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A ‘terapia do ecstasy’ para casais

Especialistas gringos afirmam que uso controlado de MDMA pode ser um recurso poderoso nas DRs.

por Grant Stoddard; Traduzido por Amanda Guizzo Zampieri
16 Março 2018, 11:00am

Crédito: Science Photo Library / Nicole Mason

Seria difícil fazer um relato detalhado de meu casamento de oito anos sem mencionar os efeitos que o ecstasy, ou metilenodioximetanfetamina (MDMA), teve nele. Ficamos juntos enquanto estávamos de férias em Ibiza – a ilha espanhola praticamente sinônimo da droga – e a usamos tanto em pílula como em pó.

O primeiro teve efeito mais rápido com uma anfetamina, exatamente o que você quer quando está dançando em turnos de duas, seis horas, todos os dias por dez dias seguidos. O empatógeno construiu nosso relacionamento em uma velocidade tão rápida que logo fizemos planos de morar juntos – e nos realocarmos internamente – antes de revelarmos nossas opiniões divergentes sobre a monogamia. Quando penso nisso, sinto que ter começado o relacionamento sob a influência de drogas tornou possível explorar o poliamor de modo mais consciente, comunicativo e compassivo possível.

Após cinco anos de casamento, uma parceira nova me apresentou para o conceito de “ home rolling”. Ela usou o termo para se referir a tomar MDMA em um ambiente seguro, familiar e aconchegante a fim de se conectar melhor com outra pessoa, um grupo pequeno de pessoas ou mesmo sozinho. Não precisei me esforçar muito para sugerir que eu e minha esposa usássemos nossa droga favorita em um ambiente mais convidativo à comunicação e menos a se destruir na pista ao som do Carl Cox. Sair para dançar, até então, era o único contexto no qual eu costumava usar MDMA. A experiência em casa foi extremamente profunda, terapêutica e aprazível. Reduziu nosso medo e nossa postura defensiva, e aumentou a empatia e a compaixão entre nós dois.

Enquanto percebíamos que essa combinação de efeitos neurológicos servia para renovar nosso relacionamento, pesquisadores afiliados à Associação Multidisciplinar para Estudos com Psicodélicos (MAPS) buscavam saber como a utilização dessa mesma associação poderia ajudar pessoas com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Seus trabalhos resultaram em uma concessão da Food and Drug Administration (FDA) para que a psicoterapia assistida por MDMA para TEPT recebesse a Designação de Terapia Inovadora em agosto de 2017.

Essa designação permite que a FDA garanta prioridade na revisão de fármacos candidatos se seus estudos clínicos preliminares indicarem que a terapia pode oferecer vantagens de tratamento substanciais sobre as opções existentes em pacientes com doenças graves ou potencialmente fatais. Resumindo, uma agência federal dos EUA colocou a revisão em processo acelerado (o chamado “ fast track”) a fim de ser legalmente administrada para ajudar indivíduos com sofrimento psicológico. Mas antes de celebrar essa conquista, é preciso lembrar que o potencial terapêutico da MDMA já é conhecido pelos pesquisadores há mais de 40 anos.

A MDMA foi patenteada pela Merck na Alemanha, em 1914, mas nunca se descobriu um uso para a “metilsafrilamina”, como era conhecida na época. Quando Alexander Shulgin, cientista da Dow Chemical e psiconauta, sintetizou o fármaco nos anos 1960, ele, também o engavetou. Uma década mais tarde, Shulgin foi reapresentado à MDMA por uma aluna do grupo de química médica orientado por ele na Universidade Estadual de San Francisco após testá-lo em porquinhos, e associou seu “efeito especial” a ele. Após testar a droga em si mesmo, em setembro de 1976, e descobrir novas formas de sintetizar o composto químico, Shulgin, muito impressionado, o apresentou a Leo Zeff.

Zeff, um psicoterapeuta de Oakland, passou a utilizar pequenas quantidades de MDMA em suas terapias pela fala. Ele ficou tão entusiasmado com a capacidade da droga em facilitar a comunicação e suscitar empatia que adiou sua aposentadoria e viajou pelo país para levar sua descoberta adiante. Antes de sua morte, em 1988, acredita-se que o Zeff tenha treinado mais de 4 mil terapeutas em estimados 200 mil pacientes.

Não demorou muito para que um número crescente de pessoas compreendesse que a MDMA de modo não terapêutico poderia ser, digamos, divertido. Logo, um grupo de químicos de Boston, e em seguida, em Dallas, nos EUA, estavam trabalhando arduamente para suprir a demanda de MDMA. Entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980, estima-se que 500 mil doses de MDMA tenham sido consumidas. Embora muito menos do que o número de doses vendidas em duas semanas de Ibiza, foi o suficiente para que o órgão de controle e combate às drogas dos EUA (o DEA) começasse a investigá-la em 1982. Em maio de 1985, em meio à campanha “Just Say No” de Nancy Reagan, o DEA tomou medidas emergenciais para criminalizar a MDMA apesar da oposição ferrenha dos terapeutas. Lester Grinspoon, professor emérito de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Harvard, tomou medidas mais drásticas e processou a agência, alegando que ela ignorava o potencial médico da MDMA.

Desde então, a MDMA se tornou uma droga categoria 1, juntamente com a heroína, as catinonas sintéticas (“sais de banho”) e, surpreendentemente, a maconha. (A designação categoria 1, “Schedule 1”, é dada quando o DEA determina que a substância tem grande potencial de abuso e não há uso médico aceito para tratamentos nos EUA.) A proibição aconteceu antes de uma grande quantidade de estudos dos anos 1990 e 2000 demonstrarem alguns efeitos colaterais do uso crônico de MDMA, como perda de memória e depressão.

A MAPS, cujo objetivo principal é “um mundo no qual psicodélicos e a maconha sejam seguros e disponíveis legalmente para usos benéficos, e no qual a pesquisa é governada por avaliações científicas rigorosas sobre seus riscos e benefícios”, formou-se em 1986, um ano após a MDMA ter se tornado ilegal. A MAPS espera que sua visão, ao menos no que diz respeito à MDMA, se concretize pelo menos até 2021.

“A MDMA é o modo mais compassivo de se abordar um trauma”, afirma Dee Dee Goldpaugh, listada pelo MAPS como terapeuta de integração psicodélica. “Curar envolve aliviar muita carga dolorosa. Você precisa enfrentar uma noite escura, o que é muito difícil. Usar MDMA é como dar um cobertor aconchegante às pessoas. Você ainda precisa lidar com muito conteúdo difícil, mas é mais fácil quando se dispõe de acesso a ferramentas emocionais a fim de poder lidar com isso. Temos outros tratamentos alternativos para o trauma – porém, nenhum tão efetivo como o MDMA.”

A análise dos resultados da fase 2 do estudo que levaram a FDA a acelerar o desenvolvimento e a revisão mostram que, independentemente da causa original, o TEPT pode ser tratado somente com duas ou três sessões de psicoterapia assistida com MDMA. Todos os 107 participantes do estudo tinham TEPT crônico e resistente a tratamento, convivendo com essa condição por cerca de 17,8 anos.

Os participantes realizaram três sessões da psicoterapia assistida com MDMA e, dois meses após o tratamento, 61% deles não eram mais considerados portadores do transtorno. No acompanhamento realizado após 12 meses, mais de dois terços (68%) não apresentavam mais o TEPT. A título de comparação, a não resposta à terapia cognitivo-comportamental (TCC) – que costuma levar muitos anos – pode ser maior que 50%.

Assim como a terapia assistida com MDMA é a maior prioridade da MAPS, a organização também apoia pesquisas com a terapia assistida por MDMA em adultos autistas com ansiedade social, e para ansiedade relacionada a doenças potencialmente fatais. Contudo, a organização com sede em Santa Cruz, Califórnia, e seus terapeutas filiados, como Goldpaugh, têm uma visão mais abrangente da aplicação, incluindo a utilização de Zeff desde que ele pôs suas mãos no fármaco: terapia de casais.

“Se eu pudesse descrever a prática ideal de como eu trabalharia com um casal, seria assim: eu faria inúmeras sessões com eles, tanto individuais quanto conjuntamente, para estabelecer o trabalho”, Golpaugh afirma, antes de explicar que uma sessão assistida com MDMA poderia levar até um dia inteiro. Ela imagina uma sessão estruturada de oito horas na qual o casal tenha sua própria experiência, com o terapeuta presente na forma de uma força de apoio capaz de orientar o caminho, se necessário. “Isso é totalmente diferente do protocolo de tratamento para indivíduos com TEPT em que o terapeuta é unicamente um observador de apoio.”

Depois da parte psicolítica do cenário – a parte em que o casal está em um estado empático engendrado pela droga – há o pós-cuidado e o processamento, os quais continuariam nas sessões subsequentes, ela me conta.

“Uma das coisas que mais me intriga é a parte financeira”, Goldpaugh afirma. “Quem terá acesso a esse tipo de tratamento? Queria que todos pudessem se beneficiar desse medicamento, e ter acesso a ele, mas são necessários trabalho, preparação e tempo.”

Golpdaugh está confiante que o MDMA prescrito por um clínico não será vendido em qualquer farmácia de esquina, mas sim, seria adquirido e administrado somente pelo terapeuta. “O MDMA de nível farmacêutico é incrivelmente seguro quando administrado no contexto e na quantidade corretos”, ela afirma; ponto de vista apoiado pela fase 2 do estudo em pacientes com TEPT, em que houve somente um evento adverso entre 780 pacientes. Os autores do estudo observaram que o “MDMA aumenta apenas transitoriamente a frequência cardíaca, a pressão arterial e a temperatura corporal de modo dose-dependente, o que não costuma ser problemática em indivíduos saudáveis”.

“Praticamente tudo o que se compra nas ruas está fortemente adulterado”, ela afirma. “Isso se deve em parte à grande dificuldade de conseguir os compostos químicos para produzi-la. Provavelmente o que você comprar no mercado norte-americano estará adulterado com uma quantidade grande de outras coisas.”

O MDMA misturado com outras substâncias, ou substâncias que não contenham MDMA, é um perigo tanto para usuários recreacionais quanto para os que buscam terapias clandestinas assistidas por MDMA nesses 33 anos desde que se tornou uma droga ilegal. “As terapias clandestinas com MDMA persistem até hoje, e de um modo bastante robusto”, Goldpaugh afirma. “Os fornecedores podem variar desde pessoas treinadas e competentes a pessoas do tipo ‘vou te dar o que acredito ser MDMA, sentar ao seu lado e cobrar X dólares por isso’.”

O outro problema desse segundo cenário, Goldpaugh me conta, é que a MDMA pode permitir que conteúdo inconsciente reprimido submerja; algumas lembranças podem abalar o sistema nervoso e precisam ser abordados profissionalmente. “Tive clientes que passaram por um tratamento clandestino e saíram de lá com informações desconhecidas por eles”, ela disse. “Lembranças de abuso sexual na infância, aspectos da infância com os quais elas estão presas. Por isso, o processamento adequado por um terapeuta treinado é muito importante – você simplesmente não sabe quais estruturas serão abaladas.”

Como mencionado anteriormente, o MDMA teve um papel muito importante no início do meu longo relacionamento, e me ajudou a aprofundá-lo alguns anos mais tarde. Em retrospecto: não consigo não pensar que sua ausência teve a ver com o fim do meu casamento. De certo modo, apesar de meus pedidos repetidos, minha esposa não quis mais participar de nosso home roll bianual. O motivo, ela disse, era que não queria passar o dia seguinte se sentindo letárgica. Em um ano, nós nos separamos e vendemos a casa. Seu segundo marido se tornou o único.

A última vez que vi Goldpaugh foi na condição de minha terapeuta quando eu e minha ex-esposa ainda estávamos juntos. Eu me interessei por ela porque li a respeito de sua experiência no trabalho com indivíduos LGBTQA e com pessoas e casais poliamorosos.

Após conversar por algum tempo sobre as implicações do futuro da MDMA no cenário terapêutico, perguntei a ela se acreditava que o início baseado em químicos e o desenvolvimento de meu casamento significava que a nossa conexão era, até certo ponto, falsa. Ela afirmou não haver um nenhum jeito de saber se nossa conexão teria sido diferente se não tivéssemos nos encontrado sob efeito de MDMA e feito uso dele quase terapeuticamente nos anos seguintes.

Contudo, ela citou o trabalho da antropóloga Helen Fisher, que observou que, durante os estágio iniciais da formação de uma relação amorosa com um parceiro novo, nossos cérebros estão sobrecarregados com dopamina, norepinefrina e serotonina – os mesmos neurotransmissores ativados pela MDMA. “Se apaixonar é basicamente a natureza da MDMA”, ela me contou. “Se você entrar em um relacionamento que resulta em um vínculo seguro e duradouro – que foi o que aconteceu com você –, então eu nem me preocuparia a respeito do papel da MDMA no encontro de vocês.”

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