostumado a tocar a bateria, certo? Então agora ele tem que se sentar lá e fazer apenas isso [simulando tocar apenas o bumbo]. Daí eu acho que ele levou uns cinco ou seis takes pra finalizar, porque isso é tão antinatural, ele não podia criar barulho algum.

A tecnologia disponível para os músicos agora é tão mais avançada do que a que vocês tinham.

Oh, agora é uma moleza!

Keith Emerson tilintando os circuitos.

Você acha que foi importante ter sido difícil pra você?

[Risos] Bom, não acho que tenha sido importante, mas pensei, mãos à obra! Foi um desafio e tanto, na verdade. Especialmente porque não queria começar a compor uma canção tradicionalmente num piano e daí dizer, agora eu gravo os canais. Pensei, eu gravo os canais antes. E comecei com a linha de baixo, “dum-dum-dum-dum”. E a coisa boa foi que a sequência com o “dum-dum-dum-dum”, se você tocar um Dó, você escuta “dum-dum-dum-dum”, daí você toca um Ré e você tem (tom mais alto) “dum-dum-dum-dum”. [Giorgio Moroder então canta pro Noisey a linha de baixo de “I Feel Love”. Muita emoção se segue.]

E levou muito tempo pra finalizar as faixas. Porque naquela época o Moog era totalmente... qual a palavra? Desafinado, todo o tempo. Eu tinha que voltar e “dum”, “dum”, “dum”, afiná-lo de novo. E tínhamos um click, então o click na fita se conectaria, acho que era um sino ou alguma coisa, que iria fazer com que o Moog disparasse o programa. Então eu voltava oito compassos talvez, começava, via se estava sincronizado. E aí em algum ponto, gravava outros oito ou dez compassos, e então começava de novo, afinava, de volta de novo.

Como Giorgio poderia ter feito agora: num Nintendo DS.

Isso é igual às técnicas que os Beatles e o George Martin tinham que bolar pra superar suas limitações e assim produzir gravações melhores. Então parece que as pessoas agora conseguem isso tão facilmente, que talvez não estejam produzindo álbuns com profundidade suficiente.

Sim, isso é certo... Você não tem que ser um gênio agora pra fazê-lo. Na verdade, até tenho um cara que trabalha pra mim agora que não toca o teclado. Ele só insere os números. Fizemos a mesma coisa com os números no disco E=MC2. Porque tínhamos um computador chamado Composer. Onde tínhamos, como um telefone, “dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó”. Então você inseria “ding-ding ding ding” e ele então tocava. Também era muito mecânico. Fazer “I Feel Love” foi demais porque foi a primeira, mas daí percebi em E=MC2 que era um pouco preciso demais, mecânico demais. E agora, mesmo quando você grava digitalmente, meio que você toca o que quer, não programa. Você coloca o número de erros. A cadência que você quer, então fica mais misturado. A coisa com o Composer era muito, muito precisa, era um pouco fria.

Você mencionou o JP8 (1981) – assim que a nova tecnologia aparecia, você se apressava pra adotá-la?

Sim, especialmente porque o Moog sempre era um problema e tanto. Eu precisava do cara que – bem, na época eu estava morando em Munique, então eu tinha que voltar porque ele era um dos únicos que eu conhecia que tinham o equipamento e eram capazes de fazê-lo funcionar. Mas assim que o Minimoog saiu, e o JP8, o JP2, o Prophet. E depois mais tarde, comprei um instrumento muito bom chamado Synclavier [abaixo], que na época era o melhor de longe.

E caro.

Oh, Deus. Era mais que cem mil, eu acho [para referência, US$ 100.000 em 1977 seriam US$ 379.151,57 em 2013]. Mas eu tenho um amigo que ainda o usa, porque ele tem uma tonelada de ótimos sons. Porque quem quer que tenha construído aquele conseguiu sons ótimos, incríveis.

Então o que você usa agora?

Só uso os sons internos, como... Qual é aquele? Stylus, para a bateria. X-alguma coisa.

Você usa Logic, ou Ableton?

Oh, não, eu uso Pro Tools. É fácil, o processo de gravação é perfeito. A mixagem é – quase todo mundo mixa no Pro Tools, então por que não gravar com ele. Alguns gravam com o Logic e daí transferem, algo que acho meio bagunçado. E se você tiver que voltar, então? E no fim das contas, acho que todos os programas são muito bons.

Você vai discotecar com o Ableton hoje à noite?

Sim, vou.

Devia ser diferente de quando você começou a discotecar nos anos 60.

[Risos] Oh, na época você tocava discos de 45 rpm. Era bem diferente. Mas fiz aquilo muito pouco. Eu tocava e discotecava um pouco, mas não acho que tenha feito isso por mais de um ano. Talvez uma vez por semana pra fazer algum dinheiro.

O que você acha da música de 2014. Ela te parece futurística?

Sim. Os sons são muito bons, os efeitos são bons. Alguns efeitos que eu não teria sonhado ser capaz de criar. E acho que muitos destes efeitos chegaram à EDM através de erros. Eu estava falando com o italiano, Benni Benassi, que foi um dos criadores do “uumph-shaa” [side-chaining, técnica de compressão]. E ele me disse que aquilo foi uma coincidência. Ele tinha um compressor que enlouqueceu e de repente aquele era o som.

Obrigado, Giorgio.

Um prazer.

Davo pediu formalmente que Giorgio o adotasse como neto, e ele está no Twitter –

@battery_licker.

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