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É Possível Ter Consciência Social e Ser Feliz?

Procuramos o representante da ONG Action For Happiness para saber se é possível ser feliz mesmo com tanta desgraça que rola no mundo.

por Jack Urwin
14 Abril 2015, 8:30pm

Quando John Lennon cantou as palavras "I read the news today, oh boy", ele conseguiu capturar a miséria universal envolvida em se prestar atenção nos assuntos atuais. Como humano mais ou menos decente, eu exijo de mim mesmo me preocupar com o que acontece no mundo. E me preocupo. A maioria das pessoas se preocupa. Mas, caramba, numa escala de coisas que te fazem querer se encolher em posição fetal e tremer até dormir, as notícias do mundo quase sempre ficam no mesmo patamar da história de vida trágica do Keanu Reeves.

O menor traço de otimismo que eu tinha para 2015 desapareceu quase que imediatamente. No dia 3 de janeiro, surgiu a notícia de que o Boko Haram tinha massacrado mais de 2 mil pessoas no nordeste da Nigéria, uma tragédia seguida por muitas outras, porque vivemos no planeta Terra e é assim que as coisas funcionam aqui. Eu sei que muitas coisas boas estão acontecendo no mundo agora – tipo o casal que acabou de ganhar na loteria pela segunda vez, certos cachorros, esta foto do George Osborne onde o dedo dele parece um pinto fininho –, mas é difícil manter as coisas em perspectiva.

Determinado a me tornar uma dessas pessoas que são tão alegres que até dá raiva, entrei em contato com Alex Nunn, que lidera campanhas da Action for Happiness, um grupo de caridade que busca "ajudar a tomar ações práticas para melhorar o bem-estar mental e criar uma sociedade mais feliz e solidária". O que eu queria saber – e sobre o que conversamos principalmente – era se é possível ser socialmente consciente e feliz ao mesmo tempo.

"Adoro a ideia de Viktor Frankl de que a última das dignidades humanas é o direito e a habilidade de escolher sua atitude em qualquer situação, e que, sendo assim, não importa quão terríveis sejam as circunstâncias que te cercam, você sempre pode escolher como interpretar as coisas", disse Alex, sorrindo.

Ele sorriu muito, o que foi reconfortante.

"Esse é um grande fator, porque, para mim, mesmo vendo algo como o ataque ao Charlie Hebdo, o que ficou na minha mente não foi a violência ou a maneira como isso incendiou o racismo contra a religião muçulmana. O que ficou na minha mente foi o movimento de solidariedade global que saiu disso, que desencadeou tantas conexões humanas."

Ele tinha um pouco de razão. Dois milhões de pessoas participaram da manifestação "Je Suis Charlie" apenas em Paris. Veja bem, isso é algo bem anômalo. No Ocidente, pouca coisa saiu do massacre do Boko Haram. Significava que a maioria não deu a mínima para o assassinato de milhares de inocentes – muito difícil achar um lado alegre pra isso.

"Não quero dizer que existe algo inerentemente positivo a se tirar dessa situação, particularmente num caso tão violento, mas o que eu gostaria de dizer é que, se há algo que provoca uma reação emocional em você, alguma coisa que faz você sentir – mesmo algo que te faça sentir revoltado –, você precisa achar meios de agir", frisou Alex.

Enquanto conversávamos, me ocorreu que o que eu realmente estava tentando descobrir era se eu (um homem branco de classe média) posso me alegrar depois da tristeza de apenas conhecer o sofrimento de outros. Quer dizer, estou literalmente tentando evitar a inconveniência de saber algo que não afeta minha vida diretamente. Isso não faz de mim a pior pessoa do mundo?

"Absolutamente, não", afirmou Alex. "Se você está querendo dizer que há algo de errado, de egoísta, algum tipo de hedonismo avançado em se afastar de suas necessidades e culpas, o que você faz é negar o fato de que isso é uma experiência emocional de compaixão em primeiro lugar. Para que tenhamos qualquer tipo de progresso, é vital reconhecer o sofrimento dos outros, se sentir emocional com isso e encontrar maneiras de lidar com isso. Você se tornou uma testemunha dessa situação, você teve uma reação emocional humana. Aí você precisa continuar essa cadeia de eventos – e se puder continuar isso de maneira que tenha um efeito positivo para as pessoas do começo, você completa o círculo da melhor maneira possível."

Mesmo fazendo algo simples como escrever uma carta, uma expressão de solidariedade ou enviar uma cesta básica, Nunn garante ser possível "conectar a questão com algo positivo dentro dos seus meios e seu poder". Essa abordagem proativa individual é o modus operandi da Action for Happiness – e algo pelo que ela vem sendo criticada, principalmente por David Harper, no Guardian, que escreveu que isso "se baseia em dois pressupostos equivocados: que a fonte de felicidade está na cabeça das pessoas – e como elas veem o mundo – e que a solução para mudança está no nível individual".

Realmente, parece que a AfH está se baseando num livro da Ayn Rand (em qualquer livro da Ayn Rand, pois são todos péssimos), o que é surpreendente, considerando que Alex tem experiência em "protestos anticapitalistas" e que ele já morou em Brighton. Brighton, pelo amor de Deus.

"Para mim, isso usa o individualismo para resolver os problemas do individualismo", ele explicou, acrescentando que, quando você pede para as pessoas pensarem mais profundamente sobre sua própria felicidade, elas começam a se tornar livres do estresse que enche suas mentes, o que libera espaço para outros pensamentos. E o que é crucial: elas também começam a perceber sua dependência de conexões com os outros, aumentando sua consciência da importância e do bem-estar da família, de amigos, colegas e todo mundo ao seu redor.

"Se você tem um movimento que acorda as pessoas para o fato de que elas estão conectadas às outras – e que também libera espaço em suas cabeças –, você tem a própria fundação da consciência social, na qual todo tipo de diálogo sobre pobreza, mudanças climáticas – o que quer que seja –, pode acontecer com muito mais eficiência", continuou Alex.

Uma parte importante do manifesto da Action for Happiness são as "dez chaves para viver mais feliz", que, fora parecer muito com um texto sagrado baseado em listas do Buzzfeed, sugere que a organização considera a depressão um estado de espírito, e não uma doença – uma ideia paternalista e perigosa. Livrar-se de uma doença mental com o poder da mente tem a mesma taxa de sucesso que se livrar de diarreia com o poder da mente (você já tentou não expelir uma quantidade perturbadora de líquido pelo ânus várias vezes por hora quando teve dor de barriga?).

Bom, mas a Action for Happiness não é uma organização voltada a doenças mentais, e é isso que a torna tão intrigante. Não é uma questão de tornar os doentes saudáveis, mas de tornar os saudáveis felizes.

"Cerca de 50% do nosso bem-estar geral é decidido pela nossa genética, 10% é decidido pelas nossas circunstâncias e 40% pelas nossas atitudes", afirmou Alex, acrescentando que é nesses 40% que a Action for Happiness se concentra. O problema, até onde posso ver, é que nossa atitude é moldada pelas notícias e que somos expostos a isso constantemente. As notícias me deixam triste, mas não clinicamente deprimido – você entende a que ponto quero chegar?

Vinte anos atrás, se você queria saber o que estava acontecendo no mundo, você comprava um jornal, ouvia o rádio ou assistia à TV duas vezes por dia. Para minha geração, não há como se afastar. Palavras como "digital" e "online" estão nos títulos do nosso emprego, o que significa que passamos pelo menos oito horas por dia tuitando para todas as outras pessoas com empregos similares.

Diferentemente do que vários colunistas de meia-idade falam sobre ignorância e apatia na Geração Y, somos a geração mais informada até agora, principalmente porque não temos como evitar essa informação. Notícias – geralmente más notícias – são uma presença constante. E, mesmo que eu adorasse me ver tentando mudar o mundo sempre que algo ruim acontece, eu não tenho tempo. Por causa de todos aqueles tuítes. Sendo assim, há algo simples de que podemos nos lembrar para não cair num poço de desespero toda vez que um assassinato em massa ou um desastre ecológico aconteça?

"Primeiro, reconheça que o fator humano mais importante é o fato de que você se importa", destacou Alex. "O fato de você ter visto isso e se importar significa que há mais um ser humano no mundo que se importa com aquelas pessoas. Se você puder parar e aceitar isso, isso em si é uma coisa boa. Você pode achar o espaço se abrindo na sua mente para pensar em modos criativos de fazer mais do que apenas se importar. Você deve poder agir também."

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Tradução: Marina Schnoor

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