Identidade

Mexicanas pararam seu país para protestar contra o patriarcado

“É estranho. Saí de casa e quase não vi mulheres. As ruas parecem vazias.”
10 Março 2020, 5:37pm
Mexicanas participam da marcha do Dia Internacional das Mulheres em Ciudad Juarez, Chihuahua, 8 de março de 2020. (Foto por David Peinado/NurPhoto via Getty Images.)

Cidade do México – como uma grande cidade metropolitana pareceria sem mulheres?

Dezenas de milhares de mexicanas fizeram esse teste na segunda-feira, quando ficaram em casa para mostrar sua fúria com os níveis de violência contra elas, de agressões diárias até assassinato.

A greve foi uma amostra de força histórica de mulheres cansadas do que elas dizem ser uma cultura machista, que há década faz vista grossa para a violência que elas sofrem simplesmente por serem mulheres.

A ideia era simples: as mulheres podiam mostrar seu poder não fazendo nada.

“Estou na luta pelos direitos das mulheres há 30 anos e nunca vi uma greve como esta. O país está parado”, disse María de la Luz Estrada, coordenadora do Observatório Nacional de Feminicídio. “Isso mostrou que nosso papel não é apenas reproduzir e servir. Espero que isso gere uma oportunidade para refletir como nós, como país, falhamos com as mulheres, e acabar com a desigualdade.”

Em todas as classes sociais, meninas e mulheres atenderam o chamado para fazer sua presença escassa; o transporte público estava meio cheio. Havia pouco trânsito em ruas normalmente congestionadas. Algumas escolas fecharam. Muitos comércios, de restaurantes a salões de manicure, abriram por poucas horas ou nem abriram. Em escritórios, mesas ficaram vazias enquanto funcionárias de todos os escalões ficaram em casa.

Algumas mulheres podiam ser vistas fazendo compras ou trabalhando, mas era impossível não notar a falta delas.

“É estranho. Saí de casa e quase não vi mulheres. As ruas parecem vazias.”

“É estranho. Saí de casa e quase não mulheres. As ruas parecem vazias”, disse Leonardo Torres Arias, host do restaurante La Parroquia no corredor histórico do México.

O restaurante deu um dia de folga paga (menos gorjetas) para as funcionárias na segunda como amostra de apoio, e os funcionários homens cobriram o dia delas. Mas não havia homens suficientes para trabalhar nos turnos da tarde e noite, então o restaurante abriu mais tarde.

E isso era parte do ponto. Grupos de negócios estimam que a greve custou entre US$ 300 milhões até mais de US$ 1 bilhão para a economia mexicana. A greve aconteceu um dia depois que milhares de mulheres foram às ruas no domingo para conscientizar sobre as ameaças que elas encaram e a resposta morna das autoridades.



Feminicídios no México – assassinatos classificados como motivados por gênero – aumentaram 137% nos últimos cinco anos, segundo estatísticas do governo. Isso coincidiu com um aumento na violência geral no país; a taxa de assassinatos bateu o recorde em 2019 no México.

Nos protestos, as mexicanas expressaram sua fúria com a violência contra elas, de agressões diárias até assassinato.

Manifestantes fizeram fogueiras na Praça Zocalo no centro histórico da Cidade do México durante a marcha do Dia das Mulheres no domingo. (Foto: Emily Green/VICE News)

Oficiais estimam que 80 mil pessoas participaram da marcha no domingo. Homens ficaram na parte de trás da marcha – a ideia sendo que o protesto fosse um espaço seguro para as mulheres – e aqueles que tentaram interferir foram respondidos com gritos de “fora daqui”.

A greve pretendia mostrar o poder econômico das mulheres. E parece que funcionou.

Lojas vazias

Numa loja familiar de artigos esportivos, as vendas caíram 80%, disse Lourdes Gonzáles, supervisora da loja. Até às 16h, nenhuma mulher tinha colocado os pés na loja.

Como muitas mulheres, Gonzáles disse que queria participar da greve, mas não podia perder um dia de salário. Ela espera participar da próxima marcha pela primeira vez. “Unidas, somos mais poderosas.”

Mas alguns homens subestimaram a greve como sendo “coisa de mulher”. Um policial comparou o protesto com o Dia das Mães, um feriado no México em que muitas mulheres tiram o dia de folga.

Várias pessoas, homens e mulheres, disseram que estavam indiferentes com a greve, mas reclamaram que as manifestantes pixaram prédios e quebraram vitrines durante a marcha no domingo.

“Vandalizar monumentos históricos, vandalizar casas, a nação – não vai resolver nada”, disse Alejandro Benitez, psicólogo na Cidade do México. Ele sugeriu que as mulheres criem um sindicato e falem com a prefeita da cidade sobre suas exigências.

Durante a marcha, manifestantes picharam prédios e calçadas para expressar sua raiva com o aumento da violência contra mulheres. (Foto: Emily Green/VICE News)

Enquanto isso, o presidente Andrés Manuel López Obrador já disse que mulheres são “mais honestas” que homens, e fez questão de indicar mulheres para formar metade de seu gabinete. Mas, para tristeza de muitas simpatizantes do presidente de esquerda, ele não fez muito sobre os perigos específicos que as mulheres enfrentam.

No domingo, Dia Internacional das Mulheres, ele disse: “Sou a favor das causas das mulheres, mas não quero fazer a separação de homens e mulheres. Essa é uma luta de todos”.

Os números mostram uma dinâmica diferente. Aproximadamente 90% das vítimas de assassinato no México são homens. Mas mulheres respondem por cerca de 85% das mortes como resultados de violência sexual, e elas têm muito mais chances de ser mortas em casa, segundo estatísticas do governo.

“Isso aponta para o fato de que a violência geralmente é determinada por gênero. E o jeito como a violência se manifesta contra as mulheres é muito particular”, disse Estefania Vela, diretora executiva da Intersecta, um grupo da Cidade do México que luta por igualdade de gênero.

Ativistas dizem que uma grande melhora já seria se as autoridades simplesmente levassem queixas de ameaças e abuso mais a sério.

“O que queremos é que quando procuramos as autoridades, não ter que esperar 18 horas para fazer uma queixa, só para ser vitimada novamente”, disse Pamela Zambrano, advogada e membro de um coletivo feminista que ajudou a promover a greve. “Queremos que as autoridades forneçam exames médicos e ajuda psicológica para as mulheres.”

Os assassinatos horríveis de uma mulher de 25 anos e uma menina de 7 no começo de 2020 foram aumentaram o ultraje. No dois casos, a polícia foi acusada de não agir.

Em fevereiro, Ingrid Escamilla foi morta e esfolada, supostamente pelo parceiro. A mídia local descobriu que ela deu queixa dele na polícia vários meses antes.

Dias depois, uma menina de sete anos conhecida como Fátima foi encontrara enrolada num saco plástico depois de desaparecer da escola. Ela foi espancada e abusada sexualmente, segundo a polícia. A mãe de Fátima procurou a polícia no dia em que ela desapareceu, mas eles levaram 24 horas para começar a investigar, disse a família.

“Nosso governo precisa tomar uma ação urgentemente. Espero que a greve abra os olhos das autoridades”, disse Marisela Villapando, que trabalha como Uber. Ela disse que conhecia pessoalmente quatro mulheres que foram assassinadas ou desapareceram só no último ano.

“Vivemos com medo.”

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