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Entrevista

Fundação Cacique Cobra Coral diz reativar parceria com a prefeitura de SP

Administração Doria nega convênio com fundação, mas parceria firmada no governo Serra nunca foi suspensa. O interlocutor do grupo fala sobre chuvas no Carnaval e aquecimento global.

Amauri Gonzo

Foto: Divulgação

A Fundação Cacique Cobra Coral já é um clássico da política meteorológica-esotérica brasileira. Alçada ao posto de folclórica pela participação no Rock in Rio e por diferentes lendas urbanas envolvendo os poderes místicos do Cacique Cobra Coral, espírito incorporado pela médium Adelaide Scritori, que teria o poder de mudar diretamente o clima, evitando chuvas e também dirimindo secas, a Fundação foi coadjuvante em inúmeros eventos no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro: graças a convênios mantidos com a prefeitura de Eduardo Paes (PMDB) e o governo de Sergio Cabral (PMDB), teria auxiliado nas condições climáticas dos Réveillons em Copacabana e até nas Olimpíadas. Com a entrada do evangélico Marcelo Crivella (PRB) na prefeitura carioca, a fundação parece ter decidido não renovar seu convênio com o governo municipal — mas voltou para um antigo amor, São Paulo.

Segundo Osmar Santos, porta-voz da fundação, o novo prefeito João Doria (PSDB) renovou um antigo convênio que havia com a prefeitura da capital paulista. Em agosto de 2005, um termo de parceria foi firmado entre a Fundação Cacique Cobra Coral durante a administração de José Serra (PSDB). A parceria, sem prazo para acabar, prevê por parte da fundação (ao lado da Agência de Meteorologia Tunikito Meteorology Atmosphere and Ocean) o repasse de "informações prévias em casos de calamidade". Sem prazo e sem contrapartida clara, a parceria nunca foi oficialmente desfeita pela Prefeitura. Santos diz que o convênio foi "suspenso" no final da administração Kassab, porque o prefeito não estaria enviando um relatório sobre as obras que deveriam ser feitas para barrar os efeitos das chuvas. Santos diz ainda que se reuniu no dia 31 de janeiro com Doria e teria retomado a parceria. 

A Secretaria de Comunicação da prefeitura, no entanto, negou por telefone que exista qualquer convênio com a fundação, e o encontro de Santos e Doria não aparecia na agenda do prefeito, apesar da foto da dupla enviada pelo porta-voz à VICE.

Entre o dito e o não-dito, pedimos para Osmar Santos explicar como deve ser o funcionamento renovado da parceria ainda em vigor com a prefeitura de São Paulo, se vai chover no Carnaval e qual é a posição do Cacique Cobra Coral sobre o aquecimento global.

VICE: Como foi a renovação do convênio com a Prefeitura de São Paulo?
Osmar Santos: O convênio entrou em vigor no dia 1ª de fevereiro. Tivemos uma reunião com o prefeito no dia 31 de janeiro e já está em vigor. Tínhamos interrompido o convênio com a administração Kassab, no final do mandato dele, porque paramos de receber nossos relatórios, parece que a prefeitura não tinha feito nenhuma obra no período. A gente não quebra o convênio, ele só fica suspenso até ser retomado, e foi o que fizemos agora. Já falamos com nossos cientistas, que falaram que o problema, em janeiro, foi o excesso de chuva em São Paulo e a falta de chuva no norte de Minas Gerais e no Nordeste. Eles passaram as coordenadas: para isso ocorrer, precisamos remanejar o vento para o leste, trazer o fenômeno tal para oeste, etc. São coisas que o homem não tem tecnologia para fazer, mas que ele sabe como fazer. Nós unimos a ciência com a espiritualidade.

Qual é o tipo de contrapartida que a Fundação pede para a Prefeitura?
Tudo o que já tinha antes. Começamos em janeiro agora. Eles vão ter que mandar um relatório sobre o que foi feito no período de chuvas. De maio a setembro, tudo o que eles fizerem, para combater os problemas gerados pelas chuvas, vai ter que vir num relatório para a gente. Junto tem que vir uma lista com a intenção de obras para 2018. Aí no ano seguinte podemos cobrar deles. Se o relatório está batendo, a operação continua, e o convênio também. Cada caso é um caso. Vou dar um exemplo: em Santa Catarina, vinte anos atrás, eles tinham um problema de racionamento por falta de água na capital. Se ficasse uma semana sem chover, tinha que racionar água em Florianópolis. Mandamos técnicos lá para estudar o problema, e eles descobriram que o problema não era falta de chuva, mas que o reservatório era pequeno. Eles se comprometeram a criar um reservatório maior, e enquanto a obra estava sendo tocada, a Fundação fazia chover toda semana para não ter racionamento. Essa é a contrapartida exigida pela fundação, que pode ser resumida numa frase do Cacique Cobra Coral: "não podemos ajudar os homens de forma permanente se fizermos por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios." Por exemplo: você tem uma área que sofre muitos alagamentos. Nós podemos segurar as chuvas nessa área durante um verão, mas é preciso construir um piscinão ali.

"Nós unimos a ciência com a espiritualidade." — Cacique Cobra Coral

O que a fundação espera da Prefeitura de São Paulo para os próximos anos?
Basta o prefeito fazer o que ele falou que vai fazer. Só vamos ter uma ideia disso aí quando chegar o primeiro relatório, para podermos ver o que foi prometido e o que foi feito. Nós nunca exigimos, "ah, quero a obra tal". Eles que têm que dizer e orçar, um caso como o de Florianópolis é uma exceção.

Qual foi a receptividade do prefeito na conversa?
Foi muito boa.

Vocês vão continuar com o convênio com a Prefeitura do Rio de Janeiro?
O convênio venceu em dezembro de 2016, e não procuramos o governo de lá para regularizar isso. Nós temos apenas três convênios funcionando por vez. São Paulo ficou no lugar do Rio. Mas desde o dia 6 de janeiro a prefeitura de lá continua solicitando auxílio da fundação mesmo com a nova administração, sempre que ocorrem as chuvas e alagamentos. Não é porque o convênio não foi renovado, que deixamos de atender um pedido — o auxilio não é para o prefeito, é para a população. Em um caso de calamidade a gente não pode negar o atendimento.

Leia também: "Um CV do João Doria Jr., o novo prefeito de SP"

Quais são os outros dois convênios?
Um é federal, o mais antigo, com o Ministério de Minas e Energia. Você tem uma abrangência geral do setor energético, que é um ponto fundamental para o país. Ele existe desde 1986, quando o Brasil teve uma crise energética no governo Sarney. A fundação é para emergência, não é para uso diário. Além disso ficou o estado do Rio e a prefeitura do Rio, que tinha entrado depois que paramos o contrato devido ao Kassab. Mas agora estamos de volta.

Se uma outra prefeitura solicitar o auxílio, vocês dão?
Sim, qualquer um pode pedir, é como acontece no Rio de Janeiro.

É verdade que vocês estão trabalhando também na China agora?
Estamos fazendo um projeto de longo prazo para diminuir a poluição, que vai ser proporcional ao projeto que eles fizeram de colocar filtro nas indústrias, entende? O interesse deles é antigo, vem desde 2011, mas falamos que só faríamos isso se eles assinassem o Protocolo de Kyoto e agora o protocolo de Paris, que assinaram junto com os Estados Unidos, para fazer a redução da poluição.

Imagem: Divulgação

Qual é a posição da fundação sobre o aquecimento global?
Isso daí (o acordo de Paris) ajuda, mas também você ver matérias como "foi a maior enchente dos últimos 70 anos". Você deve ter acompanhado sobre São Paulo, recentemente, manchetes como "foi o maior período chuvoso dos últimos 75 anos", aconteceu em janeiro. Ou seja, há 75 anos isso ocorreu também. Então o aquecimento existe, mas existem muitas predações que o homem faz que atrapalham também. Mas não se pode creditar só ao aquecimento, tudo é um conjunto, tudo está interligado.

A administração atual dos EUA talvez não vá seguir o acordo de Paris. O senhor acredita que isso pode afetar o clima globalmente?
Sim, com certeza — não na proporção que se diz, porque isso (o acordo) interessa também muita gente, mas uma coisa está interligada com a outra.

Acompanhando alguns relatos da Fundação, sobre eventos como o Rock in Rio, percebe-se que a presença da médium é muito importante em momentos específicos, próxima à região. Como isso acontece à distância?
A distância não se faz nada isolado, se pega o país todo, porque fica mais fácil. No caso do Rock in Rio, houve 14 dias seguidos, sem intercalação, de tempo bom. E o encerramento ocorria no início da primavera. Mas já sabia-se que iríamos antecipar o período chuvoso no Sudeste, na primavera, por causa da crise hídrica. A partir da 0h do último dia do Rock in Rio, como já estava anunciado, as chuvas caíram. Poderíamos ter feito um isolamento da área, por isso a presença da médium. Isola-se a área, chove em outras localidades mas não chove ali. Isso já ocorreu também em momentos mais importantes.  Quando aconteceu a tragédia do metrô em Pinheiros, era 14h, os meios de comunicação entraram no ar com aquelas imagens, não se sabia quantas pessoas soterradas, e o pior estava por vir porque às 18h chegaria uma frente fria em São Paulo. Não deu para segurar a frente fria, mas fez-se um isolamento que chovia na zona norte, na zona sul até, menos na área do metrô. Precisávamos estar no local para fazer o isolamento.

Para este ano, em São Paulo, no Carnaval da cidade, a Fundação vai tentar manter um clima firme para os foliões?
Nós estamos com uma grande operação para toda a cidade, já desde o dia 31, não apenas para eventos específicos. No dia 15 fomos chamados para uma operação nos EUA, por causa daquela barragem em Los Angeles, Nevada (provavelmente se referindo à represa de Oroville, na Califórnia, aos pés da Sierra Nevada e próxima a Sacramento). Se você entrar no nosso Instagram, vai acompanhar o que está acontecendo. A Adelaide já está lá e estamos contornado isso aí para diminuir os riscos de estourar essa barragem. O intuito nem sempre é uma festa. O irônico é que dois anos atrás trabalhamos no Rock in Rio Las Vegas, com a finalidade de antecipar as chuvas, porque estava acontecendo um racionamento de água. O mesmo fenômeno que estava causando essa seca na Califórnia, estava causando a seca em São Paulo. No período que fizemos nosso trabalho lá, as chuvas voltaram, se intensificaram. Mas agora esse ano a coisa se complicou, mas o excesso ficou muito grande. Nos chamaram, pediram socorro, e tivemos que ir – como fazer um convênio?

Como nasceu essa relação com o Rock in Rio?
Normalmente você nunca vê a gente falando das empresas de eventos com as quais trabalhamos. Mas o Roberto Medina escreveu um livro e dedicou duas páginas ao Cacique Cobra Coral, aí não tem como fugir. Ele nos chamou para o Rock in Rio de 2001, e ele fala que desde então o Cacique faz parte do Rock in Rio. Outras empresas trabalham com a gente, mas elas pedem confidencialidade. Mas o Roberto fala abertamente da Fundação.

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