O ator Christopher Reeve interpretando o Super-homem. Crédito: divulgação

Privilégios que homens héteros ainda têm

Mas que serão abolidíssimos com a ditadura gayzista transviada.

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30 Maio 2018, 4:34pm

O ator Christopher Reeve interpretando o Super-homem. Crédito: divulgação

Antes, um recadinho. Este texto tem foco apenas homens heterossexuais cisgêneros, tá? Cisgênero, ou cis, é quem não é transgênero, ou trans. Com homens trans (héteros ou gays), o papo é outro. Quer saber mais? Escute um homem trans.

Oi, genty. Nesse mês do orgulho LGBTQIA+, fui convidado pela VICE para listar privilégios que homens héteros ainda têm na sociedade brasileira.

Alô, abiguinho hétero (ou gay "que parece hétero" e se orgulha disso), a receita é simples:

1) Leia tudo

2) Reconheça os privilégios listados

3) Seja aliado e assuma algum tipo de compromisso na luta anti-LGBTfobia

3) Pare de ouvir Lobão (aloka)

Há muitos outros privilégios HT, mas eu escolhi nove que são cruciais. Pra cada privilégio, eu vou evocar um tipo de HT que representa o privi em questão. Ok? Ok. Vamas:

PRIVILÉGIO #1 - PODER DAR UNS BJ NA RUA

Alô heteros românticos.

Vocês que adoram desfilar com suas namoradas pela rua, demonstrar afeto em público, dar a mãozinha na mesa do restaurante sem pensar duas vezes. Acho lindo. Mas já pararam pra pensar que algo tão simples e até automático, para nós, ainda é motivo pra pensar pelo menos 10 vezes?

Ainda que, legalmente, a comunidade LGBT não seja impedida de beijar em público, tampouco ela é protegida. Por que precisamos de proteção legal? Porque alguém pode quebrar uma lâmpada na nossa cabeça pelo simples fato de a gente se beijar entre si na rua, ou andar de mãos dadas, ou simplesmente existir, enfim, aquele paju que vocês já sabem.

PRIVILÉGIO #2 - NINGUÉM TENTA TE CURAR DA HETEROSSEXUALIDADE (ENTRE OUTRAS AMEAÇAS)

Evoco aqui o esquerdomacho. Não ia ter como escapar dele.

Você, boy de esquerda que ~até entende~ a necessidade da luta LGBT e feminista, mas vive repetindo aquele texto de que "primeiro vamos fazer a revolução, e depois pensar nessas questões"... então. Só o fato de ninguém tentar, judicialmente, te curar por ser hétero, já demonstra a urgência da nossa luta. Não dá pra esperar, tsá?

Conquistamos bastante coisa babado nos últimos anos (inclusive a despatologização da homossexualidade – ainda que a transgeneridade ainda seja considerada patologia). Mas há várias outras ameaças aos nossos direitos rolando por aí. Segue uma listinha pra você copiar e colar no seu Google docs:

ESTATUTO DA FAMÍLIA: se aprovado, vai tipificar a família como união entre homem cis e mulher cis, o que pretende coibir o direito à adoção LGBT e ao Casamento Civil, e pode ameaçar a União Estável.

ESCOLA SEM PARTIDO: PL federal que pretende proibir a discussão de política, de gênero e de sexualidade nas escolas, punindo professores que isto desrespeitarem. Seus defensores querem punir qualquer aula que ensine sobre sexualidades e identidades de gênero diversas.

“CURA GAY”: já aconteceram duas tentativas, em 2013 e 2017, para autorizar legalmente que psicólogos tratem a homossexualidade como doença e façam “reversão sexual".

NÃO INCLUSÃO NAS ESCOLAS: discussão de gênero e sexualidade não incluída nos planos de educação (Federais, Municipais e Estaduais).

TENTATIVAS DE PROIBIÇÃO da discussão de gênero e sexualidade nas escolas.

DESMONTE DE POLÍTICAS PÚBLICAS como o Rio sem Homofobia, a precarização das Coordenadoras LGBT, a não aplicação do Plano Nacional LGBT, etc.

CRESCIMENTO DA "FRENTE PARLAMENTAR EVANGÉLICA" (fundamentalista), que luta contra o avanço das pautas LGBT e ameaça a laicidade do estado.

PAUTA LGBT UTILIZADA COMO MOEDA DE TROCA, como foi no caso do Escola sem Homofobia em 2011. Direitos LGBT têm sido constantemente usados como moeda de troca com o Governo Federal para aprovar projetos de seu interesse.

Parada do orgulho LGBT de São Paulo. 2017. Foto: Larissa Zaidan/VICE

PRIVILÉGIO #3 - DIREITO À COMPLEXIDADE

Quero trazer aqui o hétero criativão que tira umas foto no Instagram e de repente é reconhecido como artista.

O fato é que você é considerado um artista e ponto. Quando nós, artistas LGBTIA+, entramos no jogo, rapidamente somos colocados na caixinha de "artista LGBT", mesmo que o nosso trabalho não tenha necessariamente a ver com gênero e sexualidade.

Mas eu tô aqui citando o universo da arte só como um dos inúmeros exemplos. Quando a bicha chega num espaço hétero, chovem textos como "ai, adoro vocês gays, tão alegres", ou "o que você achou da minha roupa? Porque vocês são super estilosos né" – mesmo que ela seja super gótica deprê Nightwish e não entenda nada de moda.

Homens hétero e cis têm direito à complexidade: podem ser múltiplos, vários, a(s) pessoa(s) que quiser(em). Já as pessoas LGBT, negras, periféricas, mulheres e outros corpos dissidentes são desumanizadas, produtizadas, reduzidas a um estereótipo. Muitas vezes, só ganham legitimidade quando fazem o que se espera desse estereótipo criado sobre elas.

Somos orgulhosamente LGBT, mas também somos muito mais que isso.

PRIVILÉGIO #4 - DIREITO PLENO ÀS INSTITUIÇÕES

Pode entrar, hétero que acredita na falácia da "ideologia de gênero".

Você acha que falar sobre sexualidade e gênero na escola vai perverter as "nossas crianças". Você acha que esse tipo de questão se resolve na família. Você é um escroto do caralho.

Muitas das famigeradas "nossas crianças" (que não são nossas, né, pessoas não são propriedade, mas essa é outra discussão) começam a acessar suas sexualidades ainda na infância. Ou você vai negar as punhetas que você batia aos 12 anos com a Playboy da Paula Burlamaqui? Pra uma criança viada ou fancha que é oprimida na família e sofre bullying na escola, esse acesso é bloqueado e a criança se sente apenas a pior pessoa do mundo. Discutir sexualidade na escola é urgente pra criar uma cultura de diversidade.

A evasão escolar de pessoas trans no Brasil é de 82% – e essas pessoas também eram crianças viadas e fanchas na escola. Isso porque a experiência escolar é tão insuportável quando você é uma dessas crianças, que várias não aguentam – seja saindo da escola ou, enfim, se matando. As que sobrevivem, com esse acesso CAGADO com a família e a escola, obviamente não vão ter as mesmas oportunidades de educação superior e trabalho no futuro. Quando tem, também sofrem discriminação.

Por isso, entenda: pessoas LGBT não têm acesso saudável às instituições básicas da sociedade: família, educação, trabalho. Não é proselitismo de orientação sexual ou identidade de gênero: é apenas considerar crianças LGBT como humanas.

PRIVILÉGIO #5 - FAZER COSPLAY DE PINTOSA QUANDO CONVÉM

Quero chamar aqui o hétero que ama se fazer de bichona no carnaval pra dar aquela fetichizada gostosa nas nossas vivências.

Gatinho, que bom pra você poder dizer "ai mona", fazer seu cosplay de Pabllo Vittar, "liberar geral" e ter o seu privilégio hétero garantido. Pra nós é um pouco diferente, porque somos monas nos outros 360 dias do ano. E o Brasil, país que mais mata LGBTIA+ do mundo, então, né, tamo aí morrendo por sermos monas.

Então, vamos combinar o seguinte: nossa identidade não é fantasia de carnaval. Ok? Beijinhos.

PRIVILÉGIO #6 - TER REFERÊNCIAS POSITIVAS

Pra esse privilégio, eu evoco o hétero "honrado".

O boy que teve grandes referências de figuras masculinas hetero "heróicas" (mil aspas aqui), seja o Super-homem, o Chorão, o Eike Batista ou o Frank Sinatra.

Eu entendo a sua autoestima delirante: daí de cima, você realmente se enxerga como um grande homem, com uma grande missão no mundo. Afinal, você passou a vida assistindo apenas figuras masculinas, como a sua, protagonizando os rolês do mundo.


Assista à playlist de documentários Semana do Orgulho 2018 curada pelo nosso canal no YouTube.


Pessoas LGBTIA+, pessoas negras e mulheres em geral não têm a mesma referência. A história que nos é contada apaga as mulheres, a população preta e a sexualidade dos homens "importantes" que eventualmente foram/são gays. Pelo contrário: as nossas referências sempre foram motivo de escracho, riso ou "degeneração".

Sim: a crise de representatividade está mudando. Tá rolando uma ascensão inédita e fundamental de artistas, intelectuais, modelos, comunicadorxs e outras pessoas públicas LGBTQIA+. Mas nós ainda temos pouquíssimas referências não-normativas de celebridades da nossa comunidade na mídia brasileira e mundial.

Isso porque, pra chegar no mainstream, os nossos corpos são constantemente adequados ao o "padrão" do homem hétero e cis. Somos bichas educadas a querer parecer o máximo possível com o boy HT branco e magro para ganhar legitimidade enquanto "gay limpinho e aceitável". Isso traz um problema de autoestima babado pra gente.

E não: Ricky Martin não conta como referência.

PRIVILÉGIO #7 - PERTENCER A QUALQUER LUGAR

Ei, você. Topster do "orgulho hétero". Essa é pra você.

Eu sei o que aconteceu contigo. O seu broder Mau Mau Pacheco disse que o melhor lugar pra você pegar as mina® era "a festa dos viado". Tinha sapatão querendo a três com um macho de verdade, ele disse. Tinha umas mina hétero procurando "caras sem preconceito", ele disse. E aí você foi lá, muito fanfarrônico, pra fazer essa linha e voltar pra casa com uma coleção de bucetas. Mas, obviamente, você chegou lá e ninguém te deu a menor moral. Você descobriu que lésbicas curtem mulheres mesmo. Você descobriu que as minas héteros vão a festas LGBT justamente para fugir de caras como você (ainda que várias gays sejam misóginas com elas dentro desses roles, mas isso é pra outro textão).

Em algum momento, você beijou uma garota – e aí descobriu que ela tinha pênis. Você foi violento, tratou ela como homem, quis bater nela. Ela ficou passada e te disse "seu hétero cis escroto! Você não é bem vindo aqui, DESACUENDA". E saiu.

Apesar de não ter entendido o que significa "desacuenda", você se sentiu OPRIMIDO por ser um homem hétero. Meldelsdocéu. Frequentou grupos de Facebook, foi a passeatas pelo orgulho hétero, se viu em uma verdadeira ditadura gayzista transviada sapatômica.

Se sentir "oprimido", "não pertencente", "não bem-vindo" é uma sensação inédita pra você? Olha só que coisa. Pra nós, ela existe desde a infância. Você tem o privilégio de ser "naturalmente pertencente" a qualquer espaço. Nós não – por isso, precisamos dos nossos.

Então… força guerreiro.

PRIVILÉGIO #8 - MAMAR O BRODER APENAS NA BRODERAGEM

Aqui a gente vai tá evocando uns boys que tão ali na fronteira.

Aqui a gente engloba desde o hétero que eventualmente dá (ou recebe) uma mamada dos broder® até o homem gay masculiníssimo e ~discreto~ que, mesmo se dizendo gay, "não é e não curte afeminados".

Porque verdade seja dita, né, gente: transar com outro homem não necessariamente garante que você vá ser oprimido por ser gay. Se você não publiciza sua orientação sexual como IDENTIDADE, você não sofre a opressão estrutural de ser viado. Ou ainda, se você se diz gay e reproduz um padrão h-e-t-e-r-o-n-o-r-m-a-t-i-v-o de existência (ou seja, agir de acordo com a norma de masculinidade hétero como se fosse a única possível), você provavelmente vai sofrer muito menos opressão. E isso é privilégio.

Olha só como a vida nos prega peças.

PRIVILÉGIO #9 - PODER DOAR SANGUE

Oi, hétero médico ou da área da saúde. Turubom? Quero finalizar a lista com você.

Por mais que você negue, vou dropar aqui uma verdade: a medicina e a moral LGBTfóbica caminham lado a lado. E essa relação ainda influencia critérios médicos para definir quem pode ou não doar sangue, por exemplo.

Você deve conhecer a portaria 2712 e 158 do Ministério da Saúde, que impede que homens que fazem sexo com homens doem sangue. Mesmo que o boy use camisinha até pro boquete. Mesmo que o boy seja super normativo, tenha um parceiro fixo, monogâmico, etc. Porque, afinal, só por ser gay, esse corpo já é potencialmente "doente" pra você, néam?

Isso sem falar quando a gente vai tratar uma unha encravada, eventualmente fala que é gay e o médico, ~por precaução~, pede uma sorologia de HIV.

Em tempo: HIV NÃO É VERGONHA. Por mais que seja escroto presumir a prevalência de HIV apenas pela orientação sexual da pessoa, é igualmente escroto quando gays (agora tô falando com vocês, tá, manas?) HIV negativas buscam criar narrativas que desassociam a comunidade LGBT da discussão sobre HIV pra gente parecer "limpinho" – essa sim é uma realidade da nossa comunidade e a pessoa positiva não merece mais ser diminuída, olhada com lentes moralistas, piedosas e/ou patologizantes. Até porque, viver com HIV não implica necessariamente em estar doente, tá? Informem-se.

Então é isso, né, gente. Sorry not sorry pelo textão. Espero que gere reflexão.

Beijas.

Gustavo Bonfiglioli é redator, planejador, repórter, roteirista, diretor, escritor, criativo, artista ativista, LGBT, modelo, produtor, fazedor, gestor de vibes, bixa grandona, ornitorrinca, camaleoa multidisciplimara – ela não para nossa que louca. Sócio-fundador (ou CBO - chief bixa officer) da consultoria Pajubá, Diversidade em Rede com o Ariel Nobre. Membro do coletivo artivista A Revolta da Lâmpada. Saque mais infos no site dele e no Instagram.

Esta matéria faz parte da nossa série especial pra Semana do Orgulho 2018.

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