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Rosario Dawson Fala sobre 'Kids' 20 Anos Depois

A atriz conversou com a gente sobre como foi ser escalada para Kids, ver suas colegas tentando normalizar o sexo numa idade tão jovem e o legado do filme hoje, 20 anos depois.
22 Julho 2015, 6:30pm

Rosario Dawson em Kids (1995). Foto cortesia de Vidmark Entertainment/Photofest.

Vinte anos depois, os adolescentes de Kids, escrito por Harmony Korine e dirigido por Larry Clark, ainda parecem tão niilistas, violentos, problemáticos, engraçados e surpreendentemente espertos. Gravado no estilo cinema vérite, o filme acompanha um grupo de amigos durante um dia, enquanto eles andam por Manhattan bebendo, fumando e andando de skate. Os adolescentes passam boa parte da história andando em bando, sempre procurando a próxima grande festa.

Em uma das cenas mais icônicas, os garotos andam casualmente no meio de uma rua movimentada, bebendo licor de malte embrulhado em sacos de papel. Escrito por Harmony Korine e dirigido por Larry Clark, o filme lançou Rosario Dawson, Chloë Sevigny e Leo Fitzpatrick para o estrelato indie. Dawson entrou para o elenco aos 15 anos. Fitzpatrick foi descoberto andando de skate na Washington Square Park. E Korine tinha 19 anos quando escreveu o roteiro, passando a maior parte de sua aparição no programa Letterman, no qual ele devia promover Kids, falando mais de suas próprias palhaçadas do que sobre o filme.

Fitzpatrick faz o vilão discutível da história, Telly, um adolescente obcecado por conquistas virginais ("Virgens, eu as amo", ele diz. "Sem doenças. Nada. Só puro prazer.") Na cena de abertura de Kids, Telly e uma garota que mal parece ter 13 anos se pegam num quarto de menina, antes de Telly dizer: "Gosto de você. Te acho linda e acho que, se a gente transar, você vai adorar. Você não vai acreditar". Uma fala que ele vai repetir mais tarde naquela noite para outra virgem, também adolescente.

No verão anterior, Telly transou com Jennie (Sevigny), também virgem, passando HIV para ela sem saber. Depois de pegar os resultados de um teste de doenças venéreas, Jennie passa quase o filme todo procurando Telly para confrontá-lo e avisar sua próxima conquista.

Resumindo as filosofias extremamente diferentes dos adolescentes em relação ao sexo, uma cena intercala conversas entre os garotos e as garotas sobre o que eles esperam e de que gostam respectivamente. Antes de Jennie e Ruby (Dawson) irem até a clínica pegar os resultados do teste, elas se sentam na cama bagunçada de uma amiga, fumando um cigarro atrás do outro e compartilhando suas experiências sexuais. E é a personagem de Ruby que se destaca. Mesmo entre as amigas, Ruby mostra certa arrogância: ela provoca. Quando Jennie lamenta não querer falar com Telly depois do que ele fez (transar e nunca mais falar com ela de novo), Ruby anuncia para a sala: "Ele roubou a virgindade dela. Ele roubou, e agora isso se foi. Para sempre!". É Ruby quem quer fazer o teste, porque já fez sexo com oito ou nove caras (ela não lembra), muitas vezes sem proteção. Enquanto a enfermeira da clínica faz perguntas ("Já fez sexo anal? Com quantos parceiros?), é Ruby quem se remexe na cadeira, distraída com os cartazes de anatomia na sala.

Falei com a atriz Rosario Dawson por telefone sobre como foi ser escalada para Kids, ver suas colegas tentando normalizar o sexo numa idade tão jovem e o legado do filme hoje, 20 anos depois.

VICE: Quantos anos você tinha quando foi escalada para Kids? Como isso aconteceu?
Rosario Dawson: Eu tinha acabado de fazer 15 e estava sentada na frente de casa. Meu pai tinha me dito para descer e ser descoberta, porque eles estavam filmando um comercial no quarteirão e estavam procurando gente para dançar. Mas não dancei: só fiquei sentada na porta naquele final de semana enquanto eles filmavam. Foi quando Larry (Clark), Harmony, um produtor e alguns outros membros da equipe me notaram. Eles estavam procurando locações no bairro.

Eu estava conversando com alguém e acho que estava falando muito alto, porque a equipe inteira virou e olhou para mim. Lembro que eles disseram que estavam gravando o som naquele dia. E eu pensei "Ah, cara, eles vão me mandar calar a boca". Mas aí eles – literalmente pulando – disseram "Meu deus! Estou fazendo um filme, estamos escalando o pessoal daqui e você é perfeita. Escrevemos esse papel para você, você é perfeita. Nem te conheço, mas você é perfeita para esse papel, o escrevi para você". E [Harmony] me falou tudo sobre o papel. Virei para dentro e gritei "Paaai, tem um pessoal aqui falando sobre fazer um filme comigo". Eu estava de short e camiseta e fiquei pensando "Por que vocês estão falando comigo?".

Kids (1995). Foto cortesia de Miramax/Photofest.

Fui ao escritório deles com o meu pai e fiz o teste. Eles tinham me dado o roteiro para ler e minha família não achou um problema, só no fato de que a minha personagem fumava. De resto, conversei com eles e eles acharam que o roteiro era muito bem escrito. Cresci entre artistas; então, apreciamos a oportunidade e o que isso significou. Não pensamos muito nisso, considerando que eles estavam pegando pessoas na rua, mas achamos o roteiro muito bom, um mundo dele muito interessante e muito honesto. Eu não era nem remotamente parecida com aquela garota, mas conhecia aquela garota, cresci com aquela garota. Minha mãe ficou grávida na adolescência; logo, eu conhecia as vulnerabilidades dessa garota e a situação em que ela estava se colocando.

"Cresci com um monte de garotas que tinham 13 ou 14 anos e estavam transando com os namorados, que geralmente eram traficantes, e elas não costumavam usar camisinha porque o namorado preferia assim, porque era mais gostoso."

Quando Ruby, Jennie e as amigas estão fumando e conversando, há toda essa atitude. As garotas são tão jovens e ingênuas, mas ainda dizem que sabem diferenciar entre "sexo", "fazer amor" e "trepar". Que tipo de conversa você tinha com suas amigas de verdade sobre sexo naquela época?
Só fui transar aos 20 anos; assim, isso estava muito distante da minha realidade. Mas cresci com um monte de garotas que tinham 13 ou 14 anos e estavam transando com os namorados, que geralmente eram traficantes, e elas não costumavam usar camisinha porque o namorado preferia assim, porque era mais gostoso. E eu olhava para essas garotas e pensava: "Você está se jogando no mesmo ciclo de violência e pobreza em que cresceu e do qual diz que quer sair". A realidade foi muito interessante, porque essas garotas passaram de 13 para 14 anos e, depois das férias de verão, do nada, elas pararam de gostar de programas de TV e adesivos e só queriam falar de sexo. Não que elas realmente quisessem fazer isso; foi meio que um subproduto do fato de elas terem se desenvolvido muito rápido, e eu passei por isso mais lentamente. Essas garotas já tinham peitos. Quando elas andavam na rua, mesmo sendo meninas adolescentes, todo mundo as tratava como mulheres, e elas estavam tentando se acostumar a isso. Elas estavam tentando normalizar o que tinha acontecido ao redor delas e o fato de que homens adultos estavam dando atenção a elas.

Foi por isso que achei que Kids valia a pena ser feito. Essas eram garotas tentando normalizar o ambiente no qual elas estavam e tentando fingir uma atitude. Elas queriam ser legais com o que estava em volta delas, e isso nem sempre ressoava nelas, porque você imita o que outras adolescentes ao seu redor fazem. Esses garotos vinham de pais que trabalhavam muito e não podiam prestar atenção neles. É isso que garotos fazem com muito tempo livre.

"Minha avó estava assistindo ao filme e disse 'Rosario, sabe, queria que você tivesse me avisado antes', e eu respondi 'Desculpe se ofendi a senhora'. Ela respondeu 'Você não me ofendeu. Qualquer um honesto consigo mesmo consegue se identificar com essa história. Só queria que você tivesse me avisado antes para que convidasse todos os meus amigos da igreja para assistir."

Uma conversa que as garotas de Kids não têm é sobre o limite entre o que é consensual e o que não é. Podemos ver alguém como Telly, que caça essas virgens pubescentes, e sabemos que essas garotas não pensaram em consentimento.
Mesmo essas garotas que eu conhecia na época e que estavam transando – elas faziam isso porque estavam pressionando umas às outras, porque queriam continuar na turma. Era como se, porque seu corpo tinha mudado, você tinha de mudar com ele. Havia muita atenção sobre elas, e elas tinham de aguentar, tinham de ser duronas, tinham de ser descoladas. Elas estavam batendo punheta e fazendo boquete, e eu pensava "O que você tira disso? Você está sendo manipulada. Você conhece esses caras? Você gosta dessa pessoa? Você gosta do jeito como eles te tratam?". Você podia fazer essas perguntas, e era como um veado pego pelos faróis: elas nunca tinham nem considerado isso.

Quando viu o filme inteiro pela primeira vez, você ficou surpresa com a parte em que as garotas e os garotos falam sobre suas experiências sexuais?
Apesar de isso estar no roteiro e muita gente não ser ator, isso ficou muito verdadeiro. Era algo entre uma coisa improvisada e roteirizada, porque não éramos atores.

Mas acho que tanto as garotas quanto os garotos fingem essa postura e estão sendo pressionados para isso. São crianças ensinando crianças. Eles acham que nunca vão morrer, que vão ser jovens para sempre. Eles lutam e se levantam depois de cada cicatriz. Eles são falhos. Eles estão apenas se enganando de que tiveram muitas experiências e sabem do que estão falando – e não sabem.

Chloë Sevigny em Kids (1995). Foto cortesia de Miramax/Photofest

Nessa cena, minha personagem meio que dirige a energia. Larry (Clark) ficava me lembrando para forçar mais, ser mais agressiva. Fiquei impressionada com o processo. Chloë fazia essa garota com cara de menino muito interessante. Ela era muito mais avançada, mais velha do que eu e uma garota muito mais descolada comparada comigo. Mesmo tendo crescido no Lower East Side, sempre fui muito protegida. Lembro-me de tentar falar com ela sobre minhas experiências e de ela olhar para mim e perceber quanto eu era diferente do papel que estava fazendo. Muitos daqueles garotos estavam fazendo eles mesmos, e acho que foi isso que Larry capturou. Harmony, tendo só 19 anos quando escreveu isso, fez a linguagem e tudo mais parecer muito familiar, como um documentário. Minha avó estava assistindo ao filme e disse "Rosário, sabe, queria que você tivesse me avisado antes", e eu respondi "Desculpe se ofendi a senhora". Ela respondeu. "Você não me ofendeu. Qualquer um honesto consigo mesmo consegue se identificar com essa história. Só queria que você tivesse me avisado antes para que eu convidasse todos os meus amigos da igreja para assistir".

Acho que isso faz o filme se destacar mesmo hoje – apesar de ter ficado datado. Usamos um orelhão em certo momento. Não há celulares no filme. A premissa nem funcionaria hoje, considerando como todo mundo está conectado. Todo mundo tem um geolocalizador consigo o tempo todo. A ideia de passar um dia inteiro procurando por alguém nem parece mais verossímil.

Mas há uma ligação real com aquele momento no tempo quando você está tentando explorar e adivinhar o que fazer na próxima fase da sua vida. Você não tem necessariamente os melhores mentores. Você tem crianças ensinando crianças. É um momento da vida em que você pensa que nunca vai morrer, que vai ser jovem para sempre, mas essa não é a realidade: você pode ficar grávida, você pode morrer, você pode pegar uma doença. Somos falhos e vulneráveis. Estou compartilhando isso com os meus filhos hoje. Eles podem [trazer o assunto do sexo] sempre que quiserem. Ainda há muita ignorância, bobeira, provocação, curiosidade e aventura. São muitos hormônios.

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Tradução: Marina Schnoor