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O Coquetel Molotov foi o carnaval fora de época do indie brasileiro

Mesmo sob chuva, a 14ª edição do festival recifense foi marcada pela diversidade musical e por uma estrutura de show internacional.

por Fernando Gomes; fotos por Felipe Larozza
30 Outubro 2017, 3:32pm

Arnaldo Baptista. Foto: Felipe Larozza/VICE

Com uma longa e próspera vida, o festival No Ar: Coquetel Molotov chegou à sua 14ª edição em ótima fase, mantendo-se como um dos eventos mais importantes do calendário da música brasileira e levando grandes shows à cidade de Recife. A edição desse ano, realizada no último sábado, dia 21,foi marcada pela diversidade musical e por uma estrutura digna de eventos internacionais. Apostando quase tudo na cena independente nacional, o No Ar: Coquetel Molotov de 2017 foi mais uma prova da força dos festivais de música que tem se firmado fora do que ainda é tido como eixo da produção musical no Brasil.

"Essa edição é uma das mais ecléticas. Tem som experimental, rap, rock, pós-rock... vejo isso como um sopro de renovação pra galera de Recife, aliando a música a questões políticas como gênero e diversidade e ocupando um espaço como o Caxangá Golf Club, com muito verde, ar livre e espaço de circulação", comentou Jarmeson Nascimento, um dos responsáveis pelo festival.

Foto: Felipe Larozza/VICE

Giovani Cidreira foi o primeiro a subir ao palco Sonic e fez um show que se mostrou digno de um horário melhor. Mas já que alguém tem que ficar com a missão de abrir festivais, o artista baiano a cumpriu muito bem. Foi sucedido pela sequência de instrumentais densos da Kalouv e da E A Terra Nunca me Pareceu Tão Distante, bandas que fizeram a trilha certinha para aquele fim de tarde e início de noite nublado na capital pernambucana. Foi mais ou menos por aí também que Lady Laay lançava umas rimas dedo na cara no palco Aeso, dedicado a novidades.

Giovani Cidreira. Foto: Felipe Larozza/VICE
Foto: Felipe Larozza/VICE

As atividades no palco Velvet foram abertas pelo mutante Arnaldo Baptista, com seu show "Sarau o Benedito?", acompanhado de seu piano, chão coberto de flores e projeções de pinturas suas. Não era o ambiente mais apropriado pra um show intimista e, com seus quase 70 anos, Arnaldo lançou o jeito mais fofo e sincero de se despedir do público: "Gente, por hoje é só. Desculpa qualquer coisa".

Os caras d'O Terno levaram a Recife seu show com um trio de metais que, somado a um público fiel, elevou bastante o nível da apresentação. A banda só teria a ganhar se incorporasse o naipe de sopros à formação oficial. Pouco depois, o paulistano Kiko Dinucci levou seu noise brasileiro ao palco Sonic e chamou Alessandra Leão para uma participação retribuída no show da pernambucana, que é dona de um vozeirão e desce o braço na percussão. Como já era esperado, Linn da Quebrada fez um baile que envolveu o público à base de muito bate-cabelo, quebra de caretices e discursos contundentes.

O Terno. Foto: Felipe Larozza/VICE
Foto: Felipe Larozza/VICE

Os nova-iorquinos da DIIV eram bastante aguardados e tocaram junto com a chuva, num show sem falhas, mas que também não impressionou. Grata surpresa foi a passagem da Hinds, banda espanhola que, mesmo não sendo nada popular pelos lados de cá, demonstrou muita energia e vontade em cima do palco. Competentes e cheias de simpatia, ganharam o público fazendo uma boa festa de rock barulhento e dançante.

Curumin levou ao Coquetel Molotov a atmosfera de Boca, seu disco mais recente, acompanhado de sua banda dream team e de sons indispensáveis de discos anteriores, além de uma versão para "Mau Juízo", de Anelis Assumpção. "Festivais como esse têm tido uma função muito importante no Brasil. É difícil eu vir tocar em Recife (ainda mais com essa estrutura) e esses eventos põem a música brasileira num bom lugar, além de prezar bastante pela diversidade", afirmou em conversa com a VICE.

Alessandra Leão. Foto: Felipe Larozza/VICE

Um dos poucos nomes do rap no line-up, Rincon Sapiência representou bem o estilo fazendo uma das melhores apresentações do festival. Um momento pra lá de especial foi a participação da cirandeira Lia de Itamaracá, cantando "Moça Namoradeira", em sua versão original e na sampleada pelo manicongo. Nem a falha na equalização de microfones tirou o brilho desse momento, que deixou Rincon visivelmente emocionado.

O que o ÀTTOOXXÁ fez naquela madrugada com certeza entrou pra história do Coquetel Molotov. Parabéns a quem teve a sagacidade de colocá-los como última atração do palco Velvet porque, de todo o line-up, eles foram com certeza o nome certo pra fazer um mini carnaval mesmo após mais de dez horas de festival, colocando o público pra descer sem vergonha e botar a mão no paredão.

Curumin. Foto: Felipe Larozza/VICE
Foto: Felipe Larozza/VICE
Foto: Felipe Larozza/VICE

Prepararam ainda um cuidadoso medley com versões de clássicos da música pernambucana e chamaram Rincon de volta ao palco para a parceria inédita tocando o hit "Elegância". Teve também participação lacradora do coletivo queer baiano Afrobapho - que algumas horas antes havia ocupado o palco Sonic - com direito ao passinho da batedeira com a bunda mais veloz de todo o festival.

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