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Retratos de Mulheres Afegãs Presas por "Crimes Morais"

A fotógrafa polaco-canadense Gabriela Maj viajou para sete prisões femininas no Afeganistão e falou com mais de 100 mulheres presas por "crimes morais". Ela apresenta suas histórias em imagens em seu livro Almond Garden.

por Alice Tchernookova
22 Maio 2015, 4:30pm

Temas das fotos, essas mulheres são anônimas.

Mesmo que a queda dos islâmicos linha-dura do Talibã em 2001 tenha reduzido a violência contra a mulher no Afeganistão, as afegãs ainda têm um logo caminho pela frente quando se trata de viver com segurança. Enquanto as tropas estrangeiras deixam o território e a presença internacional se torna mais discreta, o financiamento e apoio a programas de desenvolvimentos também estão sendo reduzidos. O medo de um pico na violência contra as mulheres e um retorno a valores mais tradicionais também está em alta.

Um dos exemplos mais extremos de violência aconteceu em março: uma estudante foi espancada até a morte com pauladas por uma multidão de homens no centro de Cabul. Seu corpo foi incendiado e arrastado até o principal rio da cidade. A mulher de 27 anos, de acordo com a Reuters, foi "falsamente acusada de queimar um Corão", o que desencadeou a violência nas ruas da cidade.

A lei islâmica ainda é amplamente aplicada no Afeganistão; assim, a "zina", que se refere à relação sexual entre pessoas fora do casamento, leva a condenação e prisão de muitas mulheres.

A fotógrafa polaco-canadense Gabriela Maj viajou para sete prisões femininas no Afeganistão e falou com mais de 100 mulheres presas por "crimes morais". Ela apresenta suas histórias em imagens em seu livro Almond Garden. O título é uma tradução direta do nome de uma das penitenciárias femininas mais famosas do país, Badam Bagh (Jardim de Amendoeiras), localizada nos arredores de Cabul. Liguei para Gabriela a fim de conversar sobre o que ela descobriu em suas visitas a essas prisões.

VICE: Oi, Gabriela. Você pode falar um pouco mais sobre as condições em que essas mulheres vivem dentro das prisões?
Gabriela Maj: São geralmente cinco ou dez mulheres por cela. As celas ficam abertas durante o dia; então, elas podem andar e passar algum tempo em espaços abertos (se houver algum). Geralmente, as condições são muito básicas, mas aceitáveis. As mulheres têm acesso à água corrente e a banheiros. Elas recebem duas refeições por dia.

O interessante é que essas instalações são geralmente novas – elas foram construídas recentemente graças a financiamento estrangeiro. Por exemplo, o governo italiano gastou uma boa soma nelas recentemente.

Sob qual acusação as mulheres que você fotografou estavam presas?
Muitas mulheres têm sido presas por crimes morais. Isso se refere a maneiras como uma mulher pode ser acusada de "zina", o que pode incluir fugir de casa ou de um casamento forçado, ser estuprada, às vezes ficar grávida em consequência disso...

Essas são mulheres inocentes que vivem em instalações de prisão abertas, muitas vezes com mulheres perigosas e de comportamento violento. Isso torna o ambiente muito volátil e difícil, especialmente para se criar um filho. Não há apoio para a saúde mental, e muitas sofrerem de Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

No livro, você menciona que algumas mulheres são realmente culpadas de crimes, como matar o marido ou o agressor o estrangulando ou cortando sua garganta. Nesses casos, você sentiu que as sentenças eram "merecidas"?
A maioria foi presa injustamente. Depois de um tempo, parei de distinguir entre quem era "culpada" e quem era "inocente" – se essas mulheres tivessem tido experiências de vida diferentes, acesso à educação ou um sistema legal que oferecesse proteção a vítimas de abuso, elas provavelmente teriam feito outras escolhas. Muitas vezes, eu pensava que teria feito o mesmo no lugar delas. O que você faria se fosse obrigada a se prostituir pelo seu marido ou estuprada por um grupo de estranhos?

Alguma história te fez sentir particularmente desconfortável?
Só uma pessoa me fez sentir "desconfortável". Era uma assassina em série, presa com cinco homens de sua família por 137 assassinatos. Ela tinha sido vítima de abuso desde muito pequena e estava constantemente exposta à violência, da qual ela tomava parte junto com os homens. Era evidente que ela sofria de problemas sérios. Ela era imprevisível e tinha explosões violentas.

Nas fotos, muitas mulheres estão posando com os filhos. Elas realmente dão à luz na prisão? As crianças podem ficar e viver com suas mães?
Muitas mulheres são presas grávidas, geralmente como resultado de estupro ou de um relacionamento fora do casamento. Em alguns casos, elas fazem o parto em instalações especiais fora da prisão, mas em muitos outros não há essa opção.

Como as penas geralmente envolvem um crime moral, às vezes as famílias rejeitam a mãe e a criança, já que o entendimento de "zina" traz uma vergonha tremenda para a família. No pior dos casos, há até ameaça de morte, já que assassinatos de honra ainda acontecem muito no Afeganistão. Isso também significa que a criança não tem aonde ir. As crianças podem ficar na prisão tecnicamente até os cinco anos de idade.

O que acontece quando elas saem?
Elas voltam à família ou vão parar num abrigo para crianças. Infelizmente, muitas também acabam nas ruas e têm poucas oportunidades. Isso só mostra como esse aspecto da justiça não só drena recursos limitados – custa muito manter essas mulheres presas –, mas também destrói comunidades e famílias. Isso destrói não só a vida das mulheres, mas a das crianças também.

No livro, você menciona redes de prostituição dentro das prisões. Você pode falar mais sobre isso?
Não testemunhei isso com meus próprios olhos, mas ouvi muitas menções – tanto de guardas como de pessoas de fora [das prisões] – nos cinco anos em que viajei pelo país. As presas também falavam sobre isso. Um diretor prisional que conheci falou abertamente sobre estar substituindo um diretor que estava envolvido na exploração sexual dessas mulheres.

Isso é um problema judicial endêmico no Afeganistão, ou a ideia de "crime moral" está profundamente enraizada na mente da população?
O sistema judicial no Afeganistão é muito corrupto, e um contingente conservador significativo ainda tem o poder no governo. Mas, se isso fosse uma questão de política, seria fácil resolver. Porém é uma percepção social maior. Nas famílias com que fiquei, as mulheres ficavam horrorizadas quando eu contava que passei tempo com essas mulheres presas, especialmente mulheres acusadas de crimes morais.

Ser acusada disso é quase uma sentença de morte na sociedade afegã – isso causa reações muito fortes. Essa ideia de trazer vergonha para sua família é quase a pior coisa que uma mulher pode fazer. Associar-se a essas mulheres é quase visto como se associar a leprosos.

Há grupos de apoio lá?
O Women for Afghan Women, que é financiado em parte por doadores independentes internacionais, é uma organização de base comandada no Afeganistão por mulheres afegãs. Elas têm um sistema de abrigos para mulheres que fugiram de suas famílias ou que estão saindo da prisão e não têm aonde ir. Elas também têm programas educacionais para crianças e oferecem apoio legal. Mas a demanda é muito maior do que elas conseguem atender.

Há alguma ajuda vindo da comunidade internacional?
Depois de 2001 [e da queda do Talibã], havia muito financiamento da comunidade internacional para programas apoiando a saúde e educação de mulheres. Havia programas de alfabetização e treinamento básico dentro das prisões para permitir que essas mulheres garantissem alguma renda depois que saíssem. Mas, agora, muito disso secou. As tropas estão sendo retiradas, assim como muito do apoio e da ajuda para o país. A situação dessas mulheres é desesperadora. É quase pior lá fora, porque elas não têm as ferramentas e os recursos para garantir um meio de vida para elas mesmas.

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Tradução: Marina Schnoor

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