“O que se tornou a internet é tudo, menos um território livre”

De passagem pelo Brasil, a hackfeminista mexicana Lili_Anaz fala sobre como agir de modo crítico em uma sociedade vigiada.

por Brunno Marchetti; fotos por Larissa Zaidan
09 Maio 2017, 7:49pm

Crédito: Larissa Zaidan

Brasil e México são países latino americanos que compartilham algumas características em comum. Ambos possuem territórios extensos, economias emergentes e número alarmante de casos de violência contra a mulher.

Nos últimos anos o Brasil chegou a figurar entre os cinco países com o maior número de feminicídios. A situação não foi menos grave no México. Segundo o jornal El País, foram mais de sete mil mulheres assassinadas entre 2012 e 2017. Em resposta a esses quadros de violência foram desenvolvidas campanhas que ecoaram em ambos os países. Uma das mais conhecidas se deu no ambiente digital. Enquanto no Brasil circulou a hashtag #MeuPrimeiroAssedio, nas redes sociais mexicanas tivemos #MiPrimerAcoso.

Uma das divulgadoras do projeto e hackfeminista das mais ativas, a mexicana Liliana Zaragoza, de 33 anos, crê que o momento latino-americano é propício para desenvolver estratégias de resistência. Ela esteve de passagem pelo Brasil para a Cryptorave, evento que promove o esclarecimento sobre criptografia e privacidade, no último final de semana em São Paulo. Ela argumenta que tecnologias digitais seriam apenas um meio de operar. Os elementos mais fundamentais, diz, são a preservação da memória e dos afetos.

Com essa aposta, ela desenvolve projetos que misturam arte e tecnologia, como o Miradas Sostenidas, projeto fotográfico que lembra e dialoga com vítimas de violência sexual cometida por agentes do governo mexicano. Mas o que mais podemos fazer? No que consiste a resistência em uma sociedade amplamente vigiada? Ela conversou com Motherboard para responder essas e outras perguntas.

Motherboard: Você trabalha com a memória como uma forma de resistência. Você pode me contar um pouco mais sobre este trabalho?

Lili_anaz: Veja, semana passado completou onze anos de um fato histórico brutal contra as pessoas no México. É o caso de Atenco que foi uma repressão ordenada pelo governo do Estado do México, na época governado pelo hoje presidente Enrique Peña Nieto. Foi uma ordem de repressão para passar uma mensagem de desmobilização e pânico contra pessoas que estavam se manifestando em apoio a Frente do Povo em Defesa da Terra. Esta ordem implicou em tortura sexual e presos políticos.

E justamente por causa do tema da memória, é muito simbólico para mim estar aqui em meio de um momento político muito forte no Brasil, que quase não se fala no México. Não se fala nos massacres contra os índios Gamela que acabam de ocorrer nesses dias, não chega até nós as informações que estão se passando com presos políticos. Me doí muito o fato que compartilhemos problemas como o racismo, que continua sendo algo aqui no Brasil e no México. E especialmente que estamos aqui para falar de possibilidades, para que não tenhamos que viver com medo.

Leia o resto da entrevista em Motherboard.