Mostrei o som dos Racionais pro BADBADNOTGOOD

Na passagem dos canadenses pelo Brasil, eles contam que já manjavam Jorge Ben, Tim Maia e querem ser que nem o Airto Moreira.
23 Março 2016, 11:00am

Foto por Otávio Sousa.

Difícil encontrar quem não estivesse apreensivo na última sexta (18). Os acontecimentos políticos que dominaram os noticiários nas últimas semanas fizeram todo mundo tomar partido e se manifestar pelo que acredita — e até perder algumas amizades. Mas essa não era a única grande expectativa da noite porque, muito além do maniqueísmo político, aquela sexta-feira foi lembrada por muitos como a primeira apresentação no Brasil dos talentosos jovens canadenses do BADBADNOTGOOD, como atração do Nublu Jazz Festival, um rolê pika que trouxe importantes nomes da música para os palcos do Sesc Pompeia e do Sesc São José dos Campos, como The Cinematic Orchestra, Sly & Robbie, The Baoba Club e Marcus Gilmore.

Eu também estava ansioso. Horas antes do show, quando cumprimentei Matthew Tavares, Alex Sowinski, Chester Hansen e o novo integrante Leland Whitty, eu suava frio e gaguejava, como um fã entrevistando ídolos. Enquanto tomavam uma cerveja, contavam que quando chegaram no Brasil, a primeira coisa que fizeram foi colar numa loja de discos atrás de nossas pérolas musicais. Acabaram levando nada menos que o Negro é Lindo, disco de 1971, do Jorge Ben. “Nós amamos a música brasileira. Temos uns 30 discos de artistas brasileiros. Lá no Canadá sempre visitamos uma loja chamada Cosmo Records, que tem uma seção [de música] brasileira, e ficamos horas lá. Mas são poucas as pessoas que conhecem este tipo de música por ali”, confessa Matthew.

Cinco brancos ouvindo um rap do bom.

E já que eles gostam tanto do nosso som, aproveitei para mostrar a versão do Racionais MC’s para “Jorge da Capadócia”. Os quatro ouviram atentos e sentiram o groove. Aliás, um dado importante: se você acha que o sample dessa música é “Glory Box”, do Portishead você está enganado — isso porque a banda inglesa também usa um sample. A original é “Ike’s Rap 2”, do Isaac Hayes. Enfim, depois foi a vez de “Homem na Estrada”, cujo sample de “Ela Partiu”, do Tim Maia, já era conhecido por todos, e “Vida Loka Pt 2” que eles relacionaram com o southern rap do Scarface, MC e frontman do The Geto Boys, de Houston. Depois de ouvir esse som e perceber seu entusiasmo, eu pude me acalmar um pouco e até corrigir a postura na cadeira. Eles também ficaram bem à vontade.

E foi assim que o papo fluiu. Além de conhecerem muito som daora, o BADBADNOTGOOD nasceu no Humber College, uma escola politécnica de Toronto que também ensina música. Foi lá que os quatro se conheceram. “Começamos na escola de música por volta de 2010, quando saímos do colégio. Nessa época tínhamos que escolher um rumo profissionalizante e optamos pela escola de jazz — o que não foi a melhor ideia (risos)”, conta Alex. “Lá aprendemos não só a tocar, mas também a gravar e produzir música muito bem, e foi isso que fez nossa carreira deslanchar, porque é importante saber usar os meios de comunicação, como a internet, a nosso favor”, pondera Chester.

Para eles, a formação em música é importante, mas seu interesse pelo rolê vale muito mais que seu domínio da técnica. Alex acha que é importante conhecer as regras antes de quebra-las: “Há muitos estilos com os quais você quer romper para fazer seu próprio som. Você pode até achar que está tocando jazz e se expressando, mas alguém sempre vai chegar e falar que o que você está tocando não é jazz. Você não pode se sentir intimidado, porque não é disso que música se trata. Se você se sente intimidado para fazer qualquer coisa, nunca vai se sentir plenamente realizado”. Quando pergunto se a academia aprova o som que eles fazem, Matthew me surpreende: “Não importa muito, na real. Já faz algum tempo que saímos e agora estamos aqui no Brasil, comprando discos e nos divertindo, já é suficiente. Acho que qualquer um aprovaria isto”.

Foto por Otávio Sousa.
Em uma entrevista de 2014, os canadenses comentaram que se ganhassem um milhão de dólares cada, comprariam todos os baixos de seis cordas do mundo e os transformariam em baixos de quatro cordas. Não entendi por que, mas Chester explicou: “É que tipo, você já pode tocar e se expressar como quiser num baixo de quatro cordas. Se você não é o Thundercat, é um desperdício de dinheiro. Quando baixistas modernos usam mais cordas em seus baixos, fica tudo muito igual, e pouco inspirador”. Aliás, Thundercat é um dos músicos com os quais os meninos sonham em tocar um dia, além de Kanye West, Frank Ocean e os brasileiros Airto Moreira e Marcos Valle.

E como lugar de banda é no palco, foi ali que eles demonstraram toda sua desenvoltura. Quero dizer, no começo do show, ao cumprimentar a plateia, Alex deu uma escorregadinha ao tentar falar português: “E aí, galera...”, mas se embananou e emendou um “what’s up guys! We are BADBADNOTGOOD...”. Me senti representado no nervosismo. O público não levou nem um pouco a mal e respondeu ovacionando. Fizeram bem. Era a estreia de uma das melhores bandas da nossa geração, e quem estava lá só poderia se sentir privilegiado.

Aliás, todo o show foi marcado pela empolgação da plateia, que para Alex, é muito importante: “A gente acha bem daora quando as pessoas começam a pular porque não é como se fôssemos uma banda de hardcore que faça um barulhão pra excitar a galera. Quando isso acontece, é sempre muito bom pra gente, porque estamos criando uma sensação coletiva, uma experiência que se traduz através da empolgação do público. E geralmente isso acontece quando tem cerveja de graça...”. Pois bem Alex, ainda que o caso não fosse exatamente esse, nós brasileiros somos bem receptivos mesmo.

Leland, o saxofonista, está acompanhando o trio desde as gravações do disco III, de 2012, mas foi neste show que ele foi apresentado formalmente como membro oficial da banda, antes de tocar “Confessions”, uma das músicas mais esperadas pelo público. Quando entrou o solo de sax, o silêncio tomou conta da choperia do Pompeia, e os olhos dos espectadores brilharam ao ver Leland ali, também brilhando, sob o holofote. Eles inclusive aproveitaram o momento para anunciar um próximo disco para este ano, chamado IV, com Leland participando em todas as faixas. Ouro!

Durante a apresentação, nenhuma música surpreendeu mais que “Kaleidoscope”. No momento em que o piano cessava e entrava o baixo, a plateia emendou num coro de “pampampam” acompanhando a linha do baixo e fez a banda se empolgar. Da bateria, Alex organizou um coro para incentivar Chester a continuar no clima. Depois, uma sessão de improviso deixou todo mundo com o queixo no chão.

Além de “Putty Boy Strut”, um cover do Flying Lotus (!!!), outro som que fez o público delirar foi “Orange Juice”, gravado originalmente junto com Tyler, The Creator. Infelizmente Tyler não estava presente na última sexta, mas isso pode ter sido até bom para a estreia da banda no Brasil. Matthew explica: “Se temos um vocalista no palco, temos que agir diferente, para não interferir na sensação do show. Queremos tocar intensamente, mas sem tomar a atenção do público a quem está cantando”.

Aliás, Tyler The Creator não foi o único rapper a fazer música junto com o BADBAD. O trio (agora quarteto) tem um disco gravado com o Ghostface Killer, chamado Sour Soul, e já tocou com o molecão Earl Sweatshirt. Sobre esse assunto, eu tinha uma pergunta boba a fazer. Queria saber se eles já sofreram algum preconceito por serem brancos de classe média tocando com rappers de alto escalão. Matthew me explicou que eles nunca buscaram aceitação na cena hip-hop: “É uma maravilha poder tocar hip-hop com estes caras, e é incrível porque as pessoas adoram. Nunca sofremos nenhum preconceito por sermos brancos de classe média, porque sempre curtimos os mesmos sons que a galera. É sempre divertido e espontâneo, não tem crise”. Me senti aliviado em saber que o fantasma da segregação não existe neste meio.

O espetáculo terminou depois da devastadora “CS60”, com o público suado pedindo mais, e os quatro orgulhosos tirando foto de cima do palco. Naquela noite, percebemos que, por mais diferente que sejamos ou pensemos, quando ninguém perde, todo mundo ganha.

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