Bem-vindo ao Irã, país onde curtir metal pode acabar matando você

No regime islâmico radical, acusados por “blasfêmia” ou “adoração ao diabo” podem encarar uma longa pena de prisão — ou até mesmo a morte.
29 Março 2016, 11:00am

Ilustração de Colleen Tighe

“Lembro de quando tinha apenas 14 anos, estava com uma camiseta do Scorpions, de rolê pelo parque local. Os policiais me pararam e não me deixaram passar até que um amigo meu foi pedir para que meu pai levasse outra camiseta, para que eles pudessem rasgar a do Scorpions”, relembra B., headbanger iraniano que pediu para continuar anônimo. “O medo de entrar em encrenca era constante. Era uma adrenalina, e pra nós, parte de ser um headbanger era ser também um rebelde”.

Usar jeans e couro te dá dor de cabeça no Irã, e não estamos falando só de uns tapinhas e xingamentos. Em um país de regime islâmico radical, qualquer um culpado de “blasfêmia” ou “adoração ao diabo” pode encarar uma longa pena de prisão — ou mesmo a morte. Um caso recente que tem bombado na blogosfera do metal é um exemplo vivo disso. Dois integrantes da banda metaleira de groove iraniana Confess, Nikan Siiyanor Khosravi e Arash 'Chemical' Ilkhani foram presos em novembro de 2015 acusados de “insulto às santidades islâmicas” e “divulgação de propaganda contra o Estado”. Os homens — que supostamente estão ainda sob o domínio das autoridades — podem passar até seis anos na prisão.

Por mais que poucas informações sobre as prisões tenham sido divulgadas, Raha Bahreini, pesquisadora da Anistia Internacional especializada no Irã, confirmou que por mais que a banda não esteja correndo risco de morte, como havia sido divulgado na mídia ocidental, ambos os integrantes poderiam se tornar vítimas da repressão violenta do Irã à liberdade expressão. Para você entender, o país se tornou uma República Islâmica em 1979, após a revolução islâmica, sendo liderado por uma elite clerical extremamente conservadora. Qualquer espécie de ocidentalização e prática moderna é proibida caso não esteja de acordo com a interpretação da lei islâmica por parte do regime.

“A proibição de música no Irã vai além da arte ocidental”, explica Raha. “Qualquer música que não seja licenciada pelas autoridades é considerada ilegal. Isto inclui cantoras-solo proibidas de mostrar sua voz desde a Revolução Islâmica; artistas que não atendem às autoridades [regras], e também artistas que tratam de temas tidos como tabu ou criticam assuntos sócio-políticos”.

B. saiu do Irã há seis anos, e em seu papel de fã de metal dos anos 90 antes da internet, ele explica como era quase impossível conseguir música com a repressão total do regime à liberdade. “Não existiam lojas de discos, revistas, nenhum acesso ao mundo exterior”, lembra. “Literalmente tudo era proibido e se você fosse pego com qualquer ‘música ocidental’, estava em maus lençóis”.

A internet agora tem papel de destaque em termos de acessibilidade, e por mais que o governo censure sites e redes sociais, B. afirma que “os bloqueios têm suas limitações”. Mas essa acessibilidade à música proibida no Irã ainda é muito mais restrita do que no ocidente. As redes sociais do Confess, por exemplo, são monitoradas pelo governo desde a prisão.

B. comenta que não mudou muito desde então. “Cópias e downloads são a principal fonte de música no Irã. Não podemos pedir nada, e não é possível nem mesmo utilizar o PayPal. Não ocorrem shows. De tempos em tempos, alguns amigos se juntam e tocam uns para os outros — é totalmente underground. Claro que existem bandas, mas elas precisam de permissão do governo. Logo, não é o metal como o conhecemos. As pessoas eram presas naquela época e continuam sendo, como se pode ver. Não ocorrerá nenhuma grande mudança contanto que o Islã exista lá, te garanto”.

Desde 1989, o país tem sido controlado pelo Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei, que controla o poder judiciário, a mídia e o exército. Frequentemente o país sofre pressão internacional por parte dos veículos de comunicação e grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, e seu alto índice de execuções o colocou entre os cinco países que mais matam no mundo. A lei da blasfêmia é coisa séria; insultar o profeta Maomé é crime capital. Houveram diversos casos documentados em que a pena de morte foi usada para condenar pessoas por crimes “ridículos”, de acordo com Raha. Mohammad Ali Taheri, guia espiritual, foi condenado à morte no ano passado sob a acusação de “espalhar corrupção pela Terra”. Ele está em seu quinto ano de confinamento solitário, e aqueles que os apoiam publicamente também correm risco de prisão.

Um caso ainda mais recente envolvendo artistas inclui a acusação de dois músicos e um cineasta, que como a dupla do Confess, estão correndo risco de serem presos por “insulto às santidades islâmicas” e “atividades audiovisuais ilegais”. A pressão internacional, porém, é uma força a ser considerada em casos como esses, afirma Raha; ela crê que quanto mais pessoas se esforcem para criminalizar violações de direitos humanos, maior impacto seus protestos podem ter.

Ainda assim, de acordo com o ativista iraniano Reza, que também deixou o país há alguns anos, o sistema judiciário é corrupto e as punições variam de acordo com o humor do juiz. “É uma loucura” explica. “Há todo tipo de corrupção, e não há júri, ou seja, o juiz conta só com o seu julgamento”.

Reza também explica de que todas as subculturas no país, os headbangers sofrem mais. “Músicos de metal passam por problemas sérios e esta não é a primeira vez — chama tudo de ‘música satanista’”, comenta. “Há outros gêneros que não sofrem como o metal. Por vezes você vê um show de rock por aí, e por mais que as pessoas não possam se levantar, dançar ou cantar junto, ainda rolam os shows. Mas com o metal, a história é outra, [porque] se trata de raiva e política. Lembro de uma situação, anos atrás, em que mandaram todo mundo de um grupo tirar a roupa, caçando tatuagens. Com certeza eles sofrem mais”.

A vida subterrânea existe no Irã — a vida e a cultura seguem adiante, mas são escondidas dentro de quatro paredes. As pessoas ainda curtem sexo, drogas e rock’n’roll nos porões dos lares iranianos, mas assim que saem pela porta, é esperado que se adaptem à identidade islâmica. “O governo não tem como parar a cultura”, explica Reza. “Não tem como controlá-la... Se prenderem alguém por algo, alguém aparecerá em seu lugar. Vida que segue”.

B. vê um futuro desolador para Nikan e Arash, do Confess, e pensa que esta perseguição aos headbangers continuará no Irã como ocorre há anos. Não há final feliz para esta história. O medo é real – mas isto não impede B. – ou qualquer artista do país.

“Você sempre verá aquela cara de merda quando sair na rua com cabelo comprido e usando couro”, explica B. “Mas como Lemmy disse, se eles não gostam de rock’n’roll, eu não gosto deles!”.

Sumy Sarduni é jornalista residente no Reino Unido. Siga-a no Twitter.

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