Como é ser uma chefe do tráfico de cannabis em Nova York

“Meu nome é Queen C; sou uma mina foda. Mas tenho um segredo.”

por Manisha Krishnan; Traduzido por Marina Schnoor
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ago 31 2018, 10:00am

Imagem cortesia do Showtime. 

Quando entro no apartamento de Queen C no Harlem, fico um pouco chocada.

Estou acostumada a ver pessoas da minha idade vivendo em apartamentos minúsculos quando visito Nova York, mas esse lugar é enorme. São quatro quartos, uma sala de estar espaçosa com uma cozinha aberta e chão de madeira. Claro, ela não mora aqui sozinha, mas podia se quisesse – ela só prefere alugar os outros quartos para subsidiar o próprio aluguel. A mulher de 26 anos aplica essa mesma sabedoria de negócios em seu trabalho – distribuir maconha no estado de Nova York.

Queen C (mais sobre o apelido dela depois), consegue sua maconha na Califórnia, depois usa caminhões para trazer o produto até Nova York em carregamentos de 45 a 180 quilos por vez. Aí ela faz o fornecimento para traficantes e serviços de entrega locais. Nos últimos oito anos, ela se tornou uma milionária num negócio que começou como um trabalho paralelo.

Ela acredita que ser uma “asiática baixinha” é a chave de seu sucesso, porque ela acha que parece de mais confiança que seus competidores homens. Mas ela admite que há um lado sombrio em sua carreira.

“Meu nome é Queen C; sou uma mina foda. Mas tenho um segredo”, ela diz.

A VICE falou com Queen C para saber como ela conseguiu dominar a cena de maconha de Nova York e o que ela planeja fazer com o dinheiro.



VICE: Qual o significado por trás do seu apelido?

Queen C: Queen C é mais que um apelido. É uma persona de uma mulher foda quebrando barreiras e dominando a indústria ilícita de maconha. O codinome Queen C veio de um cliente que trabalhava na área de NYC e East Village. Ele sempre me chamava de “queen pin” porque eu fornecia para diferentes áreas de Nova York e Nova Jersey. O C é uma abreviatura do meu primeiro nome, que vai continuar anônimo, mas também quer dizer cannabis.

Como você começou a vender maconha?

Quando cheguei na cidade oito anos atrás, comprar maconha era um processo. Encontrei caras desonestos vendendo produto ruim, e eles podiam fazer isso porque a procura era grande e a oferta era pequena. Eu estava cansada de me sentir passada pra trás e desconfortável sempre que queria comprar alguma coisa. Meu melhor amigo vendia maconha na época e me colocou no jogo, então eu podia vender para amigos para fazer uma grana extra e fumar de graça. Lembro bem de desenhar um diagrama de pirâmide para meu colega de apartamento, explicando a cadeia de distribuição de maconha e como eu estava na base e estava determinada a chegar no topo. Através de networking, finalmente conheci um cara da Califórnia que plantava e isso virou o jogo. Vi um vácuo no mercado que precisava ser preenchido e tirei vantagem disso. Criei um ambiente que encarna uma boa vibe, onde os clientes se sentem confortáveis e conseguem o melhor negócio. Vender maconha começou como uma atividade paralela enquanto eu estava na faculdade, mas a coisa cresceu e agora consome todo meu tempo.

Como você opera seu negócio?

O objetivo é fornecer flores de boa qualidade e outros produtos de cannabis a preços competitivos. Vou para a Califórnia, procuro maconha de growers e como meu poder de compra é grande, posso negociar os preços e fechar os melhores negócios. O produto é colocado num caminhão e transportado para Nova York pronto para ser distribuído. Meu negócio funciona basicamente como uma distribuidora para outros traficantes e serviços de entrega. Tenho reuniões com meus clientes para garantir que estamos estocando o que eles precisam. Quando o inventário está baixo, faço outra viagem e o ciclo recomeça.

Você já teve problemas com as autoridades?

Não, tento ser cuidadosa. Acho que ser uma baixinha asiática ajuda. A maioria dos meus clientes são músicos, atores, dançarinos e dublês – é uma rede de pessoas boas.

Qual a situação mais tensa em que você já esteve?

Eu estava fazendo uma transação de US$ 200 mil [em torno de R$ 840 mil na cotação atual] com um amigo próximo. Ele costumava ser meu fornecedor antes de eu entrar no negócio. Ele estava passando por problemas financeiros e me roubou. Eu tinha feito várias transações grandes com ele antes e não vi isso chegando. Ele era como um irmão para mim, mas o dinheiro muda as pessoas.

Como ser mulher te ajudou a ter sucesso?

No jogo da maconha, confiança é tudo. Você não consegue operar sem isso. Sendo mulher, sou mais fácil de abordar e menos suspeita, o que funciona como vantagem. Isso me colocou no topo do networking. Eu abordava outros traficantes que meus clientes recomendavam e propunha um encontro para falar de números. Por mais louco que pareça, eu estava buscando por traficantes que já eram estabelecidos e não eram suspeitos. Muitos traficantes já admitiram que se eu não fosse uma garota, eles provavelmente não teriam topado se encontrar comigo, e como ficaram surpresos com como eu conseguia números melhores para fornecer para eles. Essa mentalidade começou a expansão do meu negócio. Do lado das vendas, ser mulher parecia uma vantagem.

Tem algum ponto negativo em ser mulher?

A parte de construção tem suas dificuldades. Os growers achavam que eu era ingênua com os números e a qualidade, e tentavam me vender produto mediano por preços mais altos. Eu precisava de um poder de compra maior para que eles me levassem a sério, o que consegui eventualmente – o dinheiro fala mais alto. É incrível como algumas pessoas na indústria te subestimam por ser mulher, mas não ligo porque é muito bom provar que eles estão errados e mostrar seu potencial.

Quanto dinheiro você já fez com esse negócio?

Pelo menos um milhão. É difícil acompanhar.

O que você vai fazer com o dinheiro?

Vou investir em imóveis e viver a melhor vida possível enquanto ainda sou jovem.

Como a legalização impactou seu negócio?

A legalização em outros estados afetou a curva de oferta em Nova York. Há mais acesso, o que está diminuindo os preços. O preço da maconha está caindo consistentemente, o que tira alguma renda, mas você pode compensar isso em diferentes áreas. Você só precisa se adaptar. Com a maconha se tornando mais mainstream, mais produtos de cannabis como óleos e comestíveis estão se desenvolvendo e abrindo novos mercados, que podem ser capitalizados como renda suplementar. A chave é diversificar o inventário e surfar a nova onda, porque isso está sempre mudando. Há uma área cinzenta onde os vendedores querem se livrar de produtos de cannabis para compradores do mercado negro. Mesmo quando a maconha for legalizada em Nova York, ainda vai ser muito mais barato conseguir erva do seu traficante local. Não estou preocupada com isso.

Você usa seu próprio produto?

Sim, tenho que experimentar meu produto para saber o que comprei. Também é muito legal experimentar todos os sabores disponíveis.

Quando você planeja se aposentar?

Em breve, mas é o que todo mundo diz. Ter uma vida dupla é divertido quando você tem 20 e poucos anos, mas suas prioridades vão mudando e acho que estou pronta para fazer a transição depois de oito anos no jogo.

O que você vai fazer depois de se aposentar?

Voltar a estudar seria um bom começo. Posso investir em qualquer carreira que quiser sem me preocupar com o lado financeiro. Tenho muita iniciativa e motivação – em qualquer indústria em que eu estiver, sei que posso arrasar.

Às vezes você fica cansada de guardar esse segredo?

O tempo todo. Isso criou uma distância entre minha família e eu. Eles acham que tenho um trabalho normal de vendas numa empresa farmacêutica, o que não está tão longe da verdade assim. Nem todos meus amigos sabem o que faço e sou sempre muito vaga sobre a minha vida, o que me impede de me abrir e ser quem realmente sou com outras pessoas. Meu negócio secreto é uma parte tão grande da minha vida que não sei como separar as coisas. Às vezes fico em conflito pensando se Queen C é uma fachada ou minha badass bitch interior. Acho que o tempo dirá. Antes de ser a Queen C, eu era só a C, e espero me conhecer melhor quando todos esses segredos acabarem.

Você tem orgulho do que conquistou?

Com certeza. Construí um negócio de sucesso obliterando barreiras. Fui de uma traficante de maconha de meio período para uma grande distribuidora.

Qual a parte mais difícil do negócio?

Me lembrar de não deixar esse trabalho consumir minha vida enquanto gerencio todos os aspectos da operação.

Matéria originalmente publicada pela VICE Canadá.

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